A notícia que nestes dias abalou a política acreana foi, sem dúvidas, o afastamento do ex-governador Gladson Cameli do processo eleitoral, a partir da sua condenação pelo Superior Tribunal de Justiça – STJ. As causas e as penas são de conhecimento público desde que o processo foi iniciado. Com muitas marchas e contramarchas, enfim, para júbilo da esquerda, saiu a sentença condenatória.
Curioso é que, logo após a sentença, todos os olhos se voltaram para o candidato ao senado, Jorge Viana que, a julgar pelas pesquisas, entraria no jogo com reais possibilidades. Sem o Gladson Cameli no páreo, a corrida que seria por UMA vaga passa a ter DUAS. Sendo o petista o terceiro colocado, inevitavelmente, ele passaria a ocupar a segunda posição e dobrar as chances de eleição. Um cálculo simples. E errado, me atrevo a dizer.
“O seguinte é esse”, diria um amigo. Os votos que iriam para o Gladson não migram para o Jorge, não o fortalecem. Pelo contrário. Sabendo que Jorge Viana é amigo íntimo de membros dos tribunais, forma-se um consenso entre os eleitores de que suas digitais estão na condenação do Cameli, logo, é muito razoável supor que todo seu potencial e mais algum se distribuirá pelos outros à direita, ou, se for o caso, para um novo candidato em transferência imediata de votos.
De qualquer maneira, se, antes, Jorge Viana disputava com Marcio Bittar uma vaga (a segunda), agora disputará com todos as duas. A saída de Gladson põe todo mundo na mesa, com menos chance para um novato que a essa altura precisaria “herdar” pelo menos 70% do eleitorado do Gladson para se viabilizar, o que parece improvável que aconteça. Se o Gladson insistir, como parece, com uma candidatura que depende da anulação total do julgamento desta quarta, o que, segundo a quase unanimidade dos operadores do direito que consultei, é missão impossível, esse novato nem existe.
Outro ponto a considerar é que, com a ausência de Gladson, Marcio Bittar também entra no espólio, já que era seu companheiro e aliado. Ou seja, a inelegibilidade do Gladson pode ter apenas substituído o pole position e criado uma paridade entre os outros concorrentes (Jorge Viana no meio). Tudo isso, é claro, depende dos próximos movimentos da política e sua instabilidade inerente. Novas pesquisas, sem o Gladson, revelarão se estou certo.
Sintomaticamente, o candidato Jorge Viana entrou na muda. Não quer aparecer como algoz do Gladson e, assim, confirmar que tem seu dedinho no resultado jurídico da Ptolomeu. Me faz lembrar o cantor Lobão e sua célebre frase “caguei, mas não fui eu”. É claro que isso jamais será provado, mas a forma como ele entrou de sola na campanha execrando o Gladson, inclusive chamando seu governo de corrupto e apontando a operação, não deixa dúvidas. Outro ponto a considerar é que, repentinamente movido por um estranho sentimento de “Justiça”, o petista resgatou noticiário antigo e botou seu amigo Flávio Dino no encalço de Marcio Bittar. Vejam só. De repente, Jorge Viana resolveu ser o paladino da moral e da justiça e quer todo mundo num tribunal superior onde tem amigos. Se isso não é um tapetão pintado e bordado, não sei o que seria.
Penso que, sendo o Acre um estado diminuto em população, densamente politizado, Jorge Viana resgatou no imaginário do eleitor o velho emblema de perseguidor. Parece querer, ao invés de confiar e testar a si mesmo perante o eleitorado, constranger os adversários na justiça, como se dispusesse de um poder acima de todos. Desconfio que retirar da disputa qualquer concorrente, não encontra na população um ambiente favorável.
Não estou dando ideia para ninguém, afinal, os políticos sabem disso muito melhor, seja por saber mesmo ou por mera intuição, mas a condenação de Gladson Cameli pode muito bem ser explorada no sentido de etiquetar nesse processo uma vítima e um perseguidor.
Não se sabe o que o PT e seu candidato farão ou dirão nos próximos dias. Talvez continuem na muda, quietinhos, comemorando em casa mesmo, sem direito a videozinho de celular, instagram, facebook, nada. Talvez até saia alguma declaração de contenção dizendo que “não temos nada com isso”. Haverá, quem sabe, um hipócrita para dizer “lamentamos muito” etc., etc. Duro é convencer os eleitores nas ruas que a essa altura estão murmurando “foi o Jorge”.
Valterlucio Campelo
Valterlucio Bessa Campelo escreve semanalmente nos sites AC24HORAS, DIÁRIO DO ACRE, ACRENEWS e, eventualmente, no site Liberais e Conservadores do jornalista e escritor PERCIVAL PUGGINA, no VOZ DA AMAZÔNIA e em outros sites. Seu último livro, o ensaio político-filosófico “O anel progressista: como o poder tutelar se torna invisível”, está à venda pela editora independente UICLAP.
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