Agro antecipa compras e fertilizantes sobem 53% em meio a tensões internacionais

Movimento reflete estratégia do setor diante de incertezas globais, dependência externa e riscos na cadeia de suprimentos.

O salto de 53% nas entregas de fertilizantes em janeiro de 2026 é apenas um bom sinal para o agro ou um alerta estratégico? O setor está crescendo ou se protegendo de riscos maiores? Por trás dos números, o avanço revela um movimento calculado diante de um cenário global cada vez mais instável.

Os dados divulgados pela Associação Nacional para Difusão de Adubos indicam que o aumento não pode ser visto apenas como crescimento da demanda. Na prática, o que se observa é uma reação do agronegócio brasileiro a um ambiente marcado por incertezas geopolíticas, custos elevados e riscos no abastecimento de insumos.

Parte desse avanço está ligada à recomposição de estoques, após um período anterior de compras mais cautelosas. Além disso, produtores e distribuidores passaram a antecipar aquisições, especialmente de olho na safrinha de milho e no planejamento da safra 2026/27, buscando se proteger de possíveis aumentos de preços ao longo do ano.

Esse comportamento defensivo está diretamente ligado a um ponto sensível: a forte dependência externa do Brasil, já que entre 85% e 90% dos fertilizantes utilizados no país são importados. Isso torna o setor altamente vulnerável a oscilações cambiais, problemas logísticos e tensões internacionais.

No mercado global, a dependência se distribui entre diferentes regiões. Fertilizantes potássicos vêm principalmente de Rússia, Belarus e Canadá, enquanto os fosfatados têm origem em países como Marrocos, China e Estados Unidos. Já os nitrogenados, como ureia e amônia, dependem fortemente de mercados como China, Rússia, Irã e Trinidad e Tobago.

Internamente, o consumo segue a lógica da produção agrícola. Estados do Centro-Oeste lideram as entregas, com destaque para Mato Grosso, além de Goiás e Mato Grosso do Sul. No Sul, Paraná e Rio Grande do Sul também têm forte demanda, enquanto São Paulo e Minas Gerais puxam o consumo no Sudeste.

Nesse cenário, tensões geopolíticas no Oriente Médio ganham peso direto sobre o agro brasileiro. O Irã, um dos principais produtores de ureia, pode impactar preços globais em caso de restrições ou sanções. Além disso, conflitos na região afetam rotas marítimas, elevando custos de frete e pressionando ainda mais os preços dos insumos.

A China também entra como peça-chave, ao mesmo tempo fornecedora de fertilizantes e principal compradora das commodities brasileiras. Medidas recentes para restringir exportações de insumos adicionam incerteza ao mercado e reduzem a oferta global.

Diante desse cenário, o Brasil se vê diante de um desafio estrutural. A demanda por fertilizantes cresce junto com o agro, mas a dependência externa abre espaço para investimentos em produção nacional, logística e armazenagem. Mais do que um insumo, o fertilizante passa a ser um elemento central na geopolítica da segurança alimentar, com impacto direto na competitividade do país.

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