Soja brasileira pode bater novos recordes, mas expansão de área perde força na safra 2026/27

Com juros elevados, crédito restrito, endividamento e margens mais apertadas, produtores reduzem ritmo de incorporação de novas áreas e passam a depender mais de produtividade e eficiência

Depois de duas décadas de expansão sobre novas áreas, a soja brasileira chega à safra 2026/27 diante de uma mudança importante de cenário. O país ainda pode alcançar novos recordes de área e produção, mas o ritmo de crescimento deve ser um dos menores dos últimos 20 anos. Algumas análises, inclusive, já trabalham com a possibilidade de estabilidade da área cultivada.

As projeções das principais consultorias mostram a dimensão dessa desaceleração. A Datagro estima 49,3 milhões de hectares de soja em 2026/27, avanço de apenas 0,3% sobre a temporada anterior. A AgRural projeta 49 milhões de hectares, alta de 0,9%, enquanto a Safras & Mercado trabalha com crescimento de 1,2%. Já a StoneX estima 49,5 milhões de hectares, aumento de 0,76%. Apesar das diferenças, todas apontam para a mesma direção: a expansão continua possível, mas perdeu força significativamente.

A projeção da Datagro ajuda a dimensionar o momento. Mesmo com o crescimento mínimo da área, a consultoria estima que a produção brasileira possa chegar a 185,6 milhões de toneladas, alta de aproximadamente 1%, considerando produtividade média nacional de 3.763 quilos por hectare. A StoneX também vê possibilidade de recorde, com estimativa de 183,1 milhões de toneladas, mas ressalta que o avanço tende a ser moderado diante dos custos elevados e de um cenário global mais confortável.

O principal motivo para o produtor pisar no freio está na rentabilidade. Expandir uma lavoura exige recursos para custeio, máquinas, fertilizantes, defensivos, mão de obra e, em muitos casos, contratos de arrendamento. Com juros elevados e crédito mais seletivo, aumentar a área ficou mais difícil. A situação pesa ainda mais sobre produtores que chegam à nova temporada carregando dívidas acumuladas nos últimos ciclos. Nesse cenário, preservar o caixa e manter a operação atual pode ser mais racional do que assumir novos compromissos para produzir mais.

Os contratos de arrendamento também entram no centro da discussão. Grande parte deles é negociada em sacas de soja por hectare e, quando a rentabilidade diminui, áreas mais caras ou menos produtivas tendem a ser as primeiras a serem reavaliadas. O resultado pode ser uma seleção dentro da expansão agrícola, com as áreas mais eficientes permanecendo em produção enquanto terras de custo elevado ou produtividade marginal se tornam economicamente menos atrativas. Em alguns casos, áreas utilizadas pela soja podem retornar aos proprietários ou ser destinadas novamente à pecuária.

Outro ponto de atenção é o nível tecnológico empregado nas lavouras. Com maior dificuldade de acesso ao crédito, o ajuste pode ocorrer não apenas na quantidade de hectares plantados, mas também dentro da própria produção. Adubação mais conservadora, postergação de investimentos e menor utilização de determinados insumos podem comprometer o potencial produtivo. O risco é relevante porque o Brasil poderá depender cada vez mais dos ganhos de produtividade para ampliar a produção, em vez da simples abertura de novas áreas.

O clima adiciona outra variável à equação. A Datagro trabalha com probabilidade elevada de ocorrência de El Niño entre outubro e dezembro, período decisivo para a implantação da safra brasileira. Os impactos, entretanto, não devem ser uniformes. A StoneX avalia que o fenômeno pode favorecer a disponibilidade de umidade em partes do Sul, mas elevar o risco de condições mais secas no Nordeste, Norte e em algumas áreas de Mato Grosso. Com uma expansão limitada de área, o comportamento da produtividade ganha ainda mais importância.

As projeções ainda apresentam diferenças. A Safras & Mercado estima avanço de 1,2%, para aproximadamente 49,1 milhões de hectares, enquanto a AgRural trabalha com crescimento de 0,9%. Datagro e StoneX são mais conservadoras, e o Rabobank chegou a projetar estabilidade da área e queda de aproximadamente 2% na produção, para 178 milhões de toneladas. Apesar das divergências, há um ponto de convergência: nenhuma das principais projeções aponta para uma expansão próxima daquela registrada pela soja brasileira nas últimas duas décadas. A safra 2026/27 ainda pode terminar com novos recordes, mas poderá marcar uma inflexão histórica: com quase 50 milhões de hectares cultivados, o crescimento dependerá cada vez mais de produtividade, eficiência e rentabilidade dentro das áreas já abertas.

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