Agro 4.0: por que a inteligência artificial será decisiva para alimentar o mundo

Como produzir mais alimentos sem ampliar significativamente as áreas cultivadas? Como enfrentar as mudanças climáticas, economizar água e aumentar a produtividade ao mesmo tempo? E como garantir segurança alimentar para uma população global que se aproxima dos 10 bilhões de pessoas até 2050? Essas são algumas das perguntas que desafiam o agronegócio mundial e que começam a encontrar respostas cada vez mais concretas por meio da inteligência artificial.

Ao longo de mais de 12 mil anos de história, a agricultura passou por inúmeras transformações. Da domesticação das primeiras culturas ao surgimento dos tratores, da mecanização à agricultura de precisão, cada revolução tecnológica permitiu que o homem produzisse mais com menos recursos. Agora, estamos diante de mais uma mudança histórica.

A inteligência artificial deixou de ser uma ferramenta restrita aos escritórios e centros de pesquisa. Ela está chegando aos campos, fazendas e propriedades rurais brasileiras com potencial para redefinir a maneira como alimentos são produzidos, monitorados e distribuídos.

Durante o VEJA Fórum Agro, especialistas do setor destacaram que o agronegócio brasileiro está entrando em uma nova etapa tecnológica. Segundo Ana Mendes, chefe de operações da Agrosmart, a evolução do uso de dados no campo pode ser dividida em três fases.

A primeira delas ocorreu a partir de 2010, quando sensores, drones, estações meteorológicas e dispositivos conectados passaram a coletar informações sobre clima, solo e produtividade. Foi o momento em que o produtor começou a enxergar sua propriedade por meio dos dados.

A segunda fase ganhou força após 2020, quando plataformas digitais passaram a transformar esses dados em análises mais detalhadas. Nesse estágio, a tecnologia ajudava a compreender o que estava acontecendo na lavoura, identificando padrões e tendências que antes passavam despercebidos.

Agora, entramos na terceira fase. Com a popularização das inteligências artificiais generativas, como ChatGPT e Claude, surgem sistemas capazes de não apenas analisar informações, mas também auxiliar diretamente na tomada de decisões estratégicas, conectando diferentes fontes de dados e oferecendo recomendações em tempo real.

Essa capacidade pode representar um salto significativo na produtividade agrícola. Afinal, o produtor rural toma diariamente decisões que envolvem clima, irrigação, defensivos, fertilizantes, logística e comercialização. Quanto mais precisas forem essas decisões, maiores serão os ganhos econômicos e ambientais.

Os exemplos práticos já começam a aparecer. Sistemas de inteligência artificial conseguem analisar milhões de informações meteorológicas e prever eventos climáticos extremos com maior antecedência. Com isso, agricultores podem se preparar para secas, geadas ou tempestades, reduzindo prejuízos.

Na gestão da água, sensores instalados no solo monitoram constantemente os níveis de umidade. A inteligência artificial processa essas informações e determina o momento ideal para irrigar, evitando desperdícios e aumentando a eficiência do uso dos recursos hídricos.

Outro avanço importante está na detecção precoce de pragas e doenças. Drones equipados com câmeras e algoritmos inteligentes conseguem identificar problemas ainda em estágio inicial, permitindo intervenções rápidas e reduzindo a necessidade de aplicações excessivas de defensivos agrícolas.

A tecnologia também está revolucionando a nutrição das plantas. Sistemas inteligentes analisam a composição do solo e as necessidades específicas de cada cultura, indicando a quantidade ideal de fertilizantes. O resultado é maior produtividade, redução de custos e menor impacto ambiental.

Mas existe um desafio que ainda precisa ser superado. Segundo José Damico, CEO da SciCrop, o verdadeiro combustível da inteligência artificial são os dados. E muitos produtores e empresas ainda enfrentam dificuldades para organizar, integrar e disponibilizar as informações geradas em suas operações.

Não basta possuir sensores modernos ou equipamentos conectados. Os dados precisam estar acessíveis, organizados e confiáveis. Quando as informações ficam dispersas em diferentes sistemas que não se comunicam, o potencial da inteligência artificial é drasticamente reduzido.

Essa talvez seja a principal lição para o agronegócio brasileiro nos próximos anos. A transformação digital não depende apenas da adoção de novas ferramentas, mas também da construção de uma cultura orientada por dados. Quem compreender isso primeiro terá vantagens competitivas significativas.

O Brasil possui uma das agriculturas mais eficientes do planeta e reúne condições únicas para liderar essa nova revolução tecnológica. Temos conhecimento técnico, capacidade produtiva, diversidade de culturas e um ecossistema crescente de agtechs desenvolvendo soluções inovadoras.

A inteligência artificial não substituirá o produtor rural. Pelo contrário. Ela funcionará como uma poderosa aliada na tomada de decisões, permitindo que o conhecimento acumulado por gerações seja potencializado por análises cada vez mais rápidas e precisas. O futuro do agronegócio será construído pela combinação entre experiência humana e inteligência artificial. E quem entender essa transformação desde agora estará melhor preparado para alimentar o mundo de amanhã.

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