A infalibilidade imposta: o estigma de Medusa

Na política, desde a Grécia clássica, o poder foi historicamente construído como um atributo masculino, haja vista a divisão aristotélica entre o oikos (o ambiente privado do lar) e a polis (o espaço público da cidade), a qual estabeleceu as bases para a exclusão feminina da política ao confinar a mulher ao reino das necessidades biológicas e do cuidado doméstico. Para o Estagirita, enquanto o homem tem a prerrogativa de exercer o logos político e decidir os destinos da cidade, a mulher possui uma deliberação sem autoridade, o que a tornava, em sua visão, naturalmente inapta para o comando: “Pois o escravo não possui de todo a faculdade de deliberar; a mulher possui-a, mas sem autoridade; a criança possui-a, mas imperfeita”. Assim, o poder político foi consolidado como um atributo estritamente masculino, definindo a capacidade de transcender o corpo e as demandas da sobrevivência como uma virtude inacessível ao gênero feminino.

logos masculino parece ditar as regras do poder e determinar quem pode ocupar os espaços de decisão. No Acre, isso parece ser mais latente. Mailza Assis está sendo submetida ao que podemos chamar de exigência de hipercompetência. Enquanto ao governante homem é concedida a humanidade do erro, muitas vezes lido como contingência política, à mulher o erro é lido como prova de incapacidade biológica ou intelectual.

Os ataques que questionam a autonomia de Mailza, sugerindo que ela é apenas uma sombra de seu antecessor, configuram o que a britânica Miranda Fricker chama de Injustiça Epistêmica, pois trata-se de um déficit de credibilidade dado à governadora simplesmente por seu gênero. Esse julgamento prévio não esperou o ato administrativo; ele atacou a mera possibilidade de competência.

Ataques assim revelam o medo do devir-mulher na política, tendo em vista que as críticas não são à gestão, mas à ruptura da ordem masculina. Atacar a governadora antes mesmo de ela governar é não permitir o erro, tais ataques não buscam o aperfeiçoamento do Estado, mas a capitulação da governante.

Nessa mesma perspectiva, Hannah Arendt defendia que a política é o espaço da ação e do novo, o que significa que errar faz parte do agir humano. A busca frenética para mover a opinião pública contra Mailza tem forte teor misógino, pois retira dela a legitimidade e as prerrogativas inerentes ao cargo pelo simples fato de ser mulher. Isto é o que poderíamos chamar de violência ética e de gênero.

Enquanto governantes homens são avaliados de modo humanizado (pesando sucessos e fracassos), a governadora é lançada em um Tribunal de Exceção Moral. O ataque prévio é uma tentativa de profecia autorrealizável: ataca-se a imagem da governadora para que qualquer tropeço natural seja visto como o fim anunciado, e não como uma etapa do processo democrático.

Deste modo, os ataques à governadora Mailza Assis não são críticas técnicas, são mecanismos de interdição do poder. A defesa a governadora neste texto não é pela sua infalibilidade, mas pelo seu direito humano à falibilidade. Garantir a ela o direito de errar, aprender e corrigir, sem que isso seja usado para questionar sua dignidade e sua competência, é o verdadeiro exercício da democracia e da justiça.

*Graduado em Pedagogia e Direito, Arlenilson Cunha é deputado estadual pelo PL.

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