Enquanto nega publicamente ter solicitado diretamente o encontro, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) caminha para uma das agendas mais simbólicas de sua pré-candidatura à Presidência da República. Fontes próximas à articulação confirmam o encontro com o presidente Donald Trump, previsto para segunda ou terça-feira da próxima semana, na Casa Branca.
O que chama atenção não é apenas o fato de o filho do ex-presidente ser recebido no mesmo patamar protocolar dispensado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva na semana passada. O verdadeiro movimento de bastidores revela uma costura sofisticada, que mistura interesses brasileiros e norte-americanos, e que pode reposicionar Flávio Bolsonaro no tabuleiro da direita.
Segundo informações apuradas por este colunista junto a fontes em Washington e Brasília, Flávio Bolsonaro de fato não pediu o encontro. A afirmação que ele vem fazendo publicamente está correta. Quem efetivamente operou a ponte foi seu irmão, o deputado Eduardo Bolsonaro, junto com o jornalista Paulo Figueiredo. Os dois atuaram diretamente junto ao secretário de Estado Marco Rubio, que tem mantido contatos frequentes com a família Bolsonaro desde o primeiro mandato de Trump.
Interesse de Marco Rubio
O movimento tem um peso institucional relevante para Rubio. Quando Lula esteve nos Estados Unidos na semana passada, o secretário de Estado estava em viagem oficial representando o governo americano em outro país. A visita do petista foi alinhada por outros advisors e conselheiros diretos de Trump. Para Rubio, que é um dos nomes mais influentes da ala conservadora republicana, viabilizar o encontro com Flávio é uma forma de reafirmar: “eu também decido quem entra na sala do presidente”.
Trata-se, portanto, de uma demonstração de poder dentro da própria administração Trump. E, ao mesmo tempo, uma excelente oportunidade para Flávio Bolsonaro. Ser recebido na Casa Branca com o mesmo status dado a um presidente da República em exercício é um ativo político de altíssimo valor simbólico para a base bolsonarista.
Sem nota oficial da Casa Branca
Outra informação de bastidor importante: assim como ocorreu na visita de Lula, não deve haver foto oficial, release ou nota da Casa Branca sobre o encontro. Todo o material – fotos, vídeos e eventuais detalhes do que foi tratado – será gerenciado e divulgado exclusivamente pela equipe de Flávio Bolsonaro. A estratégia é clara: controlar a narrativa e maximizar o impacto junto ao público brasileiro.
Aliados do senador avaliam que essa agenda chega em momento delicado. Flávio enfrenta questionamentos internos sobre a viabilidade de sua pré-candidatura. A relação com o banqueiro Daniel Vorcaro gerou desconforto em parte da cúpula do PL e entre bolsonaristas mais radicais. Uma crise interna de imagem se desenhava. Uma foto ao lado de Trump, mesmo que sem pompa oficial americana, funcionaria como um “reset” poderoso.
‘Eu decido quem joga no meu time’
A leitura que circula nos corredores de Brasília é que Trump estaria enviando um recado claro: “eu quero ver quem vai jogar no meu time”. A histórica proximidade entre Jair Bolsonaro e Donald Trump (construída entre 2018 e 2022) continua sendo um ativo valioso. Flávio, como pré-candidato oficial do PL, tenta capitalizar essa relação no momento em que Lula tenta construir uma narrativa de “amizade” com o republicano – algo que, segundo fontes americanas, é visto mais como relação protocolar do que ideológica.
Analistas ouvidos pela nossa reportagem avaliam que, se confirmada, a agenda representa um “gol político” para Flávio. Colocá-lo no mesmo patamar visual e simbólico de Lula ajuda a neutralizar a narrativa de que o bolsonarismo estaria isolado internacionalmente. Para a base evangélica, conservadora e antipetista, a imagem de um Flávio recebido na Casa Branca tem potencial de mobilização significativa.
Cautela ainda predomina
Apesar do otimismo entre aliados, ainda há cautela. Até a noite de quinta-feira (21), nem Stephen Miller – um dos assessores mais próximos de Trump – nem a Casa Branca haviam confirmado oficialmente a agenda. Isso significa que, embora a costura esteja avançada via Rubio, o encontro ainda depende de aprovação final do núcleo duro trumpista.
Flávio Bolsonaro chega aos Estados Unidos na próxima semana com uma agenda que deve incluir Washington e possivelmente outros compromissos. O objetivo declarado é construir imagem internacional positiva e tirar o pré-candidato do “inferno astral” que alguns aliados admitem que ele viveu nas últimas semanas.
Se o encontro com Trump se concretizar, será difícil negar o impacto. Mesmo sem nota oficial da Casa Branca, a foto de um possível futuro candidato à Presidência do Brasil sendo recebido onde Lula foi recebido dias antes terá força própria. Na política, símbolos importam — e este, em especial, será explorado ao máximo pela direita brasileira.


