A pecuária brasileira perdeu neste domingo (16) José Humberto Vilela Martins, o Zé Humberto, proprietário da tradicional Fazenda Camparino, em Cáceres, no Mato Grosso. Ao longo de mais de seis décadas, o pecuarista construiu uma trajetória diretamente ligada à evolução da seleção de bovinos zebuínos no Brasil.
Filho de produtores rurais e natural de Ituiutaba, em Minas Gerais, Zé Humberto passou por Goiás antes de consolidar sua atividade no Mato Grosso. Foi em Cáceres, na região do Pantanal mato grossense, que estruturou a Fazenda Camparino, posteriormente reconhecida nacionalmente pelo trabalho de seleção de Nelore, Sindi e Gir.
A história da Camparino com o melhoramento genético começou em 1963, ao lado da esposa, Dona Edilza. Desde então, o criatório acompanhou praticamente todas as grandes transformações da pecuária brasileira, passando de uma seleção baseada principalmente na experiência visual para um modelo que incorporou avaliações genéticas, biotecnologias reprodutivas e ferramentas de precisão.
Zé Humberto, porém, nunca enxergou tradição e tecnologia como caminhos incompatíveis. Em uma época em que índices genéticos e bancos de dados ainda não faziam parte da rotina das fazendas, o chamado “olho do criador” era fundamental. Com a modernização do setor, ele incorporou os números ao processo, mas continuou defendendo que fertilidade, precocidade, rusticidade, funcionalidade e conformação precisavam ser observadas diretamente no animal.
Essa filosofia ficou resumida em uma expressão que se tornou uma espécie de assinatura da Camparino: “O Zebu que paga a conta”. A ideia era simples, mas carregava uma visão empresarial da seleção: não bastava produzir animais racialmente corretos ou visualmente impressionantes. A genética precisava entregar resultado econômico, produtividade e retorno para quem vive da pecuária.
O impacto desse trabalho ultrapassou os limites da própria fazenda. Touros, matrizes, sêmen e embriões da genética Camparino chegaram a diferentes regiões do país. Calibre FIV Camparino, por exemplo, teve aproximadamente 19 mil doses de sêmen comercializadas apenas em 2019, segundo informações divulgadas pelo criatório. Outro destaque foi Ford FIV Camparino, valorizado em R$ 2,64 milhões durante a ExpoZebu de 2023.
A trajetória de Zé Humberto também acompanhou o avanço da pecuária brasileira rumo ao Centro Oeste. Embora o Nelore tenha ocupado posição central em seu trabalho, a Camparino também desenvolveu projetos com Nelore Mocho, Sindi, Gir Leiteiro e cavalos Quarto de Milha. No Sindi, o criatório passou a trabalhar com a raça há cerca de duas décadas, aproveitando a experiência acumulada em melhoramento genético.
Mais do que produzir animais de alto valor, Zé Humberto transformou a Camparino em uma espécie de escola de seleção pecuária. Criadores, técnicos, estudantes e profissionais passaram pela propriedade em busca de conhecimento e acompanharam de perto uma filosofia que procurava unir experiência prática e ciência.
Essa visão permaneceu mesmo diante do avanço das ferramentas tecnológicas. O pecuarista defendia que avaliações genéticas, ultrassonografia, reprodução assistida e grandes bancos de dados deveriam auxiliar o criador, mas não substituir sua capacidade de observar o rebanho. Para Zé Humberto, os números precisavam conversar com aquilo que acontecia no curral e, principalmente, com o desempenho real dos animais.
A continuidade desse trabalho já estava sendo construída pela família. A Fazenda Camparino vinha passando por um processo de sucessão, com a participação dos netos Natalia e Matheus. Nesse contexto, preservar a história significa não apenas manter uma propriedade ou um patrimônio, mas também conservar famílias genéticas, critérios de seleção e um conhecimento acumulado durante mais de seis décadas.
A morte de Zé Humberto encerra uma trajetória de mais de 60 anos dedicada à pecuária, mas deixa uma marca que permanece espalhada por diferentes rebanhos brasileiros. Sua genética, seus animais e sua filosofia de seleção continuam presentes na pecuária nacional. Ao comunicar a despedida, a Connect Leilões manifestou solidariedade aos familiares, amigos, colaboradores e à comunidade pecuária. Mais do que formar um rebanho, José Humberto Vilela Martins ajudou a formar uma escola de pecuária.



