O marxismo constitui, antes de tudo, uma filosofia da negatividade histórica, uma vez que em Marx, a sociedade capitalista não se transforma por meio do consenso, da mediação ou da estabilidade, mas pela intensificação de suas contradições internas. A luta de classes não é um elemento contingente da história, mas sua própria estrutura dinâmica.
À luz desse pressuposto, este ensaio sustenta a tese de que tanto o lulismo quanto o chavismo, embora frequentemente apresentados como experiências de esquerda, constituem, em seus fundamentos, uma negação dos fundamentos epistemológicos do pensamento marxiano.
Essa negação não se dá apenas no plano das políticas públicas ou da estratégia governamental, mas no nível mais profundo da filosofia marxiana: na recusa do conflito como motor da transformação, na substituição da emancipação pela gestão e na absolutização do Estado como mediador da vida social.
1. Marx e a centralidade do conflito
Marx herda de Hegel a compreensão dialética da realidade, mas rompe decisivamente com o idealismo ao afirmar que a contradição não se resolve no pensamento, e sim na práxis histórica. O antagonismo entre capital e trabalho é real, material e irreconciliável dentro da ordem capitalista. Por isso, a luta de classes não é uma opção política, mas uma necessidade estrutural.
Qualquer projeto que busque transformar a sociedade sem enfrentar esse antagonismo abdica, desde o início, do núcleo marxiano. É precisamente esse abandono que Singer (2009) identifica como traço constitutivo do lulismo. Ao definir o lulismo como uma “proposta de mudança que não passe pelo conflito”, Singer explicita a substituição do paradigma marxiano da luta de classes por uma política de conciliação e estabilidade.
Do ponto de vista Marx, essa neutralização do conflito não representa uma forma superior de racionalidade política, mas uma ideologia da ordem. A contradição não é superada, apenas silenciada. O capital continua a se reproduzir, agora sob a mediação de um Estado que administra os efeitos sociais da exploração.
2. A inversão do papel do proletariado
Oliveira (2010) aprofunda essa crítica ao formular o conceito de “hegemonia às avessas”, tendo em vista que, segundo o autor, sindicatos e partidos operários são instrumentos históricos de organização do proletariado para a destruição das relações capitalistas de produção. No lulismo, entretanto, essas estruturas são integradas ao próprio funcionamento do capital.
Dessa forma, os dominados passam a gerir a acumulação sem alterar sua lógica, tal como nos casos dos fundos de pensão, bancos e mecanismos financeiros que passam a ser geridos por burocracias oriundas do movimento sindical. Assim, o proletariado deixa de ser sujeito revolucionário e converte-se em gestor da ordem que o explora.
Essa inversão constitui uma negação direta da emancipação humana tal como concebida por Marx. Em A questão judaica (2010), Marx distingue emancipação política e emancipação humana, afirmando que a primeira é insuficiente enquanto as relações materiais de dominação permanecem intactas. O lulismo permanece restrito à emancipação política e administrativa, renunciando à transformação das condições estruturais da exploração.
3. Consumo e a dissolução da consciência de classe
Ricci (2010) introduz um elemento decisivo para compreender essa renúncia: a centralidade do consumo. Em Marx, o fetichismo da mercadoria é a forma pela qual as relações sociais aparecem como relações entre coisas, ocultando a exploração do trabalho. A crítica marxiana visa romper esse fetichismo, permitindo o surgimento da consciência de classe.
Ricci argumenta que o lulismo opera no sentido inverso: em vez de formar sujeitos políticos, produz consumidores integrados. O trabalhador deixa de se reconhecer como produtor explorado e passa a se identificar como consumidor incluído, mediado pelo Estado. Com isso, a identidade de classe é dissolvida em lógica de mercado.
Do ponto de vista marxiano, essa transformação representa uma traição epistêmica e moral contra a classe trabalhadora. A lógica petista-lulista de inclusão pelo consumo reforça o fetichismo da mercadoria e desloca a política do campo da produção para o da circulação, substituindo o conflito estrutural entre capital e trabalho por uma promessa de acesso ao mercado.
4. O chavismo e o Estado como novo capitalista coletivo
Se no lulismo a negação do marxismo se dá pela conciliação e pelo consumo, no chavismo ela se manifesta pela absolutização do Estado. Marx jamais concebeu o socialismo como mera estatização da economia. Ao contrário, no Manifesto do partido comunista, afirmou que o Estado é uma forma histórica da dominação de classe e que sua superação é condição da emancipação humana. É verdade que Marx admite uma fase transitória, a ditadura do proletariado, mas sempre como caminho para a extinção do Estado, não sua perpetuação como patrão coletivo.
No chavismo, conforme Moraes e Walmrath (2019), essa experiência assume a forma de capitalismo de Estado, pois não supera o modus operandi capitalista, apenas o estatiza: a extração de mais-valia continua presente, agora sob o controle de uma burocracia estatal e militarizada. Essa configuração contrasta com a perspectiva marxiana de extinção do Estado como mediador da vida social, tal como exposta no Manifesto Comunista e na Crítica ao Programa de Gotha. O capital privado é substituído por um capital estatal, sem que haja gestão coletiva dos produtores associados. Assim, longe de constituir socialismo, o chavismo configura um capitalismo de Estado em que o próprio Estado se converte em patrão coletivo, mantendo intacta a separação entre trabalhadores e meios de produção e perpetuando a exploração, apenas sob uma nova forma institucional.
5. Considerações finais
Lulismo e chavismo compartilham um traço fundamental: ambos recusam a negatividade constitutiva do marxismo ao neutralizar o conflito, transformar o proletariado em gestor, substituir a consciência de classe pelo consumo e absolutizar o Estado, tais experiências negam os fundamentos da crítica marxiana ao capitalismo. Governar em nome dos pobres não equivale a superar a exploração, visto que em Marx, a emancipação humana exige a destruição das condições que transformam o trabalho e a vida em mercadorias.
Não se trata apenas de negar os efeitos distributivos e o historicismo do pensamento marxiano, mas de utilizar sua linguagem para estabelecer um projeto de poder que, em nome da justiça social, se apropria do capital em benefício de uma elite burocrática. É doloroso ver pessoas de boa índole defenderem tais projetos sem perceber que, ao fazê-lo, sustentam uma cleptocracia burocrática que perpetua a exploração. Mais grave ainda é constatar que intelectuais que leram Marx se reconhecem nesse simulacro de emancipação, confundindo estatismo e consumo com libertação.
Referências
MARX, Karl. A questão judaica. Tradução de Nélio Schneider. São Paulo: Boitempo, 2010.
_________. Crítica ao Programa de Gotha. Tradução de Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2012.
__________. Manuscritos econômico-filosóficos de 1844. Tradução de Jesus Ranieri. São Paulo: Boitempo, 2004.
__________. O capital: crítica da economia política. Livro I. Tradução de Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2013.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. Tradução de Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2007.
WALMRATH, Lucas Lemos; MORAES, Wallace de. O Chavismo implantou o socialismo na Venezuela? Um estudo de caso sobre como conceituar economias contemporâneas. Cadernos do Tempo Presente, São Cristóvão, v. 10, n. 2, p. 72-93, jul./dez. 2019.
OLIVEIRA, Francisco de; BRAGA, Ruy; RIZEK, Cibele Saliba (orgs.). Hegemonia às avessas: economia, política e cultura na era da servidão financeira. São Paulo: Boitempo, 2010.
RICCI, Rudá. Lulismo: da era dos movimentos sociais à ascensão da nova classe média brasileira. Brasília: Fundação Astrojildo Pereira, 2010.
SINGER, André. Raízes sociais e ideológicas do lulismo. Novos Estudos CEBRAP, n. 85, p. 83-102, 2009.
Professor Dogival Dourado
Dogival de Melo Dourado
Mestre em filosofia e teologia, professor efetivo de filosofia no Estado do Acre


