Valterlucio Campelo: O efeito “coattail” no cálculo eleitoral

Existe no cálculo eleitoral um negocinho chamado coattail que, em poucas palavras, significa o poder de arrasto de uma candidatura principal em relação a outras em seu entorno. Por exemplo: Quanto a candidatura ao governo pode puxar uma candidatura ao senado? Este é o coattail provável do candidato.

É comum que em uma campanha eleitoral, os candidatos ao senado busquem essa mão amiga e procurem se aliar com aquele candidato ao governo que esteja à frente nas pesquisas. Como dizem no popular, não se busca proteção do sol embaixo de árvore que não dá sombra. Vamos aqui examinar brevemente esse fenômeno, por enquanto sem citar nomes e sem detalhar seu funcionamento (há até fórmula econométrica para o cálculo). Os leitores entenderão.

Trago o primeiro problema. O efeito coattail, embora importante, é limitado na capacidade do candidato principal, ou seja, se mais de um candidato ao senado orbitar o candidato ao governo, dividirão entre si a mesma “sombra”, de modo que cada um terá uma menor fatia do efeito. Haverá, portanto, uma diluição do poder de arrasto e cada um dos dois, três ou quatro, terá menor saldo da decisão de apoio.

O leitor deve estar antecipando. E quando o candidato ao governo é mais fraco, ou seja, tem menor preferência eleitoral nas pesquisas, como ocorre o efeito coattail?

Temos ai o segundo problema. Na maioria das vezes, não ocorre. Esse cenário subverte a premissa fundamental do coattail. Não estamos mais diante de um cabeça de chapa que alavanca, mas diante de um que potencialmente freia. A literatura denomina esse fenômeno drag on the ticket, e o caso expõe uma configuração particularmente instável.

O artigo de DeLuca, Moskowitz & Schneer (2025) publicado no American Journal of Political Science testa exatamente esta hipótese: um cabeça de chapa mais fraco prejudica os candidatos aliados? A resposta é que o efeito tende à neutralidade.

Um candidato a governador menos posicionado não contamina automaticamente senadores competentes do mesmo partido ou aliança porque o eleitor avalia cada cargo em seu próprio mérito. A ressalva decisiva para este cenário é que essa capacidade de discernimento declinou significativamente nos anos recentes, correlacionada à erosão da imprensa e à polarização.

Então, considerando que em situação normal o arrasto negativo de um candidato secundário tende a ZERO, a escolha estratégica por esse candidato vai no sentido da configuração que lhe oferece menor competição interna e maior possibilidade de acesso a recursos de campanha, ganhos de apoio político, capilaridade, exposição em programas de TV etc. Frente a uma escolha entre o coattail positivo de um e os recursos de campanha de outro, o candidato adota a estratégia que lhe some mais elementos de que precisa.

Mas, quando o candidato ao governo é especialmente fraco, com desempenho marginal nas pesquisas de preferência do eleitorado? Bem, neste caso extremo, ocorre um coattail negativo, ou seja, ele entra como um peso morto a ser arrastado por quem deveria arrastar – papéis invertidos. Somente um tolo, ou alguém muito preso às circunstâncias optaria por tomar prejuízo colando sua imagem em um candidato inviável.

Demos nomes aos bois. Considerando que Gladson Cameli é originalmente o candidato preferencial da chapa governista, o movimento recente de Marcio Bittar se insere no primeiro contexto, isto é, buscou dividir volume político e material de campanha na chapa de Mailza Assis, ao invés de dividir o coattail de Alan Rick com outros três candidatos. Isto, é claro, se houver adesão da chapa ao candidato Flávio Bolsonaro. Marcio Bittar NÃO estará num palanque não-bolsonarista.

Petecão, por sua vez, não sendo “conversado” segundo ele mesmo, teve que se refugiar sob a árvore do PR. Para alguém que durante o mandato inteiro se negou a dizer seu lado, embora tenha votado quase 100% com Lula, subir no palanque do virtual governador está ótimo.

Enquanto isso, Jorge Viana cumpre seu martírio imposto pelo presidente Lula, que forçou sua saída da APEX para enfrentar o desafio de entregar uma vaga de senador ao PT. Sem candidato viável ao governo, sem povo, sem a militância orgânica de antes, mas com recursos financeiros abundantes e prestígio junto ao governo federal, julga-se capaz de com lábia desideologizada e roupa nova (abandonou todos os sinais petistas) mais do que compensar alguma perda por coattail negativo. Na verdade, no caso do PT, a relação foi radicalmente invertida. É o petista Jorge Viana que arrasta um Thor sem forças, cujas aparições parecem denunciar que está ali a contragosto, cumprindo uma missão delegada de cima pra baixo.

O resultado em 4 de outubro dirá quem fez a aposta correta, quem foi mais eficiente na campanha, quem melhor aproveitou os fatores de que dispõe e explorou as fraquezas dos adversários etc. Até porque no plano nacional as coisas andam bastante instáveis e podem repercutir por aqui. A preço de hoje, diria que estamos no mesmo patamar de algumas semanas atrás. Tudo que aconteceu, alianças, convenções etc., estava precificado. Times em campo, o jogo começa.

Valterlucio Bessa Campelo escreve semanalmente nos sites AC24HORAS, DIÁRIO DO ACRE, ACRENEWSe, eventualmente, no site Liberais e Conservadores do jornalista e escritor PERCIVAL PUGGINA, no VOZ DA AMAZÔNIA e em outros sites. Seu último livro, o ensaio político-filosófico “O anel progressista: como o poder tutelar se torna invisível”, está à venda pela editora independente UICLAP

Tópicos:

Nossa responsabilidade é muito grande! Cabe-nos concretizar os objetivos para os quais foi criado o jornal Diário do acre