A escalada da instabilidade política e militar na Venezuela, intensificada após ações diretas dos Estados Unidos (EUA) que resultaram na captura de Nicolás Maduro, tende a produzir efeitos indiretos, porém relevantes, sobre o agronegócio brasileiro.
Embora o país vizinho não seja atualmente um parceiro central do agro nacional, especialistas apontam que os impactos devem surgir por canais indiretos. “Os reflexos da instabilidade venezuelana para o agro brasileiro aparecem menos de forma direta e mais por canais indiretos ligados a energia, custos, mercados e geopolítica regional”, afirma João Alfredo Lopes Nyegray, professor de negócios Internacionais e Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).
Segundo ele, mesmo impactos indiretos ganham relevância em um setor altamente sensível à previsibilidade internacional. “Estamos falando de um agro que já opera com margens apertadas. Qualquer volatilidade adicional em insumos, logística ou financiamento tende a ser corrosiva”, salienta.
Petróleo mais caro e efeito em cadeia
O primeiro canal indireto de transmissão desse efeito, de acordo com Nyegray, é o petróleo. Apesar de a Venezuela produzir atualmente volumes modestos em relação ao passado, o país segue sendo um ativo estratégico no mercado global de energia. “Qualquer instabilidade prolongada, seja por conflito, tutela externa ou incerteza institucional, adiciona prêmio de risco ao barril”, explica.
Esse prêmio se reflete diretamente no custo do diesel — principal combustível das máquinas agrícolas, tanto para preparo do solo quanto para colheita. “Diesel mais caro e mais volátil afeta tudo: transporte de grãos, operação de máquinas, frete rodoviário até os portos e preparo do solo. Mesmo sendo produtor de petróleo, o Brasil não está imune de oscilações, já que o preço interno responde à dinâmica internacional”, lembra.
Dados e análises do mercado reforçam esse diagnóstico. Conforme explica Gustavo Vasquez, responsável por precificação de petróleo das Américas na Argus, as ações militares dos EUA elevaram de forma significativa a incerteza sobre a produção e as exportações venezuelanas. “A perspectiva imediata para as exportações da Venezuela é incerta”, destaca.
Antes mesmo da ofensiva norte-americana, ele lembra que fornecedores já estavam relutantes em ofertar cargas, após a apreensão de navios pelos EUA em dezembro passado. Hoje, a produção venezuelana gira em torno de 934 mil barris por dia, muito abaixo dos níveis pré-sanções, e não há perspectiva realista de aumento no curto prazo, segundo estimativas da Organização dos Países Exportadores de Petróleo compiladas pela Argus.
Fertilizantes, risco regional e logística
Outro ponto sensível diante do cenário é o mercado de fertilizantes. Embora a Venezuela não seja fornecedora relevante para o Brasil, o professor alerta para o efeito sistêmico. “O mercado global de fertilizantes é concentrado e muito sensível a choques geopolíticos. Se a instabilidade venezuelana se soma a tensões na Rússia e no Oriente Médio, o resultado é pressão sobre preços e contratos”, diz.
Ele salienta que esse ambiente pode afetar diretamente o planejamento das safras brasileiras, especialmente em um contexto de crédito mais seletivo e custos elevados.
Além dos insumos, a crise coloca a América do Sul no centro das atenções globais, reforçando a percepção de risco no continente. “Para o agro, isso significa maior cautela dos investidores em infraestrutura e logística, além de possível encarecimento de seguros e financiamentos”, afirma.
Na logística marítima, no entanto, os efeitos ainda são limitados fora da Venezuela. Segundo a Argus, o afretamento de navios na América Latina permaneceu estável após o ataque, com a rota Brasil–China operando no menor custo em cinco meses, cerca de US$ 2,90 por barril.
China, energia e imagem do Brasil
A crise também se conecta à disputa estratégica entre EUA e China. Hoje, refinarias independentes chinesas absorvem a maior parte do petróleo venezuelano — cerca de 430 mil barris por dia, de acordo com dados compilados pela Argus. Enquanto isso, estatais chinesas evitam o produto por conta das sanções à Venezuela.
Para Nyegray, qualquer aumento da influência norte-americana sobre a Venezuela reduz a margem de manobra energética chinesa no hemisfério ocidental. Ainda assim, ele vê pouco espaço para ganhos diretos do Brasil na área energética. “O Brasil tem gargalos logísticos relevantes”, pontua.
O possível benefício estaria em outra frente. “Num cenário de instabilidade prolongada na Venezuela, o Brasil pode reforçar sua imagem como fornecedor estável de alimentos”, afirma. Isso poderia favorecer contratos de longo prazo para grãos e proteínas animais, sobretudo com a China.
Arroz: rearranjo desfavorável ao Brasil
No comércio bilateral, a Venezuela, historicamente, foi um destino importante para o arroz brasileiro. Em 2025, o país importou 165,7 mil toneladas de arroz em casca do Brasil, o equivalente a 32,4% das exportações nacionais desse produto, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria do Arroz (Abiarroz), consolidados até novembro.
Atualmente, no entanto, o cenário para o suprimento de arroz à Venezuela entra em uma fase de incerteza, que dependerá diretamente dos próximos passos da transição política e da estrutura de tutela a ser estabelecida pelos EUA. “Os fatos recentes podem impactar a dinâmica de comércio e abastecimento do mercado venezuelano, culminando em um rearranjo nas relações comerciais e no fluxo de fornecimento de arroz para o país”, destacou a Abiarroz em nota.
Para a entidade, a atuação do governo norte-americano em relação à Venezuela pode resultar na reconfiguração de fornecedores, “favorecendo parceiros alinhados à atual conjuntura geopolítica e abrindo espaço para uma substituição de origens potencialmente desfavoráveis ao Brasil no fornecimento do arroz”.
Nesse contexto, a entidade afirma que a prioridade do setor é garantir que este canal comercial histórico não seja desestruturado por distorções de mercado que prejudiquem a competitividade do arroz brasileiro.



