Parece que a campanha no Acre vai muito mal. Vimos nas ruas o pior que poderia acontecer. Quero dizer com isso que ao invés das diferenças entre os candidatos, o que se mostra é quanto os candidatos estão dispostos a gastar para se elegerem, um verdadeiro escândalo que combina dinheiro do fundão, dinheiro dos bolsos sujos de apaniguados e a algemas colocadas em milhares de cargos comissionados.
Os titulares das campanhas não se importam em explicar ao acreano a situação das licitações, o enriquecimento ilícito de alguns, os processos em curso e até condenações. É como se promovessem um delírio coletivo no qual as pessoas fossem levadas ao êxtase de pular do precipício.
Qualquer visita aos dados do Acre faz perceber que estamos afundando num lamaçal de má gestão e corrupção. O rombo na previdência leva mais de um bilhão por ano praticamente zerando o espaço fiscal do governo, em praticamente todos os itens de saúde, educação e segurança estamos na rabeira entre os estados da federação. Quem diria, empobrecemos nos últimos anos!
Os últimos dias, com a colaboração da imprensa, foram transformados em uma espécie de campeonato do barulho. Quem grita mais e mais alto ganha. Carreatas cheias destoam dos discursos vazios que embalam promessas vãs. Responsabilidade, nenhuma. Apego à realidade fiscal, nenhum. Trata-se de um desfile doente, uma enorme tripa deslizando pelas ruas, consumindo combustível pago sabe-se lá por quem e por qual preço.
Tivemos nesse domingo a disputa entre Comissionados da PMRB Bocalom Clube versus Comissionados do Governo Mailza Clube. Não faço a mínima ideia de quem ganhou, sei quem perdeu – o eleitor. Sim, o eleitor, este ser manipulado, amassado, virado pelo avesso, destruído em suas ambições e aptidões, doente, faminto, desvalido, mas chamado de quatro em quatro anos para ratificar o status quo. O percurso, ele faz a pé, pulando esgotos.
A situação está péssima, o horizonte fiscal é sombrio, o desemprego expulsa nossos jovens do Acre, a inflação corrói salários, o cartão de crédito virou guilhotina, o SERASA cercou metade da população adulta e, mesmo assim, o berrante toca do palanque dizendo que é preciso continuar. O eleitor analisa. Alguns seguem, outros desconfiam, não querem ser gado.
Curiosamente, sai uma nova pesquisa eleitoral feita dentro de casa para “provar” em números que a tripa maior vai vencer. Novamente a busca do efeito manada que, não por acaso, leva este nome. Trata-se de uma operação casada supercarreata + pesquisa ––> efeito manada. Uma farsa que em dois lances tem o eleitor como gado a ser convencido não por palavras e atos, mas por uma sensação de torcedor que quer pertencer ao time vencedor e, assim vai com os outros.
A tática é evidente. Um instituto de “casa” já que seu dono ocupa alto cargo em órgão do governo, não mais que de repente resolve fazer uma pesquisa – a primeira –, sem pagamento, de livre alvedrio como se fosse por esporte e divulga dados extraordinariamente favoráveis aos chefes, em contradição flagrante com outras pesquisas recentes de outros institutos. Isso é método. Explico.
Um instituto que entra num processo eleitoral só tem compromisso real consigo mesmo, já que sua metodologia difere daquela empregada por outros institutos. Se defende dizendo que é “o retrato do momento” e que não tem compromisso com outras pesquisas. Com isso, passa a impressão de razoabilidade dos números, enquanto na sala vizinha se despacham ordens de abastecimento de combustível para a supercarreata triunfante. A coincidência é uma espécie de blitz sobre a opinião pública que durante a semana ecoará, com a ajuda paga da imprensa, os números e o comprimento da tripa automobilística.
O que fazer nessas circunstâncias?
Essa é a pergunta do bilhão (milhão virou troco do Vorcaro no governo Lula). A minha aposta é insistir na verdade. Não sou marqueteiro, logo, posso estar completamente errado, mas contra a mentira me recuso a apostar em mais mentira ou em mentira maior. Os oponentes ao sistema enlouquecido que não pretende largar o osso (a carne já foi engolida) e se agarra com todas as forças e arreganhos ao escamoteamento da realidade, devem ser mais agressivos com a verdade.
Não é possível que cheguemos ao fim da campanha sem que se toque nas mazelas que se aprofundam. Há uma lista enorme de indicadores sociais e econômicos dando conta da nossa miséria em praticamente todos os temas. Ninguém vai falar da corrupção? Do enriquecimento medido e fotografado nas mansões dos condomínios de alto luxo? A queda da ponte de Sena Madureira só serviu para machucar o Dr. Edinaldo Muniz? Onde andam os responsáveis por aquele crime?
Sim, vão começar os debates e sabatinas. É mesmo? Vão perguntar, inquirir, incomodar, ou apenas levantar a bola para a cortada do sabatinado de preferência? Os mesmos farão aos mesmos as mesmas perguntas para ouvirem as mesmas respostas? Não sei, mas confio mais no face to face. Sem essa de mimimi feminista, sem contemplação com o erro, sem passar pano para a corrupção e a incompetência.
A verdade, nada mais que a verdade precisa ser arrancada dos candidatos, de todos eles. O eleitor precisa conhecer o âmago da administração pública, o ânimo dos candidatos e a capacidade de enfrentamento aos nossos problemas que não podem continuar sendo negligenciados e, muitos deles, aprofundados.
Por último, uma alerta à justiça eleitoral. Tá vendo nada não? É normal tudo isso que está se passando sob suas ventas? As eleições serão decididas pelo poder da máquina como dizem por aí? É hora de agir. Se não fizeram nada preventivamente, que o façam durante a ocorrência dos crimes eleitorais. O acreano merece algo melhor do que a farsa que enche aquela tripa que desfilou no último domingo.
Valterlucio Campelo
Valterlucio Bessa Campelo escreve semanalmente nos sites AC24HORAS, DIÁRIO DO ACRE, ACRENEWS e, eventualmente, no site Liberais e Conservadores do jornalista e escritor PERCIVAL PUGGINA, no VOZ DA AMAZÔNIA e em outros sites. Seu último livro, o ensaio político-filosófico “O anel progressista: como o poder tutelar se torna invisível”, está à venda pela editora independente UICLAP.
O conteúdo deste artigo é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Diário do Acre.


