Às vésperas da assinatura do acordo entre a União Europeia e o Mercosul, agricultores europeus seguem protestando contra o tratado.
Nesta terça-feira, 13, produtores franceses conduziram cerca de 350 tratores pelas avenidas de Paris em direção ao Parlamento. Além de se posicionarem contra o acordo Mercosul-UE, o grupo mostra ainda sua indignação com a baixa remuneração que, segundo eles, ameaça seus meios de subsistência. Nesse ponto, eles cobram do governo reajustes no orçamento para 2026.
Escoltados pela polícia, os tratores causaram tumulto no trânsito da hora do rush na capital francesa. Eles percorreram a Champs-Élysées e outras avenidas de Paris, e depois atravessaram o rio Sena para chegar à Assembleia Nacional.
No início da tarde local, a ministra da Agricultura, Annie Genevard, se reuniu com Damien Greffin, vice-presidente da FNSEA — principal associação representativa agrícola do País —, e uma delegação de 12 agricultores, antes de uma sessão de perguntas ao governo. Espera-se que a mobilização agrícola seja debatida na sessão.
Enquanto não tem suas reivindicações atendidas, os agricultores franceses devem continuar nas ruas. Na região da Occitânia, no sudoeste da França, os quatro principais sindicatos agrícolas estão convocando uma manifestação em Toulouse para quarta-feira, 14.
A porta-voz do governo francês, Maud Bregeon, disse à emissora TF1 que o governo fará novos anúncios em breve para ajudar os agricultores. O presidente Emmanuel Macron e seu governo se opõem ao acordo comercial UE-Mercosul, no entanto, espera-se que o documento seja assinado no Paraguai no próximo sábado, uma vez que conta com o apoio da maioria dos outros países da UE.
Por que a França protesta contra o acordo Mercosul-UE?
Protestos agrícolas na França continuam nesta quarta, com manifestação marcada em Toulouse. | Foto: FNSEA/Divulgação
Há algum tempo os agricultores franceses e em outros países como Polônia, Irlanda e Áustria temem o acordo comercial com os países do Mercosul — Brasil, Argentina, Bolívia, Paraguai e Uruguai. O grupo argumenta que o acordo desencadearia uma inundação de produtos baratos em seus mercados, desestimulando ainda mais a atividade agrícola local.
O ex-pesquisador da Embrapa, Evaristo de Miranda, que fez estudos de agronomia na França, mestrado e doutorado, apurou que, em média, desde 2010, 27 fazendas desapareceram por dia na França. Somente no período de 2020 até 2023, aproximadamente 40 mil propriedades fecharam suas portas. Apesar do encolhimento no número de propriedades, a área agrícola francesa praticamente não diminuiu nas últimas décadas.
O que ocorreu, segundo os dados analisados por Evaristo de Miranda, foi uma concentração das terras, com o desaparecimento de pequenas e médias fazendas e o fortalecimento de unidades maiores, mais capitalizadas. Ainda assim, o fenômeno não foi suficiente para conter a perda de competitividade do setor. Além disso, a França se tornou dependente da importação de fertilizantes, inclusive de países fora da União Europeia, o que pressiona ainda mais as margens dos produtores.
Mesmo sendo uma das maiores potências agrícolas do continente — responsável por cerca de 18% da produção agrícola da União Europeia —, a França importa aproximadamente 20% dos alimentos que consome, conforme os dados do pesquisador.
Em alguns segmentos, como o de aves, a dependência externa é ainda maior: cerca de 45% da carne de frango consumida no País vem do exterior. Esse cenário alimenta o temor de que a abertura comercial com o Mercosul amplie a entrada de produtos mais baratos, aprofundando a crise no campo francês.
A insatisfação se estende à Política Agrícola Comum (PAC), principal instrumento de apoio ao campo na União Europeia. Embora a França receba cerca de €13 bilhões por ano em subsídios, grande parte desses recursos é distribuída com base na área cultivada, e não na eficiência produtiva. Para os agricultores, o modelo não tem sido suficiente para compensar os custos crescentes nem para proteger o setor diante da concorrência internacional.
Apreensão vai além das fronteiras da França
O temor não é exclusivo dos produtores franceses. Agricultores de vários países da União Europeia também têm se manifestado contra o acordo Mercosul-UE. A oposição vai desde manifestações em Varsóvia, na Polônia, até bloqueios de estradas na Irlanda e protestos de pequenos agricultores na Grécia.
Na Polônia, cuja agricultura se transformou nas últimas décadas, o setor ocupa posição de destaque no cenário europeu. Conforme dados do EuroStat, o País é hoje o maior produtor de carne de frango da União Europeia, com cerca de 3,25 milhões de toneladas produzidas em 2024 e mais da metade exportada para outros mercados. Atualmente, figura entre os maiores exportadores continentais em outras cadeias agroalimentares.
Produtores poloneses e líderes de sindicatos rurais afirmam que a abertura de mercados promovida pelo acordo com o Mercosul pode agravar a concorrência com produtos importados que provavelmente serão oferecidos a custos menores. Eles questionam ainda os padrões regulatórios diferentes daqueles exigidos na UE. Para eles, isso representa risco direto à competitividade das carnes suína e de frango produzidas internamente — segmentos em que a Polônia tem forte presença no comércio europeu.



