De tudo um pouco

Anos 80… A década do deboche e do descompromisso

A década de 80 foi um período bastante marcante para a história do século XX segundo o ponto de vista dos acontecimentos políticos e sociais. É chamada por alguns, como a década perdida para a América Latina. Em decorrência da crise financeira pela qual passava a maioria dos países latinos- americanos. Grande parte, com dívidas externas impagáveis e inflação galopante.

No Brasil, um número sem precedentes de empresas varejistas fecharam às portas. Uma década marcada na esfera econômica, por planos heterodoxos e hiperinflação. Os mais jovens certamente não sabem o que é viver com uma inflação acima de 10% ao mês. Chegando as vezes, a inacreditáveis 80% nesse mesmo período. Dados da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), mostram que a inflação média na década de 80, foi de abissais 233,5% ao ano.

Se na economia o país ia de mal a pior, no cenário musical, os anos 80 ficaram marcados pela explosão do rock nacional, ou Rock Brasil, como ficou conhecido o Rock And Roll cantado em português. A década enfrentava uma transição entre a ditadura e a democracia. Propícia, portanto, para letras contestatórias, liberais e que refletiam a realidade do país naquele momento.

É verdade que a música nunca foi careta, mas nos anos 80 ela adotou conceitos mais fora do comum. Motivada talvez, pelas novas possibilidades trazidas pelos instrumentos eletrônicos e também por influência da mistura de estilos, como o próprio Rock, o Pop, Reggae, Hip Hop etc… Uma deliciosa e crescente salada musical, até então, nunca antes vista.

A moda acompanhava as “esquisitices” e inovações, com cabelos coloridos e roupas com cores berrantes. Uma clara apologia de fuga às regras. Nascia o gênero New Wave, que ajudou a moldar a famosa “geração 80” do Brasil. Quem viveu nessa época, certamente vai lembrar que em qualquer danceteria, festa, barzinho e afins, que tocasse música, estaria tocando Tears For Fears, Cyndi Lauper, New Order, Depeche Mode, Aerosmith, A-Há, Madona, Michael Jackson, entre outros fenômenos musicais da década.

A explosão do Rock Brasil nos anos 80, deu à luz a bandas que ainda hoje fazem sucesso, como por exemplo, Titãs e os Paralamas do Sucesso e outras tantas imortalizadas, que ainda hoje tocam em rádios,  e festas. Como, os Engenheiros do Hawaii, liderado por Humberto Gessinger e a Legião Urbana de Renato Russo.

Filmes nacionais como Beth Balanço (1984), Rock Estrela (1985) e Rádio Pirata (1987), ajudaram a popularizar o Rock no país, com suas trilhas sonoras repletas de bandas e artistas de Rock e New Wave, como, Celso Blues Boy, Lobão, RPM, Azul 29, Dr. Silvana e Cia, Léo Jaime, Metrô e o Barão Vermelho, do exagerado Cazuza.  Na humilde e igualmente polêmica, opinião desse colunista, o maior poeta musical da década de 80.

As primeiras bandas que fizeram sucesso foram os paulistanos da Gang 90 e os cariocas da Blitz. Também já existiam conjuntos formados por músicos experientes, como, Rádio Taxi, Herva Doce e os cantores Eduardo Dussek e Marina Lima, que já se destacavam desde a década anterior, porém, começaram a flertar com o Rock, a partir desse período. Quem arrebatava os corações das adolescentes Brasileiras, eram os porto-riquenhos  Menudos. Uma verdadeira febre nacional! Um país inteiro rebolando sob o som do hit “Não se reprima”.

A geração dos anos 80, pode não ter crescido com a tecnologia de hoje, mas com certeza se divertiu muito com a programação da TV daquele período. Uma época em que era comum a família se reunir na sala para assistir  as telenovelas brasileiras e programas como o Clube da criança, da rainha dos baixinhos, Xuxa Meneghel, na extinta TV Manchete e posteriormente, o inesquecível Xou da Xuxa, na Rede Globo de televisão. Os Trapalhões, Clube do Bolinha, o Viva a noite, de Gugu Liberato, Balão Mágico, Perdidos na noite, na rede Bandeirantes, que lançou Fausto Silva na televisão brasileira, a TV Pirata e o Cassino do Chacrinha. Entretenimento para todos. De todas as idades.

Foi nessa mesma TV, que o país e toda a nação Rubro-Negra, assistiram o total domínio do Galinho de Quintino, Artur Antunes Coimbra, o nosso Zico, e todos os seus coadjuvantes de luxo, como, o maestro Júnior, Tita, Nunes e Lico. Levando o Flamengo a quatro títulos brasileiros, uma Libertadores e um mundial de clubes em apenas uma década.

Se no comando do Clube de Regatas do Flamengo, Zico reinou absoluto, na seleção canarinho não foi diferente. Ao lado de geniais coadjuvantes como, Dr. Sócrates, Falcão, Éder, Cerezo, Careca etc… O Galinho dava o tom. A diferença se deu nas conquistas. Ou melhor, na falta delas. Aquela que seria, talvez, ao lado da seleção tri campeã de 1970, a melhor de todos os tempos, viu um país inteiro chorar a sua eliminação para a Itália de Paolo Rossi, autor dos 3 gols na vitória italiana de 3 a 2 sobre o Brasil. Hoje, o atacante Italiano certamente pediria música no Fantástico.

Em 1986, ainda sob a regência do Galo de Quintino, dessa vez travando árdua batalha contra uma contusão no joelho esquerdo, assistimos mais uma vez, o sonho do tetra campeonato nos escapando entre os dedos, em uma disputa de pênaltis contra a França de Michel Platini. O destino não quis que essa geração genial fosse campeã do mundo. Azar o dele!

Sinto uma gostosa e profunda saudade desse tempo. Do descompromisso político e cultural de uma geração, onde a principal regra era a transgressão as regras.  Ultrapassar limites e debochar de tudo e todos. Seja através da música, gírias, cortes de cabelos e modo de vestir. Uma geração descompromissada e debochada. E por isso mesmo, fantástica.

Beijo para quem for de beijo, abraço para quem for de abraço. Até a próxima!