Mão amiga

Após 23 anos dedicados a tratar dependência química, Apadeq segue sem apoio do Poder Público

Já são 23 dedicados a cuidar de pessoas estigmatizadas pela sociedade, os chamados dependentes químicos. Atualmente, a Associação dos Parentes e Amigos dos Dependentes Químicos (Apadeq) tem 27 homens internados no centro de recuperação masculino Enock Balbino da Costa, localizado na Estrada Apolônio Sales. O centro de recuperação feminino, Maria Conceição Balica, está em processo de mudança – da Vila da Amizade para o km 4 da Estrada de Porto Acre, onde passará a funcionar em um terreno cedido pela prefeitura de Rio Branco.

A Apadeq fornece atendimento que se tornou referência quando o assunto é o tratamento da dependência química. Psicólogos, terapeutas ocupacionais, atividades de esporte, lazer e uma rígida disciplina norteiam o tratamento dos internos.

Antônio Balica com os fundadores da Apadeq Donald Fernandes e Hélia Castelo/Diário do Acre

Presidente da instituição, Antônio Balica contou ao site Diário do Acre que a maior dificuldade encontrada pela entidade filantrópica é conseguir fornecer alimentação aos muitos internos. “Ainda estamos funcionando pela graça de Deus”, lamentou ele.

Além dos centros de recuperação masculino e feminino, a instituição possui ainda um ambulatório, na Rua Floriano Peixoto. Ali são atendidas, todos os dias, aproximadamente, dez pessoas, em sua maioria dependentes químicos e familiares em busca de ajuda.  Também funcionam ali, diariamente, as reuniões de grupo, nas quais  os ‘pacientes’ em recuperação e seus familiares se juntam numa de ajuda mútua, conforme explicou Antônio Balica .

A instituição sobrevive hoje exclusivamente de doações. Não tem ajuda do governo do estado e nem da prefeitura de Rio Branco, embora preste importante serviço à sociedade. Como exemplo podemos citar o resgate de pessoas que antes viviam à margem da sociedade, alguns literalmente na sarjeta, vítimas das drogas.

São nove meses de tratamento, dos quais seis deles em regime de internato e outros três dedicados à ressocialização.

Difícil regresso

Sair da situação de dependência química não é nada fácil.  A cada dez pessoas que se internam nos centros da Apadeq para o tratamento, apenas três ou quatro, no máximo, chegam a concluí-lo.

Centro masculino Enock Balbino da Costa/Diário do Acre

“É com muita luta, suor e dedicação que chegamos até aqui. Se nesses 23 anos tivéssemos salvado uma única vida desse terrível mundo das drogas, já teria valido a pena. E temos a consciência de que já salvamos muitas. Isso é emocionante. Amo o que faço”, assegura Balica.

Uma ideia na cabeça, muito esforço e ajuda de amigos   

A Apadeq nasceu nos idos de 1996, a partir da iniciativa e muito esforço do seu idealizador e presidente de honra, o médico e ex-vereador da capital e deputado estadual Donald Fernandes.

Com o apoio de um grupo de amigos, em especial o da esposa Ana Lucia, a ideia foi, aos poucos, se tornando realidade. Ana abdicou da tranquilidade de uma vida ao lado do marido e dos filhos para, em seis meses, na Cidade de Lucca, na Itália, conhecer e se aprofundar na metodologia de tratamento da dependência química.

Lá, ela teve ainda que adequar os conhecimentos recém-adquiridos à realidade brasileira.

“Não é fácil para uma mãe deixar seus filhos e ir para tão longe aprender a cuidar dos filhos dos outros. Mas hoje, quando olho o legado que ficou, vejo emocionada que tudo valeu a pena”, disse Ana Lucia à reportagem.

A Apadeq, desde então, nunca mais parou de atender pessoas que precisam de ajuda para se livrar do vício das drogas – sejam as lícitas ou as ilícitas.

“Foi tudo muito difícil lá atrás, e continua sendo até hoje. O Poder Público muito pouco ou quase nada nos ajuda, e a sociedade, que é a maior responsável por esses doentes sociais, lhes vira as costas quando eles mais precisam de ajuda”, afirmou Donald Fernandes.

Balica, presidente da Apadeq/Diário do Acre

A instituição conta atualmente com uma parceria com o Seac (Sindicato das Empresas Terceirizadas do Acre). Na medida do possível, a entidade tenta dar oportunidade de trabalho aos pacientes que conseguem concluir o tratamento.

“A ociosidade é uma porta aberta à recaída”, ensina o presidente da Apadeq. Segundo ele, a prefeitura de Rio Branco sinalizou com a possibilidade de ajudar fornecendo alimentação ao centro feminino.

“Uma apoio que nos será muito importante”, concluiu Antônio Balica.