Enquanto permaneço alguns dias de férias em Buenos Aires, aproveitei para levar meus filhos para conhecer uma importante livraria localizada no tradicional bairro da Recoleta. Refiro-me à livraria El Ateneo Grand Splendid. No passado, o prédio funcionava como um teatro. Após uma cuidadosa transformação, tornou-se aquela que muitos consideram a livraria mais bonita do mundo. Eu confirmo: é realmente linda. Vale a pena a visita de quem vier a Buenos Aires.
Durante a visita, contemplando a imensa oferta de livros, de repente meus olhos se voltaram para um título: “Franco. Vida de mi padre. La historia de mi mayor maestro y mi gran antagonista”, de autoria do ex-presidente da Argentina, Mauricio Macri.
Mauricio Macri foi presidente da Argentina entre dezembro de 2015 e dezembro de 2019. Seu governo foi marcado pela abertura econômica, mas também pela alta da inflação e pelo retorno ao endividamento externo. Sucedeu Cristina Fernández de Kirchner, hoje em prisão domiciliar, com a promessa de reduzir a pobreza e modernizar o país. Esse era o seu projeto.
Antes de chegar à Presidência da República Argentina, Mauricio Macri, nascido em Tandil em 8 de fevereiro de 1959, construiu uma sólida carreira como empresário. É engenheiro civil, político filiado ao partido Proposta Republicana (PRO) e também atuou como dirigente esportivo. Foi o 50º presidente da República Argentina, eleito por uma coalizão de direita. Faço questão de registrar esse detalhe: de direita.
Antes de publicar a obra que adquiri e estou lendo com muito interesse, Mauricio Macri estreou no mundo editorial com “Primer Tiempo”, livro no qual faz uma revisão de seus quatro anos de governo na Casa Rosada. Trata-se de uma análise crítica de sua própria gestão, que gerou importante debate público. Algo semelhante ao que Mario Vargas Llosa fez em Peixe na Água.
Esse primeiro livro nasceu quando, em seu último dia como presidente, Macri convidou seu secretário de Cultura, Pablo Avelluto, para uma conversa reservada. Na ocasião, apresentou-lhe diversas reflexões registradas ao longo do mandato em anotações esparsas. Avelluto ajudou a transformar aquele material em um livro de memórias sobre sua passagem pela Presidência.
A edição contou ainda com a participação do jornalista Hernán Iglesias Illa, autor de obras de grande sucesso na Argentina. Enfim, foi um trabalho construído com a colaboração de pessoas que acompanharam de perto sua trajetória no governo.
Interessei-me especialmente pelo livro por uma razão pessoal. Assim como Macri, também sou descendente de italianos. Logo na capa percebe-se que a obra é uma homenagem ao seu pai, Franco Macri, por quem o autor demonstra profunda admiração. Adquiri o livro e, em pouco mais de três dias, já havia lido mais de cem páginas.
Antes mesmo de comprá-lo, li a sinopse impressa na contracapa:
“Aqui está a história de meu pai, Franco Macri. Tomei a decisão de empreender este projeto alguns meses antes de publicar, no início de 2021, o livro ‘Primer Tiempo’. Naquele livro me propus a dar meu testemunho sobre os quatro anos de mandato presidencial da forma mais fiel possível. Enquanto escrevia, meu pai aparecia repetidamente em minhas lembranças. Foi então que decidi que havia chegado a hora de contar também a história daquele homem.”
A leitura despertou em mim lembranças de quando decidi resgatar a história da minha própria família italiana. Macri encontrou facilidade para reconstruir sua genealogia porque se trata de fatos relativamente recentes.
A família Macri imigrou para a Argentina em 1949, quando Franco tinha apenas 18 anos. Seu pai, meu avô, nasceu em Roma e possuía boas relações políticas e empresariais, o que facilitou a adaptação da família no novo país. Pouco tempo depois, já haviam alcançado grande sucesso empresarial.
A minha realidade era completamente diferente. Quando estive em Roma pela primeira vez, em 1992, participando de um seminário na Universidade Urbaniana, tudo o que eu sabia sobre minhas origens era que meu sobrenome, Perazzo, vinha da Itália. Nada além disso. Eu sequer sabia em que cidade havia nascido meu bisavô, Antônio Perazzo, que se casou no Brasil em 1885.
Assim como Macri, senti o desejo de transformar essa história em livro. Com a ajuda do professor Rossini Corrêa, publiquei, em 1998, a obra genealógica “Da Itália para o Brasil: os Perazzo em Pernambuco”. Pouco antes, havia obtido a cidadania italiana, conquista que posteriormente possibilitou que diversos parentes também a obtivessem.
A família Perazzo do Sertão de Pernambuco, descendente do imigrante italiano Antônio Perazzo, um trabalhador braçal e analfabeto que chegou ao município de Afogados da Ingazeira, construiu, ao longo das gerações, uma trajetória de relevante ascensão social e econômica. Antônio casou-se com uma jovem pertencente ao tradicional patriarcado rural sertanejo, da família de Francisco Miguel de Siqueira.
À medida que avanço na leitura da biografia de Mauricio Macri, impressiona-me perceber como Franco Macri, chegando à Argentina aos 18 anos, conseguiu construir um patrimônio extraordinário em poucas décadas. Salvo engano, em determinado trecho da obra, seu patrimônio é estimado em aproximadamente 500 milhões de dólares.
A conclusão me parece inevitável: somente uma sociedade baseada na livre iniciativa permite que um jovem imigrante pobre alcance tamanho sucesso econômico por meio do trabalho, do empreendedorismo e da liberdade para produzir.
É justamente isso que o capitalismo proporciona: oportunidades.
Viva o capitalismo.
Viva a sociedade aberta.
Viva o livre mercado.


