Sim, estou triste. Costuma ocorrer quando as prisões comemoram, e se elas comemoram muito, me entristeço muito. É o caso. Seja lá o que tenha acontecido para produzir este resultado, se foi simplesmente uma virada obtida contra a lógica, a matemática, a estatística, a ciência política, à base da mentira e do terror contra as populações mais carentes, ou por uma suprema tecla numa suprema sala entre a parada e o reinício da apuração, o certo é que Lula da Silva tomará posse em seu quarto mandato como presidente do Brasil e governará sua própria desgraça.
Do lado derrotado, procura-se culpados entre os dirigentes da campanha, o marketing ou o próprio candidato que não deveria ter dito isso ou aquilo. Alguns remetem ao passado e recuperam a ideia de que outra candidatura teria êxito. São os ingênuos ou teimosos que ainda não perceberam contra o quê estão lutando.
Consta que Flávio Bolsonaro, depois de ser ameaçado no último debate pelo próprio Lula da Silva e, em seguida ter sido proibido de sair do país com uma inédita apreensão de seu passaporte, fez as malas e fugiu com sua família, certamente com ajuda externa. Fez bem para si mesmo e para o país. Sua permanência no Brasil seria pretexto para manutenção da oposição em permanente chantagem – ou esfria ou prendemos Flávio. Sem este peso, os parlamentares estão livres para organizar a resistência à ditadura togada.
Na câmara e no senado a maioria é de oposição. Se não acontecer uma ruptura total, em fevereiro teremos eleição para as duas casas, o que significa oportunidade para que a direita assuma o comando do parlamento, estabelecendo a partir daí uma nova correlação de forças. Impeachment e nomeações para o STF estarão na pauta.
Nos meus 50 anos desde adolescência, acompanhei com interesse todo o processo político brasileiro desde o regime militar até hoje e posso assegurar que este é o período mais sensível desse meio século. O fator principal é a insegurança e o medo que dela decorre. Me refiro aqui à insegurança em relação às instituições, que de democráticas e republicanas se transformaram em autoritárias e avalistas do arbítrio.
Executivo, Judiciário, Parlamento e Imprensa desconstitucionalizaram o país e puseram os brasileiros aos pés do STF, cujas interpretações seguem um itinerário macabro de destruição de nossas bases familiares, tradicionais e religiosas. A tomada do poder – nos termos de Zé Dirceu – está se dando às nossas vistas, sem que possamos fazer nada além de ir votar de 4 em 4 anos e sem a maioria entender, corroborar o sistema. Estamos seguidamente dando aceite a resultados que contradizem a lógica. É o percurso da crise social e política até que nos conflagremos de vez.
Nos dois primeiros dias o mercado já deu resposta. Alta do dólar, queda da bolsa até o ponto do para tudo, e o governo já desfazendo as promessas numa operação do tipo “não é bem assim”. Enquanto a política vive de sobressaltos, a economia precisa de previsibilidade e estabilidade. Sem isso, investidores somem com sua grana, empresas se mudam e as consequências são conhecidas: inflação, desemprego, crise fiscal.
Escrevam aí. Os próximos anos serão muito difíceis. Há uma recessão praticamente contratada para 2027-2028. Aquilo que seria enfrentado, minimizado ou evitado com políticas responsáveis, austeras, será agravado pelas políticas populistas e promessas de campanha do time vencedor. O lulopetismo não sabe lidar com dificuldades – lembrem a Dilma. O pé do presidente nunca é retirado do acelerador dos gastos.
Resolverá os grandes problemas nacionais, a saber: pobreza, segurança, saúde, educação, saneamento, infraestrutura? Obviamente não. A receita que apresentou para qualquer dessas questões é tão fácil quanto fajuta – gastar como se não houvesse amanhã. Insustentável.
Sim, o momento é o mais crítico da história brasileira. Temos um ex-presidente preso e um candidato, seu filho, em fuga. O grande irmão do norte nos olha com cara de poucos amigos. Nos EUA, essa história de ditadura, seja militar, civil ou togada, não cai muito bem. Se for de esquerda, menos ainda. Precisaremos aguardar os acontecimentos e torcer para que as coisas por cá não cheguem aos distúrbios de rua como prometeu o presidente do PT. É o que eles querem – uma brecha para escancarar um regime de força. Quem for de Deus, se apegue a Ele.
Valterlucio Campelo
Valterlucio Bessa Campelo escreve semanalmente nos sites AC24HORAS, DIÁRIO DO ACRE, ACRENEWS e, eventualmente, no site Liberais e Conservadores do jornalista e escritor PERCIVAL PUGGINA, no VOZ DA AMAZÔNIA e em outros sites. Seu último livro, o ensaio político-filosófico “O anel progressista: como o poder tutelar se torna invisível”, está à venda pela editora independente UICLAP.
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