Para a economia do Brasil voltar a crescer, é necessário resolver a crise institucional

Tornou-se praticamente um consenso entre analistas políticos, juristas e economistas de que o Brasil atravessa uma profunda crise institucional. Não se trata de uma crise episódica ou meramente retórica, mas sim um processo duradouro, cumulativo e persistente, que afeta o funcionamento regular das instituições, corrói a previsibilidade das regras do jogo e compromete diretamente a capacidade de crescimento econômico do país.

O Brasil não vive apenas dificuldades fiscais ou desafios conjunturais. Vive, sobretudo, um desarranjo institucional que coloca o Estado em antagonismo com o setor produtivo e aprisiona a economia em um ciclo vicioso de baixo crescimento, insegurança jurídica e desconfiança generalizada.

Esse acúmulo de crises institucionais se manifesta de diversas formas. A disputa permanente entre os Poderes da República, a instabilidade nas regras orçamentárias escancarada na disputa pelo orçamento secreto, a expansão contínua de prerrogativas e privilégios de determinados segmentos estatais e a crescente judicialização de decisões políticas e econômicas produzem um ambiente de tensão permanente. O Estado, em vez de atuar como garantidor de regras claras, previsíveis e impessoais, passa a operar como agente de incerteza.

O conflito recorrente em torno das emendas parlamentares é exemplo eloquente desse desarranjo. O orçamento público, que deveria ser um instrumento racional de planejamento e execução de políticas públicas, transforma-se em arena de disputa de poder entre Executivo, Legislativo e Judiciário.

Alterações frequentes nas regras, decisões judiciais que interferem diretamente na dinâmica política e respostas institucionais baseadas mais na lógica do conflito do que na cooperação produz um ambiente de paralisia decisória. O resultado é a perda de eficiência do gasto público, o enfraquecimento da responsabilidade fiscal e a percepção de que o orçamento deixou de ser instrumento técnico para se tornar moeda de troca política.

Privilégios nos setores estatais

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Esplanada dos Ministérios, em Brasília | Foto: Erich Sacco/Shutterstock

Agora temos outro exemplo emblemático: o caso do Banco Master, que expõe fragilidades regulatórias, inseguranças jurídicas escancaradas pelo envolvimento de familiares de ministros da Suprema Corte. Independentemente dos méritos específicos do caso, o episódio revela um padrão recorrente: decisões administrativas e judiciais que afetam diretamente agentes econômicos sem previsibilidade clara, com impactos relevantes sobre o sistema financeiro, a confiança dos investidores e o ambiente de negócios. A mensagem transmitida ao mercado é inequívoca: no Brasil, o risco institucional frequentemente supera o risco econômico.

Esse cenário soma o acúmulo histórico de privilégios do Judiciário e de outras carreiras estatais, que agravam a percepção de desigualdade institucional. Benefícios remuneratórios elevados, regimes especiais e baixa responsabilização convivem com um país de elevada carga tributária, serviços públicos deficitários e enorme desigualdade social. Essa assimetria mina a legitimidade das instituições e reforça a ideia de que o Estado opera mais como mecanismo de proteção de corporações nacionais do que como promotor do interesse público.

“O Brasil, infelizmente, apresenta cada vez mais traços de um sistema institucional extrativista”

A economia institucional oferece um arcabouço teórico sólido para compreender por que esse ambiente institucional é incompatível com o crescimento econômico sustentável. Daron Acemoglu e James Robinson, vencedores do Nobel de Economia, demonstraram de forma contundente que o desenvolvimento económico depende fundamentalmente da qualidade das instituições. Instituições inclusivas, aquelas que garantem direitos de propriedade, impõem limites ao poder, promovem concorrência e asseguram previsibilidade jurídica, criam incentivos para investimento, inovação e aumento da produtividade. Em contrapartida, as instituições extrativistas concentram poder, capturam rendas, distorcem incentivos e bloqueiam o crescimento.

O Brasil, infelizmente, apresenta cada vez mais traços de um sistema institucional extrativista. A instabilidade regulatória, a interferência discricionária do Estado na economia, a captura de recursos por grupos organizados e a ausência de autocontenção institucional produzem um ambiente no qual empreender, investir e produzir se tornam atividades de alto risco.

Nesse contexto, o setor produtivo passa a operar de forma defensiva, buscando proteção política, subsídios ou vantagens regulatórias, em vez de competir por eficiência e inovação. Forma-se, assim, um ciclo vicioso: as instituições frágeis geram baixo crescimento, que, por sua vez, alimentam disputas distributivas ainda mais intensas dentro do Estado.

Por uma economia institucional

Impostos Governo Dinheiro
‘É ilusório imaginar que reformas econômicas isoladas produzirão resultados duradouros sem a resolução da crise institucional’ | Foto: Reprodução/Agência Brasil/Marcello Casal Jr.

A tradição da economia institucional, de Douglass North a Acemoglu, é clara ao afirmar que o crescimento econômico não é resultado apenas de boas políticas macroeconômicas, mas da existência de regras específicas, aplicação confiável e limites eficazes ao exercício do poder. Quando as instituições deixam de cumprir sua função de coordenadora e passam a ser arenas permanentes de conflito, o custo de transação aumenta, a confiança desaparece e a economia perde dinamismo.

É ilusório imaginar que reformas econômicas isoladas produzirão resultados duradouros sem a resolução da crise institucional. Ajustes fiscais, reformas tributárias ou medidas de estímulo perdem eficácia quando implementadas em um ambiente de instabilidade política e jurídica. O crescimento econômico sustentável exige, antes de tudo, a restauração da normalidade institucional, entendida como respeito aos limites constitucionais, previsibilidade decisória e cooperação entre os Poderes.

Essa restauração pode ocorrer por dois caminhos não excludentes: correção institucional ou a tão clamada autocontenção. A correção institucional envolve reformas que redefinem competências, reduziram privilégios, fortaleceram mecanismos de responsabilização e restabeleceram o equilíbrio entre os poderes. A autocontenção, por sua vez, exige maturidade democrática e compromisso das próprias instituições em consideração seus limites, evitando expansões indevidas de poder e interferências que geram insegurança sistêmica.

Sem esse esforço, o Brasil continuará preso a um modelo no qual o Estado se antagoniza com quem produz, investe e gera empregos. O resultado é conhecido: crescimento medíocre, fuga de capitais, informalidade elevada e frustração social crescente. Enquanto não resolver esse desarranjo, o país continuará condenado a ciclos de expectativas frustradas. O crescimento brasileiro passa, necessariamente, pelas dependências de instituições que deixam de extrair e passam a incluir, que deixam de conflitar e passam a coordenar. Sem isso, qualquer promessa de desenvolvimento será apenas retórica.

Pedro Henrique Engler Urso é mestrando em Direito Político Econômico na Universidade Presbiteriana Mackenzie, pós-graduado em Direito da União Europeia pela Universidade de Coimbra, formado em Direito e Comércio Exterior e membro dos Jovens Talentos pela Liberdade do Instituto Millenium.

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