Valterlucio Campelo: A lógica é a ética da ciência. Ou, sem causa não há efeito

Nos últimos anos, com a proliferação de institutos de pesquisa com metodologias distintas, foram sendo gerados cenários aparentemente contraditórios, especialmente em disputas estaduais onde o volume de dados é menor e a margem de erro, mais ampla. Estamos observando isso no Acre, considerando que em 17 dias, sem a observação de nenhum fato político drástico, os resultados entre três institutos (três metodologias diferentes), divergem absurdamente. Chamemos a lógica à mesa.

Apresentamos aqui uma aplicação prática da metodologia de agregação ponderada — inspirada no modelo do FiveThirtyEight — aos três levantamentos mais recentes sobre a corrida ao governo do Acre: Instituto Delta (17/jul), Real Time Big Data (27/jul) e AtlasIntel (03/ago), visando trazer os dados para um eixo comum.

A ponderação por recência, tamanho amostral e qualidade metodológica produz uma estimativa agregada que situa Alan Rick com 38,5% dos votos válidos, Mailza Assis com 33,5%, Tião Bocalom com 19,5% e Thor Dantas com 8,5%. O exercício demonstra que a divergência observada é predominantemente metodológica, não fenomênica, e que a agregação ponderada oferece um instrumento analítico mais robusto do que a leitura isolada de qualquer instituto.

As eleições de 2026 no Acre ilustram um fenômeno recorrente na análise eleitoral contemporânea: a coexistência de pesquisas que, embora meçam o mesmo fenômeno no mesmo território, produzem resultados substancialmente distintos. No intervalo de 17 dias, três institutos divulgaram levantamentos sobre a disputa ao governo estadual com diferenças que chegam a 18 pontos percentuais na posição relativa dos candidatos. Convenhamos, sem um fato extraordinário, tal não se explica facilmente. Daí o espanto de todos nesta segunda-feira que, coincidentemente, antecede a convenção da candidatura governamental.

A governadora Mailza Assis (PP), por exemplo, oscila de 19,5% (Delta) a 35,2% (AtlasIntel) — uma variação de 15,7 pontos percentuais que, em condições normais, representaria um crescimento explosivo. Contudo, nenhum fato político relevante ocorreu nesse período que justificasse tal movimentação. A hipótese mais parcimoniosa, portanto, é que a divergência não reflita mudança real no eleitorado, mas sim os vieses intrínsecos a cada método de coleta.

Diante desse cenário, surge a pergunta: qual é a melhor estimativa do estado real da disputa? A resposta, conforme demonstrado por agregadores como o FiveThirtyEight nos Estados Unidos, não está em escolher um instituto como “o mais confiável”, mas em combinar sistematicamente todos os levantamentos disponíveis, ponderando-os por critérios objetivos de qualidade.

Uma pesquisa eleitoral isolada carrega dois tipos de erro: a variância amostral (erro aleatório, quantificado pela margem de erro) e o viés sistemático (erro metodológico, decorrente de escolhas como método de coleta, tratamento de indecisos e ponderação demográfica). Ao combinar múltiplas pesquisas, o erro aleatório tende a se cancelar — o ruído de uma pesquisa não está correlacionado com o ruído de outra. O viés sistemático, por sua vez, pode ser parcialmente neutralizado se os institutos carregam vieses em direções opostas.

A média aritmética simples, contudo, não é suficiente. Pesquisas mais recentes, com amostras maiores e metodologicamente mais transparentes devem receber peso maior na estimativa final. Três institutos divulgaram pesquisas sobre a disputa ao governo do Acre entre 17 de julho e 3 de agosto de 2026. A Tabela 1 apresenta os resultados brutos e os parâmetros metodológicos de cada levantamento.

Tabela 1. Intenções de voto para governador do Acre – três levantamentos recentes

CandidatoDelta (17/jul)Real Time (27/jul)AtlasIntel (03/ago)
Alan Rick (Republicanos)38,27%38,0%33,1%
Mailza Assis (PP)19,48%28,0%35,2%
Tião Bocalom (PSDB)19,28%17,0%18,5%
Thor Dantas (PSB)1,79%7,0%9,7%
Branco/Nulo4,08%6,0%0,9%
Não sabe17,10%3,0%2,6%

Considerando a recência, o método de coleta (presencial, telefônico e digital) e margem de erro e transparência, chega-se à agregação como abaixo na tabela 2.

Tabela 2 – Resultados da Agregação

CandidatoDelta (×6,53)Real Time (×22,18)AtlasIntel (×31,58)Média ponderadaVotos válidos
Alan Rick249,90842,841.045,3035,5%38,5
Mailza Assis127,20621,041.111,6230,9%33,5
Tião Bocalom125,90377,06584,2318,0%19,5
Thor Dantas11,69155,26306,337,9%8,5
Branco/Nulo26,64133,0828,423,1%
Não sabe111,6666,5482,114,3%

A divergência mais importante observa-se na posição relativa de Alan Rick e Mailza Assis. No levantamento Delta (presencial), Alan Rick lidera com 38,3% contra 19,5% de Mailza — uma diferença de 18,8 pontos. No Real Time (telefônico), a vantagem de Alan Rick é de 10 pontos (38% × 28%). Na AtlasIntel (digital), Mailza aparece à frente com 35,2% contra 33,1% de Alan Rick, uma diferença de 2,1 pontos, dentro da margem de erro.

Considerando as três pesquisas, pode-se inferir que Alan Rick mantém vantagem de 5,0 pontos percentuais sobre Mailza Assis nos votos válidos. A disputa pela segunda colocação está consolidada, com Mailza à frente de Bocalom por 14 pontos. O exercício de agregação ponderada aqui demonstrado produz três conclusões principais:

Primeiro, a divergência entre os institutos é predominantemente metodológica, não fenomênica. A inversão entre Alan Rick e Mailza (de liderança de 18 pontos para virtual empate) não reflete mudança real no eleitorado em 17 dias, mas o efeito combinado de três variáveis inerentes aos modelos.

Em segundo, o campo está polarizado, mas a liderança de Alan Rick é real, ainda que modesta. Com 38,5% dos votos válidos, Alan Rick provavelmente não possui mais a vantagem de 18 pontos que o Delta sugere isoladamente, mas mantém 5 pontos à frente de Mailza – uma liderança vulnerável a oscilações, porém consistente com a trajetória observada em levantamentos anteriores do mesmo instituto.

No caso do Acre, a divergência entre Delta, Real Time e AtlasIntel não indica que algum instituto está “errado” — indica que cada método captura uma faceta diferente do eleitorado, com seus próprios pontos cegos. A melhor estimativa da disputa ao governo do Acre, dada a combinação de todas as evidências disponíveis ponderadas por sua confiabilidade, situa Alan Rick com 38,5% dos votos válidos, Mailza Assis com 33,5%, Tião Bocalom com 19,5% e Thor Dantas com 8,5%.

Esse exercício ilustra um princípio mais amplo: a lógica – como ética da ciência – não está em cravar um vencedor, mas em tornar transparente o caminho que leva do dado bruto à conclusão, com todos os seus pressupostos expostos à crítica. A agregação ponderada não é um oráculo; é um instrumento analítico que, quando bem aplicado, permite navegar o ruído informacional com maior rigor metodológico. Sentenças exigem pressupostos, efeitos exigem causa. 

Valterlucio Bessa Campelo escreve semanalmente nos sites AC24HORAS, DIÁRIO DO ACRE, ACRENEWS e, eventualmente, no site Liberais e Conservadores do jornalista e escritor PERCIVAL PUGGINA, no VOZ DA AMAZÔNIA e em outros sites. Seu último livro, o ensaio político-filosófico “O anel progressista: como o poder tutelar se torna invisível”, está à venda pela editora independente UICLAP

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