O mercado físico do boi gordo encerrou a quarta-feira com viés de baixa nas principais praças pecuárias do país, refletindo um ambiente de negócios mais lento e cauteloso. As incertezas no cenário internacional, sobretudo relacionadas aos conflitos no Oriente Médio, adicionaram pressão às negociações, ao mesmo tempo em que o mercado futuro apresentou comportamento distinto, com valorização em contrato de longo prazo.
Em Mato Grosso do Sul, a arroba registrou recuo de 1,23% frente ao dia anterior, cotada em média a R$ 336,40. O estado foi o destaque negativo entre as regiões monitoradas.
Em São Paulo, segundo levantamento da Scot Consultoria, o mercado abriu em ritmo lento, com estabilidade nas cotações. A oferta de animais permaneceu enxuta, mas parte das indústrias se manteve fora das compras, enquanto outra parcela aguardava definição mais clara de preços, o que limitou o volume de negócios.
De forma geral, o mercado físico operou com baixa liquidez, refletindo o impacto das oscilações no mercado futuro e o ambiente de cautela por parte dos frigoríficos.
Preços do boi gordo
- São Paulo: R$ 355,50 (ante R$ 356,75)
- Goiás: R$ 335,71 (ante R$ 336,25)
- Minas Gerais: R$ 345,29 (ante R$ 342,35)
- Mato Grosso do Sul: R$ 340,91 (ante R$ 341,36)
- Mato Grosso: R$ 338,18 (ante R$ 339,12)
Mercado futuro reage na B3
Na B3, o movimento foi oposto. O contrato com vencimento em maio de 2026 avançou 0,75% no comparativo diário, negociado a R$ 337,50 por arroba. A valorização indica que parte dos agentes ainda projeta fundamentos mais sustentados no médio prazo, apesar da volatilidade recente.
Segundo o analista Fernando Henrique Iglesias, da Safras & Mercado, o conflito no Oriente Médio e o fechamento do Estreito de Ormuz geraram apreensão quanto ao fluxo de exportações de proteínas animais para a região. Embora uma interrupção total seja considerada improvável, o encarecimento e a lentidão na logística já são fatores concretos.

Oriente Médio pode afetar até 40% das exportações
A guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã elevou o nível de risco no comércio internacional. De acordo com estimativa da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), entre 30% e 40% das exportações brasileiras de carne bovina podem ser impactadas, principalmente por entraves logísticos.
Embora cerca de 10% das exportações tenham o Oriente Médio como destino final — aproximadamente 250 mil toneladas — a região exerce papel estratégico como ponto de transbordo para cargas destinadas à Ásia, especialmente à China, principal comprador da carne bovina brasileira.
As exportações do Brasil estão projetadas em cerca de 3 milhões de toneladas em 2026. Segundo o presidente da Abiec, Roberto Perosa, até 1 milhão de toneladas podem ser afetadas caso o conflito comprometa de forma mais severa o fluxo marítimo.
Exportação de gado vivo também entra no radar
Os conflitos também colocam em risco parte das exportações brasileiras de gado vivo. Em 2025, foram embarcadas 318,87 mil cabeças de bovinos para países do Oriente Médio, o que representa 30,27% do total exportado pelo Brasil nessa modalidade.
O estado mais exposto é o Pará, que enviou 112,70 mil toneladas à região — o equivalente a 48,38% do total exportado para esses mercados. O Rio Grande do Sul aparece na sequência, com 3,24 mil toneladas e participação de 3,87%. Além disso, 16,56 mil toneladas foram classificadas como não declaradas, das quais 46,62% tiveram como destino países da área considerada de risco.

Custos logísticos sobem e setor avalia ajustes
Empresas relatam que navios com carne brasileira aguardam autorização para atracar em portos do Oriente Médio. Algumas companhias de transporte marítimo passaram a recusar contratos para a região, enquanto outras mantêm operações mediante cobrança adicional de aproximadamente US$ 4 mil por contêiner, a chamada “taxa de guerra”.
O aumento do custo do frete, somado à alta do petróleo, amplia a pressão sobre as margens da indústria. Navios parados em alto-mar continuam gerando despesas operacionais, o que pode inviabilizar negócios.
Diante desse cenário, frigoríficos em algumas regiões reduziram a intensidade das compras de gado, movimento também influenciado pelas oscilações nos contratos futuros. Analistas e executivos do setor avaliam que, caso a demanda externa sofra retração mais significativa, poderá haver ajuste no ritmo de abates, com impacto direto sobre o preço da arroba e o faturamento do setor.
Outro ponto de atenção é a possibilidade de esgotamento antecipado da cota de exportação para a China. Ainda assim, segundo Iglesias, no ritmo atual de embarques a cota deve ser preenchida apenas entre julho e agosto, afastando, por ora, um impacto imediato.
Em meio a um ambiente geopolítico adverso, o mercado do boi gordo segue operando com cautela. Enquanto o físico reflete retração pontual nas praças, o futuro projeta sustentação no médio prazo, mas o desdobramento dos conflitos internacionais tende a ser determinante para o comportamento da arroba nas próximas semanas.



