A verdade vai para o baú

Recentemente, em um discurso na tribuna do Senado, o senador Marcio Bittar mandou um avisou ao Lula: “Cuidado, presidente, no Acre, Jorge Viana está escondendo seu nome”. Aquilo foi uma séria cutucada em quem, sendo candidato da esquerda, renuncia à menção do apoio ostensivo do Presidente da República, autodeclarado o maior estadista da história e o homem mais honesto sobre a terra. No mínimo, estranho.

Marcio Bittar foi cauteloso. Jorge Viana não está apenas escondendo Lula. Ele esconde também a bandeira, a estrela, a cor vermelha, a linguagem e até a sigla. Seria por vergonha? Não. Isto não se coaduna com a esquerda que nunca declara vergonha de nada, nunca confessa erros. O troço tem uma profundidade que exploro sucintamente a seguir.

A figura do candidato que oculta cores, símbolos e convicções ideológicas, apresentando-se como entidade pragmática, técnica e supostamente acima das disputas partidárias, como fazem agora Jorge Viana e Thor Dantas, constitui um dos sintomas mais reveladores da condição política contemporânea. Longe de representar maturidade democrática ou superação de antagonismos arcaicos, tal postura, quando examinada pelas lentes filosóficas de Chantal Mouffe e Slavoj Žižek, revela-se como manifestação sofisticada de uma ideologia que opera precisamente por meio de sua autonegação.

Para Mouffe, o político é constitutivamente antagônico. Não há sociedade sem clivagens, sem fronteiras entre “nós” e “eles”, sem a presença irredutível do conflito. Neste sentido, a democracia madura não é aquela que elimina o antagonismo, mas a que o converte em agonismo, ou seja, uma disputa regulada entre adversários legítimos que partilham princípios democráticos básicos, mas divergem radicalmente quanto à sua interpretação e implementação.

Desse modo, o candidato asséptico, como se mostram nesta campanha os esquerdistas do Acre, encarna a ilusão de que a política poderia ser substituída por gestão técnica, por deliberação consensual ou por administração de evidências. O problema, adverte a autora, é duplo: primeiro, tal consenso é ficcional, pois sempre encobre uma hegemonia particular travestida de universalidade; segundo, e mais grave, a negação do antagonismo não o elimina, apenas o desloca. As paixões políticas reprimidas retornam, frequentemente, sob formas mais perigosas.

Quando um candidato oculta seus símbolos e suas convicções para parecer “de todos”, neste caso representado por uma “acreanidade” vendida em bule de café, ele participa ativamente da erosão do espaço agonístico democrático. Reduz o eleitor à condição de consumidor de promessas vagas, esvazia o debate público de substância programática e contribui para o ressentimento difuso que, mais tarde, poderá ser capitalizado por lideranças autoritárias.

O filósofo esloveno Slavoj Žižek diria que o candidato que esconde sua ideologia não é alguém que ignora ter posições, ele as tem, e sabe que as tem. Ele performa a “neutralidade” sabendo que essa performance é estratégica, contando com a cumplicidade de um eleitorado igualmente cínico, que finge acreditar na assepsia para evitar o desconforto de decisões substantivas.

Ainda segundo Žižek, o falso centrista asséptico apela permanentemente a um observador imaginário, ao “eleitor médio”, à “opinião pública”, como instância neutra que validaria sua postura. Žižek desmonta essa operação ao mostrar que “o grande outro” não existe como entidade objetiva, ele é uma ficção simbólica que mascara escolhas particulares. Quando o candidato desideologizado diz “estou apenas ouvindo o que o povo quer”, oculta o gesto fundador pelo qual constrói qual povo é esse e quais desejos contam como legítimos.

Embora partam de tradições distintas, ambos (Mouffe e Žižek) convergem em pontos decisivos. Primeiro, rejeitam a fantasia liberal do consenso racional. Para os dois, toda ordem social repousa sobre exclusões constitutivas que nenhuma deliberação pode dissolver. Segundo, identificam na despolitização contemporânea um perigo democrático maior que a polarização. A ausência de adversários nomeados produz inimigos imaginários muito piores.

O candidato que se faz asséptico, nem esquerda nem direita, desideologizado, não é, como quer parecer, um pacificador, ele é um despolitizador. Ao recusar nomear suas convicções, recusa também ao eleitor a possibilidade de uma escolha substantiva e empobrece o tecido democrático. A democracia exige conflito, e o conflito exige nomes, cores, símbolos e ideologias assumidas e não escondidas como fazem Jorge Viana e Thor Dantas. A neutralidade performada é, no limite, uma forma de covardia política travestida de virtude cívica, e a sociedade que a aplaude paga o preço, mais cedo ou mais tarde, na moeda do ressentimento e do autoritarismo.

Em seu discurso, o senador Marcio Bittar aponta para esse embuste político-filosófico. Esconder a própria essência, oportunisticamente, para ganhar votos de um eleitorado incauto, ávido de esperanças, chega a ser cruel. Não há aí nenhuma “acreanidade”, nem amor ao Acre, apenas mais um candidato performático que esconde a verdade.

Valterlucio Bessa Campelo escreve semanalmente nos sites AC24HORAS, DIÁRIO DO ACRE, ACRENEWS e, eventualmente, no site Liberais e Conservadores do jornalista e escritor PERCIVAL PUGGINA, no VOZ DA AMAZÔNIA e em outros sites. Seu último livro, o ensaio político-filosófico “O anel progressista: como o poder tutelar se torna invisível”, está à venda pela editora independente UICLAP

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