Mercosul-UE: carnes ganham com acordo, mas impactos são distintos entre bovinos, aves e suínos

O acordo comercial entre Mercosul e União Europeia (UE) tende a gerar um impacto estrutural para o setor brasileiro de carnes, com efeitos distintos entre as cadeias de bovinos, aves e suínos. 

Segundo as simulações do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), com o acordo o Brasil deverá registrar um crescimento de 19,7% nas exportações de carnes de suínos e aves e de 5,1% nas exportações de carne bovina nos próximos anos. Apenas o setor de carne bovina, por exemplo, adicionaria algo em torno de US$ 521 milhões ao saldo da balança comercial do setor, enquanto carnes de suínos e aves podem responder por cerca de US$ 2,57 bilhões.

Menos volume, mais arrecadação

No caso da carne bovina, o acordo prevê uma cota de 99 mil toneladas em peso carcaça, dividida entre 55% de carne resfriada e 45% congelada, com tarifa intraquota de 7,5% e crescimento gradual ao longo de seis etapas. Além disso, a Cota Hilton, que estabelece um volume limite de exportação de 10 mil toneladas, terá a tarifa reduzida de 20% para zero com a entrada em vigor do acordo.

Para Fernando Iglesias, economista e analista da Safras & Mercado, o impacto não será tanto quantitativo, mas qualitativo. “Não é um acordo para explosão de volume e sim de arrecadação, já que estamos falando de cortes de maior valor agregado”, explica. 

A análise é reforçada pelo atual contexto europeu. O especialista explica que a União Europeia enfrenta um cenário deficitário de rebanho, o que tende a elevar a necessidade de importações no curto prazo. “Isso deve permitir ao Brasil avançar em vendas já no curtíssimo prazo, mesmo com a concorrência da Argentina que também faz parte do acordo”, indica. 

Os números do Ipea reforçam a perspectiva. Segundo o instituto, o valor da produção da carne bovina no Brasil deve crescer 1% com o acordo, enquanto que, na União Europeia, há retração de 1,5%. 

Carnes de aves e suína

Se na carne bovina o ganho é de valor, na carne de aves o ganho é de volume. O acordo estabelece uma cota de 180 mil toneladas, com tarifa zero, divididas igualmente entre cortes com osso e desossados. 

Conforme noticiado pelo Agro Estadão, ao comemorar a ratificação por parte da maioria dos países europeus, a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) destacou que o principal ganho do tratado é, justamente, “a criação de um novo contingente tarifário adicional de 180 mil toneladas anuais isentas de tarifa”, a ser compartilhado entre os países do Mercosul e implantado de forma gradual ao longo de seis anos. 

Diante de um mercado marcado por episódios recorrentes de influenza aviária de alta patogenicidade na Europa e nos Estados Unidos, o Brasil surge como fornecedor estratégico. “É um volume importante, que vai ajudar a motivar as vendas e ampliar a presença brasileira no mercado europeu”, afirma Iglesias.

Para a carne suína, o impacto tende a ser mais restrito, uma vez que a Europa é um dos maiores produtores e exportadores globais da proteína de porco, com destaque para a Espanha e Alemanha.

Assim, mesmo que o acordo preveja uma cota de 25 mil toneladas, com tarifa intraquota de € 83 por tonelada, os efeitos esperados na cadeia são mais limitados frente à carne bovina e de aves. “Eu não vejo grandes mudanças para a carne suína brasileira. A União Europeia é extremamente competitiva nesse mercado”, avalia Iglesias.

Porém, isso não significa que não haverá ganhos. Com o provável aumento de demanda, o setor de carnes de suínos e aves deve registrar um crescimento de 8,9% no nível de emprego no Brasil, conforme os dados do Ipea. No valor da produção, o avanço brasileiro chega a 9,2%, contra queda de 2,4% no bloco europeu.

Efeitos macroeconômicos e próximos passos

No agregado, o acordo Mercosul–União Europeia amplia o valor da produção da agroindústria brasileira em US$ 10,9 bilhões, segundo o Ipea, ao mesmo tempo em que reduz a produção europeia em vários segmentos agropecuários. 

Ainda assim, antes de entrar em vigor após a assinatura — prevista para 17 de janeiro, no Paraguai —, o acordo ainda precisa vencer etapas decisivas: aprovação no Parlamento Europeu — diante de protestos de agricultores europeus —, e ratificação nos Congressos de Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Ainda não há um prazo para que todos os processos sejam concluídos.

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