Sem internet no campo, Brasil perde até 20% do potencial do agronegócio

A falta de conectividade no campo ainda é um dos maiores entraves para o crescimento do agronegócio brasileiro. Segundo Carolina Vergeti, diretora-geral da tmdigital, se todos os imóveis rurais tivessem acesso pleno à internet, a atividade rural no Brasil poderia crescer, no mínimo, 20%. A executiva participou do painel “Agrotech”, durante o Summit Agro Estadão 2025, realizado nesta quinta-feira, 27, em São Paulo.

Hoje, apenas 5 mil dos 5 milhões de estabelecimentos agropecuários do país podem ser considerados digitais — ou seja, utilizam diariamente a internet e ferramentas tecnológicas para aprimorar a operação. O dado foi apresentado por Pedro Dusso, cofundador e diretor de estratégia e inovação da Aegro, durante o evento. Para ele, o maior obstáculo à digitalização é a baixa cobertura de internet nas áreas rurais.

O Indicador de Conectividade Rural (ICR), da Associação ConectarAGRO, aponta que só 33,9% das propriedades brasileiras possuem cobertura total de 4G ou 5G. Assim, sete em cada dez estabelecimentos têm conexão falha ou simplesmente não têm acesso à rede. Mesmo com essa limitação, o agronegócio representa 25% do PIB nacional — número que, segundo Dusso, poderia ser muito maior com conectividade plena.

A tecnologia aplicada ao campo também reduz custos e aumenta a produtividade. Para Anselmo Arce, cofundador da Solinftec, máquinas agrícolas conectadas podem economizar até 30% de combustível e reduzir o uso de insumos na mesma proporção. No caso dos insumos químicos, a automação pode cortar gastos em até 90%, além de favorecer o solo. “Com menor uso de químicos, há mais microrganismos no solo e, na soja, isso pode significar até dez sacas a mais por hectare”, explicou.

O interesse do produtor rural por tecnologia só cresce. José Carlos Bueno, diretor comercial da PTx South America, lembrou que, em 1998, muitos agricultores questionavam por que deveriam usar máquinas conectadas via satélite. “Hoje eles chegam perguntando quais são as tecnologias mais novas disponíveis. A demanda é forte”, afirmou. Entre as preferências do momento, ele destaca o uso de drones e sistemas de monitoramento por satélite.

Essas tecnologias permitem criar a chamada “cultura do desastre”, conceito citado por Carolina Vergeti, em que o produtor usa dados para prever e mitigar efeitos climáticos como enchentes e secas. A digitalização também impactaria diretamente o crédito rural, afirmou Arce. Com dados mais precisos e melhor avaliação de risco climático, o produtor fica mais preparado — e isso facilita a concessão de seguros e financiamentos.

Apesar dos avanços recentes, a expansão da internet no campo ainda é lenta. A cobertura 4G e 5G passou de 18,7% para 33,9% em um ano, segundo o ICR, mas especialistas defendem um programa mais amplo de educação, inclusão digital e estrutura física. Iniciativas isoladas de universidades, provedores, Senar e CNA são importantes, mas insuficientes para a transformação desejada.

Outro desafio é tornar as informações acessíveis. Métricas de sustentabilidade e dados de produção ainda são difíceis até mesmo para especialistas, segundo Talita Pinto, coordenadora do FGV Bioeconomia. A inteligência artificial surge como uma possível solução, ao facilitar o acesso a dados complexos — mas ainda enfrenta limitações de precisão. “Há muita informação errada”, alertou Dusso.

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