Conectividade rural pode reduzir incêndios no Brasil, aponta estudo da ConectarAgro e UFV

Pesquisa inédita indica que regiões com menor acesso à internet apresentam maior incidência de áreas queimadas no país.

Um estudo inédito conduzido pela ConectarAgro em parceria com a Universidade Federal de Viçosa (UFV) revelou uma relação relevante entre a ausência de conectividade digital no meio rural e a maior incidência de incêndios florestais no Brasil. A pesquisa aponta que regiões com menor cobertura de internet móvel apresentam, de forma consistente, maiores proporções de áreas queimadas, trazendo uma nova perspectiva para o debate ambiental e tecnológico no país.

O levantamento analisou todo o território brasileiro, cruzando dados de áreas queimadas do MapBiomas Fogo com informações sobre cobertura de internet móvel 4G e 5G da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). A metodologia utilizou geoprocessamento e análises estatísticas avançadas, permitindo identificar padrões em escala municipal, estadual e também por bioma.

Em 2024, aproximadamente 31,3 milhões de hectares foram atingidos pelo fogo no Brasil, o equivalente a cerca de 4% do território nacional. A área devastada supera o tamanho de países como Itália ou Reino Unido. Os custos diretos relacionados a saúde pública, agricultura e infraestrutura de energia ultrapassaram US$ 220 milhões, sem considerar prejuízos ambientais de longo prazo estimados em mais de US$ 14 bilhões.

Os pesquisadores ressaltam que a conectividade não é a causa direta dos incêndios, mas exerce papel estratégico ao permitir comunicação rápida, monitoramento ambiental e resposta ágil a focos de fogo. Esses fatores são considerados essenciais para prevenção e controle de queimadas em áreas rurais e florestais.

A análise regional reforça o padrão observado. Estados com menor cobertura digital apresentam maiores proporções de áreas queimadas. Tocantins, Roraima e Mato Grosso lideram o ranking proporcional de território atingido pelo fogo e possuem menos de 3% de cobertura de internet móvel em suas áreas.

Em contraste, unidades da federação com maior presença de infraestrutura digital, como São Paulo, Rio de Janeiro e Distrito Federal, registraram percentuais significativamente menores de áreas consumidas por incêndios. A diferença evidencia a importância da conectividade como ferramenta indireta de prevenção ambiental.

O estudo também utilizou a dimensão ambiental do Indicador de Conectividade Rural (ICR), que considera a presença de internet em áreas protegidas, como unidades de conservação, terras indígenas e reservas legais. Estados com menor índice nesse indicador coincidem com aqueles que apresentam maiores taxas de incêndios, reforçando a correlação identificada.

Segundo a presidente da ConectarAgro, Paola Campiello, atualmente apenas 33% do campo brasileiro possui acesso à internet, o que mostra a dimensão do desafio. Para ela, a conectividade é um elemento essencial para viabilizar tecnologias que auxiliam produtores e também políticas ambientais.

“A conectividade coloca o produtor como agente de mudança, já que permite operacionalizar soluções com câmera, controle de temperatura, entre outras. As informações geradas com auxílio da tecnologia também fortalecem políticas ambientais e de governança pública”, afirma.

No recorte municipal, os dados mostram uma concentração ainda mais intensa do problema. Apenas dez municípios brasileiros concentraram cerca de 20% de toda a área queimada em 2024, somando mais de 6 milhões de hectares. Entre eles estão São Félix do Xingu, no Pará, Corumbá, no Mato Grosso do Sul, e Altamira, também no Pará.

Em muitos desses municípios, menos de 1% das áreas incendiadas possui cobertura de internet móvel. A ausência de conectividade limita o uso de sistemas de alerta precoce, aplicativos de monitoramento e a comunicação com brigadas e órgãos ambientais, dificultando a resposta rápida aos focos de incêndio.

A análise por biomas também revela um cenário preocupante. Amazônia e Cerrado concentraram juntos 87% de toda a área queimada do país em 2024, totalizando 27,2 milhões de hectares. Nessas regiões, a cobertura média de internet móvel é inferior a 6%, o que reforça a vulnerabilidade ambiental.

Para os pesquisadores, ampliar a conectividade no campo deve ser tratado como uma estratégia ambiental, e não apenas tecnológica ou produtiva. O acesso à internet permite monitoramento em tempo real, compartilhamento de informações e mobilização rápida para combater incêndios, fortalecendo a gestão ambiental em áreas rurais.

Nesse contexto, o estudo conclui que expandir a conectividade rural pode contribuir diretamente para a prevenção de desastres ambientais, aumentando a capacidade de resposta das comunidades, do poder público e das instituições responsáveis pela proteção dos ecossistemas.

Tópicos:

Nossa responsabilidade é muito grande! Cabe-nos concretizar os objetivos para os quais foi criado o jornal Diário do acre