E veio mais uma pesquisa da Delta que, contratada pela TV Gazeta, acompanhará todo o processo eleitoral com pesquisas sistemáticas. Parabéns. Assim, podemos seguir sem sobressaltos de metodologia o progresso de cada candidato às eleições majoritárias, já que pesquisas para proporcionais são estatisticamente inúteis.
Antes de ir aos dados é relevante cuidar do gráfico que os apresenta. É comum, especialmente quando há interesses não confessados, utilizar o gráfico por coluna com distorções que privilegiam uma versão idem. Como se vê no gráfico acima, mesmo utilizando as colunas, temos um gráfico rigorosamente correto, ou seja, as alturas das colunas correspondem aos números que representam. Não fazer isso tende a confundir o leitor. Então, se 39% são mais que o dobro de 19% a coluna tem que ser equivalente, dando a percepção visual exata da diferença.
Voltemos à pesquisa. Em primeiro lugar, nota-se a confirmação da consolidação do senador Alan Rick em primeiríssimo lugar, com mais que a soma das outras candidaturas, o que lhe dá a condição de eleição no primeiro turno, se ela se realizasse no dia da pesquisa.
Em segundo, percebe-se uma movimentação sem saltos entre a governadora Mailza Assis e o ex-prefeito Tião Bocalom, sempre na mesma faixa de eleitorado (menos de 20%), a isto equivale dizer que, embora se esforcem, não conseguem se distanciar um do outro e diminuírem a diferença para o Alan Rick. A cada voto que sai da indecisão. Os indecisos parecem fazer escolha na base 50/25/25, de modo que o quadro geral não se altera. Como previsto, o candidato esquerdista só aparece para constar, sem qualquer perspectiva de avanço.
Em terceiro, precisamos considerar que apesar do mimimi sentimentalóide de ocasião, o desabamento da ponte em Sena Madureira, mesmo sem que tenha sido apontados os culpados, caiu como uma bomba no governo e, consequentemente, na candidatura Mailza Assis. O povo sabe que uma ponte como aquela, só cai com dois anos de inaugurada se tiver sido muito mal feita. No popular, um “serviço porco” foi realizado pela empresa e recebido pelo governo. O resto são chorumelas e a pesquisa não capturou esse efeito, que certamente aparecerá na próxima em evidente prejuízo da candidata Mailza Assis e, talvez, com novidades tenebrosas.
Com os escombros à vista em homenagem à incompetência e ao desperdício de dinheiro público na casa dos 45 milhões de reais, o povo dificilmente lembrará de outra coisa nos próximos meses. Mesmo que venha o ministro e ele retire de algum lugar uma grana para refazer a ponte, o processo vai virar o ano e o eleitor não tem tanta paciência assim. Outubro está bem alí, e os adversários serão contundentes em apontar o dedo na direção do Palácio Rio Branco.
Em resumo: para o governo as coisas estão se consolidando no sentido de dar a vitória em primeiro turno ao senador Alan Rick, cuja rejeição é a menor e o voto espontâneo (importantíssimo) é maior que a soma dos adversários também.
Para o senado, em vista do número de candidatos as coisas são mais complicadas. Por enquanto, com Gladson, a segunda vaga fica entre Marcio e Jorge Viana. Sem Gladson, a Mara Rocha entra no jogo e a disputa se transforma em 3 para 2, em jogo aberto com vantagem para Marcio Bittar que estando em primeiro tem mais condições de se manter entre os dois.
A pergunta mais comum entre os analistas políticos é se o Jorge Viana tem chances de ser eleito. A minha resposta é condicional – só se a direita deixar. Explico. Embora ande renegando a própria ideologia por onde passa, Jorge Viana é o único candidato da esquerda, o que lhe dá um piso sólido na faixa dos 20% e um teto que dificilmente passará dos 30%, considerando que esta seja a votação do próprio Lula. O seu problema é esse teto, já que identificado como esquerdista não tem os segundos votos da direita. Como o seu eleitor não pode votar nele duas vezes, fica algemado nessa faixa entre 20% e 30%, se muito.
Por outro lado, seus adversários principais (excluo o Gladson Cameli para efeito de raciocínio) podem trocar segundos votos a vontade, pois são todos do mesmo balaio ideológico. Se os principais candidatos à direita, principalmente Marcio Bittar e Mara Rocha, tiverem bom senso e jogarem a bola um para o outro, sem agressões mútuas e concentrando fogo no adversário comum (Jorge Viana), ambos poderão alcançar facilmente entre 30% e 40% dos votos, deixando o petista na poeira e Lula sem um senador para somar em sua sanha progressista.
Jorge Viana, que não dá segundo voto a ninguém, sabe disso e trabalha contra isso. Veja-se que em sua campanha asséptica, sem cores nem símbolos, desideologizada, despolitizada, descaracterizada como progressista, ele se oferece mansamente como “eu só quero ajudar”, em uma versão paz e amor que nem o cínico Lula da Silva conseguiu igualar. Com isso ele quer conquistar segundos votos e etiquetar os adversários como brigões.
A comemorar, que os dados da pesquisa Delta são absolutamente críveis. Nada de saltos mirabolantes fora do senso comum. Nada de aparições fantásticas. Tirando o OVNI do Paraná, não houve no período causa para assombrações.
De resto, é deixar fluir e aguardar o desenrolar dos acontecimentos. Na política, a copa do mundo só é descanso para preguiçoso, então, os candidatos que se mantenham em campo e promovam fatos que repercutam positivamente em seu proveito. Essa história de pausa pro futebol é falsa. Entre um jogo e outro, as atenções estão na política que entre nós, acreanos, é o prato do dia.
Valterlucio Campelo
Valterlucio Bessa Campelo escreve semanalmente nos sites AC24HORAS, DIÁRIO DO ACRE, ACRENEWS e, eventualmente, no site Liberais e Conservadores do jornalista e escritor PERCIVAL PUGGINA, no VOZ DA AMAZÔNIA e em outros sites. Seu último livro, o ensaio político-filosófico “O anel progressista: como o poder tutelar se torna invisível”, está à venda pela editora independente UICLAP.
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