A pé entre Epitaciolândia e Xapuri: a caminhada de Dra. Raimunda expõe o que o Estado não quer ver na Resex

Quanto vale uma floresta que expulsa quem nela sempre viveu? Quanto tempo uma ideologia resiste quando a fome bate à porta? E até quando o povo da Amazônia vai aceitar ser tratado como personagem decorativo de um projeto político que nunca lhe pertenceu?

Essas perguntas não são retóricas. Elas emergem da lama de um caminho percorrido a pé, entre Epitaciolândia e Xapuri, por uma advogada que carrega no corpo o que 12 mil pessoas carregam na alma: o peso de um Estado que só aparece para multar, embargar e notificar. A Dra. Raimunda Queiroz não saiu às ruas por ideologia. Saiu porque, no Acre profundo, a alternativa ao protesto é o silêncio da rendição.

O modelo que se convencionou chamar de Florestania, esse projeto estético e politicamente conveniente que transformou o seringueiro em símbolo e a floresta em vitrine, faliu. Faliu moral, econômica e socialmente. Faliu porque nunca foi construído para funcionar, mas para ser exibido em conferências internacionais enquanto os moradores reais da reserva eram tratados como obstáculos à narrativa. O plano de manejo da Reserva Extrativista Chico Mendes, elaborado em 2006 e nunca atualizado, é o documento mais honesto dessa falência: uma burocracia fossilizada que condena ao crime qualquer família que tente sobreviver além do extrativismo.

E aqui chegamos ao ponto que nenhum defensor da floresta tem coragem de encarar de frente: 70% dos moradores da Resex vivem hoje em situação de irregularidade dentro da própria terra. Não são invasores. Não são grileiros. São filhos, netos e bisnetos das mesmas famílias que o discurso oficial diz proteger. O ICMBio, armado de satélites e notificações, distribui autos de infração como se distribuísse sentenças, sem oferecer alternativa, sem amplo direito de defesa, sem o mínimo de dignidade que qualquer Estado civilizado deve ao seu povo. Há casos documentados de produtores com mais de 800 autuações. Oitocentas. Não é fiscalização ambiental. É perseguição institucionalizada.

O problema, como sempre, começa em Brasília. A capital federal tem uma relação com a Amazônia que mistura condescendência com indiferença, temperada por doses generosas de hipocrisia. De lá saem as regras, os planos, os embargos e as ONGs. De lá não sai, nunca saiu, nenhuma solução real para quem vive entre a floresta e a impossibilidade de sustentá-la. A pequena pecuária, que os moradores reivindicam como alternativa de sobrevivência em apenas 10% da área total da reserva, é tratada como heresia ambiental por quem jamais precisou escolher entre pagar uma multa e dar de comer aos filhos.

Não se trata aqui de defender o desmatamento ou negar a importância de preservar o bioma amazônico. Trata-se de algo muito mais elementar: o direito de um povo existir onde sempre existiu, produzir o que sempre produziu e não ser criminalizado por isso. Mas a esquerda brasileira, que tanto fala em direitos dos oprimidos, tem uma cegueira seletiva e conveniente quando o oprimido não serve à narrativa. O seringueiro que planta capim para alimentar duas vacas não é o personagem que cabe no cartaz da COP.

O Acre real, aquele que não aparece nas fotos de satélite do ICMBio nem nos relatórios das organizações internacionais, está se levantando. E quando um povo que foi ensinado a ser invisível resolve ocupar a estrada, algo mudou. A questão é se Brasília vai ouvir antes ou depois de mais famílias receberem mais 30 dias para abandonar a própria história.

Tópicos:

Nossa responsabilidade é muito grande! Cabe-nos concretizar os objetivos para os quais foi criado o jornal Diário do acre