Em meio ao aumento dos custos de produção, à queda na rentabilidade da atividade agrícola e à concentração crescente do setor, a Cooprosoja defende um novo modelo de cooperativismo voltado aos produtores rurais de Mato Grosso. A proposta, segundo o presidente da entidade, Fernando Cadore, é garantir aos pequenos e médios produtores o mesmo poder de negociação dos grandes grupos agrícolas, mas sem concentrar financeiramente as operações dentro da cooperativa.
Em entrevista ao CompreRural, Cadore explicou que o diferencial da Cooprosoja está justamente na forma como as negociações são estruturadas. A cooperativa atua como intermediadora das compras, organizando grandes volumes de aquisição de máquinas, equipamentos e insumos, enquanto o faturamento permanece diretamente no CPF do produtor rural.

“Nosso ato cooperado reside na intermediação. Nós organizamos a compra, fazemos a negociação em volume e o faturamento é individual na pessoa física de cada produtor”, afirmou.
De acordo com o presidente, esse formato garante mais segurança aos cooperados e evita que produtores assumam riscos financeiros relacionados às operações de terceiros. “O Mato Grosso tem tamanho continental. Então isso acaba dando segurança para quem entra, para quem se associa, porque ele não terá responsabilidade financeira sobre a compra de outro produtor”, destacou.
Cadore resume a filosofia da cooperativa em uma frase: “O foco é deixar a renda dentro da porteira”.
Cooprosoja surgiu após impactos da pandemia
A Cooprosoja nasceu oficialmente em 2023, mas sua origem está diretamente ligada às distorções econômicas provocadas durante a pandemia. Segundo Cadore, naquele período houve forte aumento nas margens da cadeia de insumos e máquinas agrícolas, dificultando ainda mais o acesso dos médios produtores às mesmas condições comerciais oferecidas aos grandes conglomerados do agronegócio.
“No advento da pandemia teve um margamento muito grande na cadeia de insumos. Máquina foi uma delas. Os grandes grupos continuaram pagando preços menores em função do volume. Nós percebemos que precisávamos nos unir para formar escala e buscar viabilidade”, explicou.
O objetivo passou então a ser levar aos produtores médios e pequenos as mesmas condições comerciais normalmente restritas às grandes operações agrícolas.
Hoje, a cooperativa já reúne mais de 1,3 mil associados distribuídos em 93 municípios mato-grossenses. Entre as operações realizadas recentemente, a entidade destaca a importação direta de máquinas agrícolas e equipamentos da chamada “linha amarela”, especialmente oriundos da China. “Só no último ano fizemos mais de 200 unidades importadas diretamente na pessoa física do produtor”, revelou Cadore.
Segundo ele, a cooperativa também mantém liberdade total na negociação com fabricantes e fornecedores, sem preferência por marcas específicas. O critério adotado é exclusivamente econômico. “A empresa que trouxer a melhor condição consegue operar conosco, independente da marca, desde que esteja dentro dos maiores players do mercado”, pontuou.
Crise no setor de máquinas preocupa produtores
Durante a entrevista, Fernando Cadore também comentou sobre a retração nas vendas de máquinas agrícolas observada pela indústria nos últimos anos. Para ele, a principal razão para a desaceleração do mercado é a falta de viabilidade econômica da atividade rural diante da disparada dos custos de produção. “O produtor só compra máquina quando existe viabilidade. Hoje ela é praticamente zero”, afirmou.
Segundo o presidente da Cooprosoja, o problema não está necessariamente na falta de crédito, mas no descompasso entre o valor dos equipamentos e o preço recebido pelas commodities agrícolas. “O problema não é crédito. O problema é o preço das máquinas, dos insumos e das mercadorias que compramos versus o preço do produto que vendemos”, declarou.
Cadore lembrou que o setor já enfrentou crises semelhantes em outros períodos, como em 2004 e 2007, e acredita que o mercado tende a buscar equilíbrio ao longo dos próximos anos. “Ou o preço das commodities sobe ou aquilo que compramos precisa baixar para entrar em um nível de viabilidade. Uma dessas duas coisas vai precisar se ajustar”, avaliou.
Debate sobre sucessão familiar motivou criação da entidade
Além das questões econômicas, Cadore afirmou que outro fator decisivo para a criação da cooperativa foi a preocupação com a sucessão familiar e a concentração de terras no estado.
Segundo ele, cerca de 85% dos produtores de Mato Grosso possuem propriedades de até 3,5 mil hectares e podem perder competitividade ao longo das próximas gerações caso não avancem em modelos coletivos de organização.
A avaliação da cooperativa é de que a união entre produtores será cada vez mais necessária para garantir escala, competitividade e permanência das famílias no campo.
Expansão também para a pecuária
A Cooprosoja também anunciou recentemente uma parceria com a Acrimat para ampliar o atendimento aos pecuaristas associados à entidade.
De acordo com Cadore, produtores vinculados à Acrimat poderão realizar operações comerciais via Cooprosoja por meio de convênio aprovado em assembleia. No entanto, para se tornar efetivamente cooperado, o requisito continua sendo a associação à Aprosoja.
“A premissa para ser cooperado da Cooprosoja é ser associado à Aprosoja Mato Grosso. Já os associados da Acrimat podem operar conosco através dessa parceria institucional”, explicou.




