Durante duas décadas, o Acre assistiu a uma experiência política que colocou a floresta no centro de praticamente tudo. O discurso da chamada “florestania” prometia conciliar desenvolvimento, preservação ambiental e inclusão social. O problema começa quando se olha para o passado e se pergunta: o que, afinal, ficou de pé depois de tantos anos?
A pergunta tornou-se ainda mais interessante diante da aproximação de antigos setores da esquerda acreana com o agronegócio. Aquilo que durante anos foi tratado como símbolo de atraso, ameaça ambiental ou modelo econômico a ser cuidadosamente limitado passou a ocupar outro lugar no discurso político. O produtor rural, antes frequentemente apresentado como parte do problema, reaparece agora como personagem indispensável da solução.
É nesse ponto que a crítica do empresário do agronegócio e candidato a deputado estadual Zé Filho (Novo) ganha relevância. Ele chamou atenção para o que considera uma mudança oportunista de discurso e classificou determinados personagens políticos como “melancia”, numa referência àqueles que, segundo sua leitura, mantêm uma aparência ambientalista enquanto adotam posições diferentes quando o assunto passa a ser produção e atividade econômica.
Mudaram de ideia ou apenas mudaram de discurso?
O próprio relato apresentado por Zé coloca essa contradição em termos concretos. Segundo ele, enquanto pequenos produtores permaneceram submetidos a restrições territoriais e ambientais, políticos e setores que participaram da construção desse modelo passaram a produzir em propriedades regularizadas. “Transformaram a questão ambiental em uma ideologia, quase como uma religião”, afirmou.
É uma crítica que merece ser examinada. Afinal, há uma diferença enorme entre defender a preservação ambiental como política pública e transformar determinada visão sobre a natureza em uma espécie de dogma diante do qual toda atividade produtiva precisa pedir licença para existir.
O problema não está em preservar. O problema começa quando preservar significa impedir que uma família produza, que uma estrada seja aberta, que uma propriedade seja regularizada ou que um cidadão tenha acesso às mesmas oportunidades econômicas disponíveis a quem vive fora das áreas submetidas a restrições.
A questão da regularização fundiária aparece justamente nesse ponto. Zé Filho sustenta que ela é uma das principais soluções para a Amazônia e relaciona a ausência de regularização à dificuldade de acesso a ramais, escolas, postos de saúde e crédito. É uma discussão que desloca o debate ambiental de sua dimensão abstrata para a vida concreta de quem vive na terra.
E talvez seja aí que esteja o teste de maturidade de qualquer política ambiental: saber distinguir preservação de paralisia econômica.
O Acre não precisa escolher entre floresta e produção como se estivesse condenado a viver eternamente diante de uma pergunta infantil: ou uma coisa ou outra. Produção e preservação podem coexistir quando existem regras claras, segurança jurídica, fiscalização eficiente e direito de propriedade definido. O que não parece sustentável é manter milhares de pessoas em uma espécie de limbo jurídico e depois esperar que elas desenvolvam uma economia moderna.
Há ainda uma ironia particularmente reveladora nessa mudança de discurso. O agronegócio, durante muito tempo tratado por determinados setores políticos como ameaça, tornou-se suficientemente importante para ser cortejado. A terra que ontem era apresentada como patrimônio intocável passa hoje a ser lembrada como oportunidade de emprego, renda e desenvolvimento.
Talvez a questão não seja descobrir se essas pessoas mudaram. Pessoas podem mudar de opinião. Políticos também. O que merece ser cobrado é algo mais simples: o que mudou nas ideias e quais foram as razões dessa mudança?
Se a antiga política estava errada, que se diga. Se estava certa, que se explique por que o discurso mudou. Se existe hoje uma compreensão mais equilibrada sobre produção, propriedade e meio ambiente, ótimo. Mas uma mudança séria de posição exige mais do que uma troca de palavras no palanque.
Porque o produtor rural não vive de slogans. Vive de terra, estrada, crédito, segurança jurídica, mercado e trabalho.
E talvez essa seja a maior lição deixada por esse debate: quando a realidade econômica finalmente bate à porta da política, até as velhas certezas ideológicas precisam encontrar uma maneira de abrir.


