Preço do café sobe acima de 40% e puxa alta dos alimentos no Brasil

Mesmo com safra elevada, queda no arábica, clima adverso e custos altos explicam a escalada dos preços.

O tradicional café diário do brasileiro se transformou em um dos maiores vilões do orçamento doméstico ao longo do último ano. Mesmo em um cenário de produção elevada, o produto registrou forte alta de preços e liderou a inflação entre os alimentos, evidenciando como clima, oferta restrita e custos elevados continuam impactando diretamente o consumo das famílias.

Levantamento do estudo “Variações de Preços: Brasil & Regiões”, da Neogrid, mostra que o café em pó e em grãos ficou 40,7% mais caro entre dezembro de 2024 e dezembro de 2025. No período, o preço médio saltou de R$ 53,58 para R$ 76,36, reforçando um cenário de pressão persistente sobre a alimentação, um dos grupos com maior peso no custo de vida.

A alta chama ainda mais atenção porque ocorreu em meio ao crescimento da produção nacional. Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) indicam que a safra brasileira foi estimada em 56,5 milhões de sacas, avanço de 4,3% em relação a 2024, mantendo o país como líder global do setor.

Apesar disso, um fator específico desequilibrou o mercado: a queda na produção do café arábica, variedade mais consumida no Brasil. A colheita recuou 9,7%, impactada por baixa produtividade e condições climáticas adversas, o que reduziu a oferta e provocou reflexos em toda a cadeia.

Na prática, o mercado enfrentou uma combinação clássica de pressão. Menor oferta do tipo preferido pelo consumidor e demanda aquecida, tanto interna quanto externa, criaram o ambiente perfeito para a disparada dos preços, mesmo com números positivos no volume total produzido.

A inflação, no entanto, não ficou restrita ao café. Outros itens importantes da cesta básica também registraram aumentos relevantes ao longo de 2025, mostrando que a pressão foi mais ampla. Queijos subiram 12,4%, a margarina teve alta de 12,1%, o creme dental avançou 11,7% e a cerveja ficou 6,2% mais cara.

Esse movimento indica que, embora o café tenha liderado o ranking, a inflação foi disseminada entre diferentes categorias, ainda que com intensidades distintas. O resultado é um impacto direto no consumo das famílias, especialmente as de menor renda.

No fim do ano, houve um alívio pontual em alguns produtos básicos, ajudando a conter parcialmente a inflação de alimentos no curto prazo. Entre as principais quedas registradas em dezembro estão o leite UHT, com recuo de 5,3%, os ovos, que caíram 3,6%, e o arroz, com baixa de 2,2%.

Mesmo assim, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) avançou 0,33% na comparação com novembro, sinalizando que o ambiente inflacionário segue presente, ainda que de forma desigual entre os produtos.

Para Anna Carolina Fercher, líder de Dados Estratégicos da Neogrid, o comportamento dos preços ajuda a explicar o cenário. Segundo ela, categorias estratégicas como café e carnes sofreram pressões relevantes, impulsionadas por custos elevados, oferta mais restrita e forte demanda externa, fatores que atingem diretamente o orçamento das famílias.

No fechamento de dezembro, alguns itens ainda mantiveram trajetória de alta, como o sabão para roupa, com aumento de 2,4%, a carne bovina, que subiu 2,3%, e a carne suína, com avanço de 2,2%, reforçando a persistência das pressões.

O estudo também aponta diferenças regionais importantes. No Sudeste, por exemplo, os legumes lideraram as altas em dezembro, com avanço de 3,5%, seguidos por creme dental (2,2%) e carne bovina (1,7%), enquanto produtos como leite UHT e ovos apresentaram quedas expressivas.

Para 2026, a expectativa é de um cenário menos volátil, mas ainda cercado de incertezas. Mercadorias básicas tendem à estabilidade, porém itens sensíveis ao câmbio, ao clima e ao mercado internacional devem seguir pressionados. A escalada do café mostra que, mesmo sendo potência agrícola, o Brasil não está imune aos desequilíbrios do mercado e o cafezinho seguirá como um dos principais termômetros da inflação nos próximos meses.

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