Estudo aponta que falta de crédito, assistência técnica e renda agrava problema estrutural no campo.
A degradação de pastagens no Brasil segue avançando e levanta uma série de questionamentos. Por que justamente os pequenos produtores concentram parte relevante desse problema? Falta tecnologia ou o desafio é mais profundo? Um levantamento da consultoria Agroicone indica que o cenário vai além do manejo e revela fragilidades estruturais na base da pecuária nacional.
De acordo com o estudo, milhões de hectares de áreas produtivas estão comprometidos em propriedades de menor porte. Apenas em Mato Grosso, são 2,6 milhões de hectares de pastagens degradadas nesse perfil. No Pará, o número chega a 2,7 milhões de hectares, evidenciando que o problema está longe de ser pontual.
Quando se observa o cenário geral, os números ganham ainda mais peso. Mato Grosso soma cerca de 10,1 milhões de hectares de pastagens degradadas, sendo 25,3% concentrados em pequenas propriedades. Já no Pará, dos 6,6 milhões de hectares degradados, 40,7% estão em imóveis de menor porte, o que revela uma vulnerabilidade ainda maior nesse grupo.
Mais do que uma questão técnica, o estudo aponta que a degradação está diretamente ligada a fatores socioeconômicos. Renda, nível de escolaridade e acesso à infraestrutura influenciam a capacidade do produtor de adotar boas práticas. Na prática, isso significa que o problema não começa no solo, mas nas condições que cercam quem está produzindo.
Esse diagnóstico é reforçado por dados de acesso a crédito e assistência técnica. Em Mato Grosso, apenas 15,9% dos produtores familiares têm acesso a financiamento e 12,5% recebem orientação técnica. No Pará, a situação é ainda mais crítica, com apenas 6,1% tendo acesso a crédito e 4,7% a assistência especializada, o que limita diretamente a recuperação das áreas.
O resultado é um ciclo difícil de romper. Pastagens degradadas reduzem a produtividade e a renda, pressionando o produtor e, muitas vezes, levando à abertura de novas áreas como alternativa. Esse movimento amplia os desafios ambientais e reforça a necessidade de políticas públicas mais eficientes.
Apesar do cenário, especialistas apontam que a recuperação de pastagens é uma das estratégias mais viáveis para aumentar a produção sem expandir área. O Brasil já possui tecnologia e conhecimento para isso. A questão que permanece é outra: essas soluções vão, de fato, chegar a quem mais precisa no campo?


