No agro, a crise começa no pós-venda: por que atendimento e informação são tão estratégicos quanto a produção

No agronegócio, muitos conflitos não surgem da qualidade do produto, mas da falha no pós-venda, na comunicação e na gestão da expectativa do consumidor.

Produzir bem já não é suficiente

O agronegócio brasileiro é referência em produtividade, tecnologia e capacidade de entrega. Da porteira para dentro, há planejamento, controle e eficiência. Ainda assim, conflitos com consumidores, cooperados e compradores seguem ocorrendo — muitas vezes de forma repetitiva.

Na maioria dos casos, o problema não está na produção. Está no que vem depois. Entrega, informação, atendimento, garantia e resposta a falhas são pontos sensíveis que, quando mal geridos, transformam relações comerciais em disputas desgastantes.

No agro moderno, produzir bem é condição básica. A diferença competitiva está em como o problema é comunicado, tratado e resolvido.

1. O problema: pós-venda tratado como etapa secundária

Em muitas empresas do agro, o foco principal está no ciclo produtivo. O pós-venda é visto como etapa acessória, muitas vezes reativa, sem processo definido.

É comum que o consumidor — seja produtor rural, cooperado ou distribuidor — receba informações diferentes conforme o canal de contato. Um prazo é prometido na venda, outro é informado na logística. Uma condição é apresentada no contrato, outra no atendimento.

Nenhuma dessas falhas, isoladamente, inviabiliza o negócio. Mas, somadas, criam insegurança, frustração e conflito. O problema não é a falha pontual, mas a ausência de governança sobre o pós-venda.

2. O risco: conflito comercial e dano reputacional

No agro, reputação circula rápido. Relações comerciais são duradouras, baseadas em confiança e recorrência. Um conflito mal conduzido não termina na reclamação: ele afeta parcerias futuras, acesso a mercado e credibilidade.

Além disso, a falta de resposta clara gera escalada do problema. Demandas simples passam a ser formalizadas, reclamações se multiplicam e o custo operacional aumenta.

Em cooperativas e grandes cadeias de fornecimento, o risco é ainda maior. A falha de um elo impacta todo o sistema.

3. A solução: governança do pós-venda e compliance do consumidor no agro

Governança no agro não se limita a produção, contratos ou logística. Ela precisa alcançar o relacionamento com o consumidor, especialmente no pós-venda.

Isso significa tratar atendimento, informação e resolução de problemas como parte do negócio, e não como exceção. Processos claros, comunicação padronizada e responsabilidade definida reduzem conflitos e fortalecem relações.

O compliance do consumidor no agro é, na prática, uma ferramenta de proteção do próprio negócio. Ele antecipa riscos, corrige falhas recorrentes e preserva reputação.

Checklist prático de governança do pós-venda no agro

– Padronizar informações comerciais

– Definir fluxos claros de atendimento

– Treinar equipes comerciais e de pós-venda

– Registrar e analisar reclamações

– Integrar logística, comercial e atendimento

– Estabelecer protocolos de correção rápida

– Revisar contratos e comunicações

Pós-venda também é estratégia no agro

No agronegócio atual, o conflito raramente nasce da lavoura. Ele nasce da expectativa mal gerida, da informação confusa e da ausência de resposta organizada.

Empresas e cooperativas que investem em governança do pós-venda reduzem conflitos, preservam relações e ganham vantagem competitiva. Atender bem, comunicar com clareza e resolver rápido deixou de ser custo. Tornou-se estratégia.

Em mercados complexos e interdependentes, prevenir o conflito é tão importante quanto produzir bem.

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Lincon Martins

Márcio Lincon Martins Andrade Junior é advogado (OAB/AM 13.545), pós-graduado em Advocacia Cível e em Segurança Pública. Atuou na coordenação de atividades de defesa do consumidor no âmbito legislativo e atualmente exerce função de chefia de gabinete, com foco em governança institucional, integridade e eficiência administrativa.

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