A nova ordem mundial e o teste do agro brasileiro

O primeiro-ministro canadense Mark Carney ganhou as manchetes da imprensa mundial ao recorrer a um velho dito popular para dar seu recado durante o Fórum Econômico de Davos, na Suíça: as pequenas e médias potências precisam se unir e que “quem não está na mesa, está no cardápio”. 

Simples e eficaz, o recado se referia ao atual cenário de erosão do sistema multilateral como o conhecemos. Com o esfacelamento do multilateralismo e de suas instituições, sobretudo ONU, OMC e Otan, estabeleceu-se um sentimento de volatilidade em relação aos valores que, desde o fim da Segunda Guerra, vinham regendo as práticas políticas, econômicas e negociais dos países. 

Não se vê ponto de retorno para a ‘velha’ ordem mundial. 

E a chegada de Donald Trump ao poder acelerou (e escancarou) esse movimento, que tem como força motriz a competição por recursos, mercados e áreas de influência pelas três superpotências da atualidade: Estados Unidos, Rússia e China. 

O chamado de Carney, como estadista, dirigiu-se aos países de economia média e pequena, mas os desafios a que ele se refere e a necessidade de se ajustar ao novo cenário aplicam-se também ao mundo corporativo. 

Nova condição

No caso brasileiro, o agronegócio é um setor que precisará de mudanças para se ajustar às novas lógicas negociais, em que o binômio preço e escala deixa de reinar como única condição para se sair bem, mesmo no mercado de commodities. 

Pilar importante da pauta de exportações brasileiras, o agronegócio nacional reúne empreendedores de diferentes realidades, com organizações extremamente profissionalizadas e sofisticadas e outras administradas sob uma ótica familiar. 

Exportadores que são, eles precisam compreender as complexidades do novo cenário mundial para identificar e implementar medidas que permitam aproveitar as oportunidades e se proteger de armadilhas, muitas vezes sutis, que podem ameaçar seus negócios.

Um vislumbre desse cenário, que une oportunidade e risco, aconteceu em janeiro, com a assinatura do acordo Mercosul-União Europeia, resultado de 26 anos de negociações e baseado na redução progressiva de tarifas e cotas de exportação com vistas à criação de uma zona de livre comércio entre os dois blocos. 

O setor agropecuário brasileiro vem sendo apontado como o maior beneficiado pela iniciativa, com a ampliação de oportunidades em diversas cadeias, de carnes a frutas, e acesso a mercados muito competitivos. Segundo o Ministério das Relações Exteriores, as oportunidades também devem impulsionar investimentos comuns e “preservar espaço para a implementação de políticas públicas em áreas como saúde, empregos, meio ambiente, inovação e agricultura familiar”.

Quando o acordo passar a valer, as empresas brasileiras do agro terão que fazer a lição de casa de provar sustentabilidade, boas práticas ambientais e agrícolas e desmatamento zero. O preço é só parte dos requisitos para conquistar a aceitação do consumidor europeu e quem não entender essa demanda pode se ver sem lugar à mesa.

Na busca pela ampliação de parcerias, o Brasil também assinou acordos com Singapura e com a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA). Somados com o acordo Mercosul-União Europeia, a previsão, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, é de aumento de R$ 67,6 bilhões no PIB e de R$ 25,3 bilhões nos investimentos, além de redução de preços em inúmeros produtos para o consumidor brasileiro. Já em relação às exportações, a projeção é de aumento na casa dos R$ 76,6 bilhões, ligeiramente maior do que o aumento previsto nas importações (R$ 72,6 bilhões).

Mas não há certezas, como mostrou a política de cotas de importação recém-adotada pela China, maior destino das exportações brasileiras de carnes e grãos, que frustrou os planos de quem imaginava que o Brasil poderia aquinhoar-se sem dificuldade do fornecimento de soja para o país asiático, em substituição aos EUA, retaliado por elevar as tarifas dos produtos chineses.

Ainda que as estratégias brasileiras estejam bem organizadas, a situação geral é delicada. Historicamente, o país sempre foi fiel credor do multilateralismo, mas a proteção aos interesses nacionais agora exige esforços para manter a trégua conquistada pelo soft power brasileiro junto à superpotência, que tem testado todos os limites éticos e jurídicos do sistema internacional, incluindo uma ação militar inédita na América do Sul e a deflagração de guerra ao Irã. 

Tensões no comércio

A nova Estratégia Nacional de Defesa dos Estados Unidos, lançada em 24 de janeiro, cita explicitamente o empenho norte-americano em garantir “de forma ativa e destemida” seus interesses e o uso da força quando contrariadas suas estratégias. São tensões que interferem grandemente nas relações de comércio, desafiando os exportadores brasileiros.

O ataque ao Irã materializa a ameaça, com consequências ainda imponderáveis. Teerã possui trunfos como governança estruturada, poder de fogo e controle do estreito de Ormuz, principal rota marítima do comércio entre Oriente Médio e Ocidente, o que pode prolongar o conflito e estender seus impactos globalmente. 

Ruim para o Brasil, que vinha fortalecendo relações comerciais com o país muçulmano desde o início da década e teve um superávit de US$ 3 bilhões decorrentes desse comércio no ano passado. No recorte do agronegócio, milho e carnes, principalmente frango, são os mais afetados, além da importação de ureia, importante insumo para fertilizantes. 

Com a escalada em curso na região, outros fornecedores de insumos também estão sendo afetados, ocasionando aumento de preços. 

Há pelo menos dez conflitos que desafiam contextos regionais e globais e a agressiva política norte-americana segue pródiga em semear hostilidades. 

Sentar-se à mesa é o grande desafio. Mas a que mesa? Qual é o preço? E que habilidades e competências serão necessárias para se manter na cadeira conquistada?

Essas são reflexões que migram dos birôs da diplomacia oficial para o ambiente de negócios, trazendo incertezas e a necessidade de prontidão para se amoldar a novas regras de governança, produção e atendimento a demandas de mercados que já não se pautam apenas pela lógica de preço e confiabilidade na entrega. 

Cada dia mais, é imperativo que se busque a melhor conexão entre os setores público e privado, viabilizando uma diplomacia ativa e respaldada em conhecimento técnico que assegure práticas de mercado e produção capazes de resistir ao escrutínio dos consumidores internacionais mais exigentes, transitando entre diferentes mercados sem perder competitividade.

 *Pablo Ibañez é professor de Geopolítica da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e coordenador pedagógico do programa GeoAgro do Centro de Aprendizagem e Cultura do Imaflora (Cacuí).

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