Valterlucio Campelo: Uma tendência ideológica à espera do voto

Nesta quinta-feira (13/09), o PoderData/Aya publicou uma ampla pesquisa sobre a intenção de votos para a presidência e mais uma série de questões de alto interesse. Além de encontrar um empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro no segundo turno (46% X 45%), entre tantos dados levantados, a pesquisa forneceu uma tensão interessante sobre o qual faço algumas considerações. 

No quesito posicionamento ideológico, temos 45% se declarando de DIREITA (36% de direita + 9% de centro-direita) e 29% DE esquerda (17% de esquerda + 12% de centro-esquerda). No centro, apenas 5%. Os que declararam não ter posicionamento político são 21%. Algo que em termos gráficos ficaria como na figura acima.

O dado central é que temos um eleitorado bipolarizado, com centro minguante. A distribuição revela um padrão de bipolarização assimétrica: as categorias extremas (direita + esquerda) concentram a identidade, enquanto o centro autodeclarado é residual (5%). Isso é consistente com a literatura sobre polarização afetiva. Em contextos de conflito político, o “centro” como identidade tende a esvaziar, porque se tornar moderado deixa de ser uma posição socialmente recompensada. O centro deixa de ser um lugar e vira uma não-resposta, ainda mais se considerarmos que não temos efetivamente um centro político programático.

Interessante que a direita é a categoria modal, mas identidade não é voto. A vantagem de 16 pontos percentuais da direita sobre a esquerda (45% × 29%) confirma a tendência de direitização da autoidentificação observada desde 2018. Entretanto, os próprios dados do mesmo instituto mostram que, a despeito dessa vantagem, a corrida presidencial segue competitiva (Lula 41% × 35% de Flávio no 1º turno; 46% × 45% no 2º). Ou seja: a direita é maior como identidade difusa, mas isso não se traduz mecanicamente em maioria eleitoral, pois depende de agregação de candidaturas, fragmentação e mobilização.

Outro dado importante é o bloco dos 21% “sem posição”. Esse grupo é heterogêneo: reúne tanto eleitores de baixa sofisticação/informação política quanto os que operam por pragmatismo (avaliam gestão, economia, segurança — não ideologia). São, na prática, o eleitorado flutuante que costuma definir eleições acirradas. A literatura chama isso de “apartidários” ou “apolíticos”, e sua volatilidade costuma ser maior.

Pode-se dizer que o “centro” brasileiro é comportamental, não ideológico. Muitos moderados respondem “não tenho posição” ou se distribuem entre centro-direita e centro-esquerda, evitando o termo “centro”, que na disputa pública brasileira foi estigmatizado como sinônimo de “em cima do muro” ou “fisiologismo”, confundido que foi com o “centrão”.

Fomos atrás da tendência e verificamos pelo mesmo instituto outros 3 levantamentos que permite o quadro abaixo:

Tabela 1 – Perfil ideológico (21/26)*

PeríodoDireitaCentroEsquerdaNão sabe
Ago/202124%25%24%
Abr/202233%23%
Jan/202328%20%21%31%
Ago/2026*45%5%29%21%

*A tabela acima exige uma explicação. Os dados do centro antes de 2026 englobam os centro direita e centro esquerda. As perguntas referiam apenas a Direita, Centro e Esquerda. Em 2026, abriu-se o leque para cinco categorias que na tabela foram agrupadas em três para efeito de comparação.

De todo modo, os números revelam que a direitização da identidade é tendência, não episódio. A direita assumiu uma liderança folgada e crescente e a esquerda permaneceu num patamar estável de 21–29%. O movimento é, portanto, de crescimento do polo direitista sobre o vácuo do centro, não de migração esquerda→direita. A direita cresce e se consolida como identidade majoritária; a esquerda resiste, mas não se expande. O desequilíbrio é estrutural.

Por outro lado, vê-se que o “não posicionado” é estrutural, não residual. Ele varia de 21% a 40% conforme o instituto e a pergunta (DataSenado 2024 aponta 40% sem identificação). É o maior “bloco” depois da direita e o mais volátil.

Uma pergunta se faz obrigatória: Por que a tendência não se transforma em votos? Este é o ponto mais importante, em torno do qual arrisco três palpites:

– A identidade difusa não significa voto concentrado. A autoidentificação mede um sentimento amplo; o voto exige uma escolha binária entre candidatos concretos. Um eleitor de direita que por algum motivo rejeita o candidato de direita disponível simplesmente não transfere sua identidade para o voto. 

– “Direita” é um guarda-chuva que abriga liberais, conservadores religiosos, bolsonaristas e antipetistas, portanto, uma coalizão instável. Essa fragmentação dissipa a vantagem agregada no plano eleitoral.

– Há um voto material descolado da identidade. O eleitor de baixa renda vota pelo bolso (ou pelo estômago), e aí os dois campos competem em condições mais equilibradas.

Em resumo, pode-se dizer que os dados retratam um eleitorado com identidade direitista majoritária, uma esquerda minoritária, porém estável, e um centro como rótulo esvaziado. Além disso, um amplo bloco de não-posicionados que funciona como a real zona de disputa. Entre eles é que navega a incerteza.

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Valterlucio Campelo

Valterlucio Bessa Campelo escreve semanalmente nos sites AC24HORAS, DIÁRIO DO ACRE, ACRENEWS e, eventualmente, no site Liberais e Conservadores do jornalista e escritor PERCIVAL PUGGINA, no VOZ DA AMAZÔNIA e em outros sites. Seu último livro, o ensaio político-filosófico “O anel progressista: como o poder tutelar se torna invisível”, está à venda pela editora independente UICLAP.

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