Será que o mercado está antecipando uma nova alta do boi gordo? Por que a arroba segue próxima dos R$ 350 no mercado físico enquanto os contratos futuros já ultrapassam R$ 380? E, principalmente, o que os preços negociados na B3 estão sinalizando para os últimos meses de 2026?
Na quarta-feira (9), o mercado físico apresentou comportamento mais acomodado nas principais praças pecuárias. Em São Paulo, segundo a Scot Consultoria, o boi gordo ficou em R$ 345 por arroba, enquanto o chamado boi China foi negociado ao redor de R$ 350/@. A vaca gorda ficou em R$ 322/@ e a novilha avançou R$ 2, chegando a R$ 337/@.
Os números da Safras & Mercado também apontam para um mercado firme, embora com diferenças regionais. As referências ficaram em R$ 348,85/@ em São Paulo, R$ 340,32/@ em Goiás, R$ 337,24/@ em Minas Gerais, R$ 345,23/@ em Mato Grosso do Sul e R$ 330,08/@ em Mato Grosso.
Por trás dessa sustentação está um dos principais fundamentos do mercado: a oferta limitada de animais terminados. De acordo com a Agrifatto, a resistência dos pecuaristas em aceitar propostas abaixo das referências tem levado algumas indústrias com maior necessidade de compra a elevar suas ofertas.
Mesmo após o feriado, a arroba permaneceu estável em 17 regiões monitoradas pela consultoria. As escalas de abate também continuam relativamente curtas, com os lotes adquiridos pelas indústrias permitindo programações de aproximadamente sete dias de abate, em média.
É justamente essa combinação que impede uma pressão baixista mais forte. O frigorífico pode tentar pagar menos, mas o pecuarista que tem boiada pronta ainda possui poder de negociação, principalmente nas regiões onde as indústrias encontram maior dificuldade para completar suas escalas.
No mercado futuro, entretanto, o cenário chama muito mais atenção. O contrato do boi gordo para novembro de 2026 chegou a R$ 383,30/@ na B3. Considerando a referência paulista de R$ 350/@, o prêmio supera R$ 33 por arroba. Em um animal de 20 arrobas, essa diferença representa, teoricamente, R$ 666 por cabeça.
Mas será que isso significa que o boi físico chegará necessariamente a R$ 383/@? Não. Os contratos futuros representam expectativas e podem mudar rapidamente, conforme novas informações sobre oferta, demanda, exportações e consumo. Ainda assim, um prêmio dessa dimensão não passa despercebido.
O mercado parece estar colocando no preço uma combinação de fatores que pode ganhar força no último trimestre, entre eles a menor disponibilidade de animais terminados na entressafra, a recuperação sazonal do consumo no fim do ano e possíveis mudanças no fluxo das exportações brasileiras.
A China voltou a aparecer no centro das expectativas. Segundo Fernando Henrique Iglesias, da Safras & Mercado, parte da valorização dos contratos futuros está relacionada às especulações sobre uma eventual antecipação de compras chinesas referentes à próxima cota de importação. O próprio analista, porém, considera essa possibilidade pouco provável diante dos custos logísticos envolvidos.
Ao mesmo tempo, permanecem fatores de cautela no mercado externo. O esgotamento da cota chinesa de 2026 e as restrições impostas pela União Europeia às exportações brasileiras aumentam as incertezas sobre a demanda internacional. Por isso, o comportamento da China, das escalas dos frigoríficos e da oferta de gado deverá continuar no radar dos pecuaristas.
No atacado, existe expectativa de alguma recuperação da carne bovina com a entrada dos salários e a reposição entre atacado e varejo. Porém, a carne bovina continua enfrentando a concorrência de proteínas mais baratas, como frango e ovos, o que limita o espaço para aumentos mais agressivos.
O grande ponto de interrogação agora é justamente esse: o físico vai buscar os preços projetados pela B3 ou o mercado futuro está otimista demais? Se a oferta de boiada continuar restrita e as exportações recuperarem força, a distância entre os dois mercados poderá diminuir com uma valorização da arroba. Se a demanda decepcionar, parte desse prêmio poderá desaparecer.
Por enquanto, o número que chama atenção é claro: enquanto o boi físico paulista gira entre R$ 345 e R$ 350/@, novembro já chegou a R$ 383,30/@ na B3. A diferença mostra que o mercado já está olhando para um último trimestre de 2026 mais apertado e coloca uma pergunta importante para o pecuarista: há gado suficiente para impedir que essa expectativa vire preço na porteira?



