O agro do Acre ganhou força, mas quem vai defender seus interesses na política?

Durante muito tempo, o agronegócio brasileiro pareceu acreditar que bastava produzir. Plantar, criar, colher, vender e pagar impostos. O resto seria problema de alguém. Descobriu, talvez um pouco tarde, que não é assim que funciona. Quem produz riqueza também precisa participar das decisões que determinam o que pode, como pode e quanto custa produzir. No Acre, essa mudança de consciência ficou evidente. O campo deixou de ser apenas uma atividade econômica e passou a ocupar um espaço importante na identidade política e social do Estado.

O Acre passou duas décadas discutindo a velha religião da Florestania, como se desenvolvimento fosse uma espécie de pecado ambiental e prosperidade uma atividade suspeita. A realidade, felizmente, tratou de desmontar parte dessa fantasia. O agro acordou. E, ao acordar, percebeu que política também se planta. O problema é que ainda existe uma distância enorme entre perceber a necessidade de representação e saber construir uma representação verdadeiramente capaz de defender o setor.

Não faltam candidatos ligados ao campo. Não faltam discursos sobre produção. Não faltam fotografias em fazendas, botas, chapéus, máquinas e gado. O que ainda falta, em muitos casos, é algo muito mais simples e muito mais difícil: representação política qualificada, organizada e capaz de transformar as necessidades do setor em decisões concretas. O doutor em Desenvolvimento Agrário Jorge Nogueira já resumiu essa percepção ao afirmar que o agronegócio compreendeu que precisava ter voz ativa na política para não continuar levando “chinelada” de todos os lados.

A questão é que o agro não pode cometer o erro de imaginar que sua representação política deve ser formada apenas por quem possui uma grande propriedade rural. Agronegócio não é sinônimo de latifúndio. Existe o pequeno produtor, o colono, o pecuarista familiar, o médio produtor e o grande empresário rural. Existe quem vende insumos, quem presta assistência técnica, quem financia, quem transporta, quem armazena, quem industrializa e quem comercializa. Antes de a mercadoria sair da porteira, existe uma cadeia inteira trabalhando para que aquela produção aconteça. Depois dela, existe outra cadeia inteira tentando fazer com que o produto chegue ao consumidor.

É justamente aí que muita gente ainda parece não entender o tamanho do problema. A fazenda é fundamental, mas não é o agronegócio inteiro. Uma estrada ruim aumenta o custo do frete. Um ramal intrafegável impede a retirada da produção. Uma ponte que cai interrompe uma cadeia econômica inteira. A falta de energia compromete a atividade. O crédito caro reduz investimentos. A burocracia paralisa negócios. Uma regra ambiental mal desenhada pode transformar uma propriedade produtiva em um passivo. Uma barreira comercial pode destruir, em poucos dias, uma margem construída durante meses.

E há uma questão ainda mais elementar: liberdade econômica. Não existe prosperidade sustentável quando quem trabalha de sol a sol precisa entregar uma parcela cada vez maior do resultado do seu esforço a um Estado incapaz de oferecer infraestrutura, segurança jurídica e serviços minimamente eficientes. O produtor não precisa de favor. Precisa de condições para produzir. Precisa de estrada, crédito, segurança jurídica, energia, tecnologia, assistência técnica, mercado e regras que não mudem conforme o humor de quem ocupa uma repartição pública.

O problema é que, enquanto tudo isso está acontecendo, parte do setor ainda desperdiça energia em conflitos internos. Brigas pequenas. Vaidades pessoais. Disputas por espaço. Discussões sobre quem é mais ou menos produtor, quem representa melhor o campo, quem tem mais legitimidade, quem deveria aparecer mais. É preciso superar os conflitos bobos internos. O agro não pode passar o ano discutindo o sexo dos anjos enquanto outros setores estão escrevendo as leis que vão determinar o futuro da produção. Política não é concurso de pureza. É disputa por ideias, interesses e capacidade de articulação.

A experiência eleitoral de 2022 deveria servir como uma dessas lições que ninguém deveria precisar repetir. Houve uma tentativa de organizar uma candidatura identificada com o setor, mas o projeto acabou não prosperando. O agro perdeu ali uma oportunidade de construir uma alternativa política mais estruturada. Não se trata de lamentar o passado, mas de aprender com ele. Se o setor pretende ocupar espaço nas decisões do Estado, precisa chegar às eleições com organização, informação e, sobretudo, maturidade.

O ano eleitoral não deveria ser o momento em que o produtor começa a descobrir quem são os candidatos. É agora que começa a verdadeira tarefa de escolher representação. Quem conhece a realidade do campo? Quem entende os pequenos produtores? Quem conhece os grandes? Quem compreende a cadeia produtiva? Quem sabe discutir licenciamento ambiental sem transformar o assunto em guerra ideológica? Quem entende infraestrutura, crédito, regularização fundiária, logística, tecnologia e mercados?

Não basta perguntar quem fala bonito sobre o agro. É preciso perguntar quem tem conhecimento, coerência e capacidade de articulação para defender o setor quando a conversa deixar de ser discurso e virar votação, orçamento, decreto ou legislação. Porque é nesse momento que desaparecem as fotografias e começam as decisões que realmente importam.

O agro acreano já demonstrou que tem força econômica, capacidade produtiva e disposição para crescer. Agora precisa transformar essa força em maturidade política. Não para dominar a política, mas para deixar de ser tratado como espectador dela. Produzir é importante. Produzir e ter quem defenda as condições para continuar produzindo é ainda mais importante.

A política vai decidir muito do que acontecerá com o campo nos próximos anos. E o campo precisa decidir, antes, quanto está disposto a participar dessa política. Chega de brigar entre si por migalhas enquanto outros escolhem o tamanho do prato. O agro precisa olhar para frente, organizar suas prioridades e construir uma representação à altura daquilo que já representa na economia do Acre.

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Ronan Matos

Ronan Matos é jornalista e editor-chefe do Diário do Acre.

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