Durante décadas, o Brasil construiu a reputação de potência agrícola apoiado em uma percepção aparentemente inquestionável: a de que água nunca seria um problema nacional. Afinal, o país concentra cerca de 20% do escoamento superficial do planeta e abriga algumas das maiores reservas de água subterrânea do mundo. Mas um estudo publicado na revista Science Advances (Two decades of human- and climate-induced groundwater storage shifts in Brazil — Jun 2026) sugere que essa segurança pode ser menos sólida do que parece.
Utilizando inteligência artificial, dados de satélite da NASA e informações de centenas de poços de monitoramento, pesquisadores reconstruíram o comportamento das águas subterrâneas brasileiras entre 2002 e 2023. O resultado revela um país dividido entre regiões onde os aquíferos ainda conseguem se recuperar e áreas onde os estoques vêm diminuindo de forma persistente.
O dado mais relevante talvez seja justamente aquele que passa despercebido no debate público. Em média, apenas cerca de 12% da chuva que cai sobre as áreas de afloramento dos aquíferos retorna efetivamente aos reservatórios subterrâneos. O restante escoa para rios, evapora ou é consumido pela vegetação. Em outras palavras, os aquíferos brasileiros são renováveis, mas sua capacidade de reposição é muito menor do que o senso comum costuma imaginar.
O estudo identificou situações ainda mais preocupantes. Em determinados anos, importantes sistemas aquíferos, incluindo áreas associadas ao Guarani, ao Urucuia e ao Bauru-Caiuá, registraram recarga próxima de zero. Isso significa que praticamente não houve reposição das reservas subterrâneas durante aqueles períodos.
A descoberta ganha relevância especial porque coincide com a expansão das áreas irrigadas no Cerrado e com o avanço da fronteira agrícola sobre regiões que dependem crescentemente da água subterrânea. O trabalho mostra que as maiores perdas de armazenamento ocorrem justamente em parte do Centro-Oeste, Sudeste e Nordeste, regiões onde a pressão econômica sobre os recursos hídricos é mais intensa.
Segundo estimativas da Agência Nacional de Águas (ANA), aproximadamente 7 milhões de hectares utilizam atualmente sistemas de irrigação abastecidos por mananciais, com potencial de expansão significativa nas próximas décadas.
Talvez o aspecto mais intrigante da pesquisa seja a influência do El Niño e da La Niña sobre os aquíferos. Os autores identificaram uma mudança estrutural após o forte El Niño de 2015–2016. Em diversas bacias hidrográficas, tendências que antes eram neutras ou positivas passaram a indicar redução dos estoques subterrâneos. O fenômeno sugere que eventos climáticos extremos podem deixar marcas duradouras no sistema hidrológico brasileiro, mesmo depois de encerradas as anomalias atmosféricas que lhes deram origem.
Essa constatação ajuda a compreender por que eventos recentes produziram impactos tão expressivos. A seca histórica da Amazônia em 2023 e as enchentes do Rio Grande do Sul em 2024 não foram apenas fenômenos superficiais. O estudo sugere que alterações nos estoques subterrâneos podem amplificar tanto a escassez quanto os excessos de água. Solos já saturados reduzem a capacidade de infiltração e favorecem enchentes. Aquíferos esvaziados diminuem a resiliência durante períodos de estiagem.
Do ponto de vista econômico, as conclusões merecem atenção imediata.
Dados do Censo Demográfico de 2022, realizado pelo IBGE, indicam que 40% dos municípios brasileiros dependem exclusivamente de águas subterrâneas para o abastecimento público, enquanto outros 17% utilizam essa fonte de forma complementar.
A agricultura irrigada também amplia a dependência desses reservatórios, especialmente em regiões sujeitas a secas recorrentes. Se a reposição natural continuar diminuindo em algumas áreas, a disponibilidade hídrica deixará de ser apenas uma questão ambiental para se tornar um fator de competitividade econômica.
Há ainda uma dimensão geopolítica pouco explorada. O Brasil é um dos principais fornecedores globais de alimentos. Perdas persistentes em aquíferos estratégicos podem afetar a produtividade agrícola, segurança energética e estabilidade de cadeias globais de abastecimento. Em um cenário de mudanças climáticas, a gestão da água subterrânea tende a adquirir importância comparável à que hoje se atribui à energia ou à infraestrutura logística.
A principal mensagem do estudo é simples: o Brasil continua sendo uma potência hídrica, mas não pode mais agir como se seus recursos subterrâneos fossem inesgotáveis. A água invisível que sustenta parte da economia nacional começa a emitir sinais de esgotamento. Ignorá-los seria repetir, em escala subterrânea, os mesmos erros que já transformaram secas e enchentes em crises econômicas recorrentes.
Pedro Côrtes
Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.



