O mercado do boi gordo entrou em fevereiro com um movimento de valorização acima do esperado e reacendeu uma das principais dúvidas do pecuarista brasileiro: a alta veio para ficar ou o pós-Carnaval pode trazer acomodação nos preços? A resposta, segundo analistas, depende diretamente do equilíbrio entre oferta restrita, demanda externa robusta e comportamento do consumo doméstico.
De acordo com levantamento recente, o mercado físico registrou aumento de preços ao longo da semana, encerrando a primeira quinzena de fevereiro em patamares superiores aos projetados inicialmente.
Esse avanço ocorre em um ambiente de negócios marcado por dificuldade das indústrias em preencher escalas de abate — um sinal clássico de menor disponibilidade de animais prontos para o gancho.
Oferta curta sustenta reação dos preços do boi gordo
A tendência de curto prazo ainda aponta para firmeza nas cotações. Analistas destacam que a restrição de oferta tem dificultado a composição das escalas, favorecendo novas altas no curtíssimo prazo.
Além disso, o próprio feriado pode atuar como catalisador do mercado.
Especialistas indicam que o Carnaval tende a reduzir a fluidez dos negócios, aumentando o apetite de compra na retomada das negociações, enquanto as exportações seguem como principal variável de demanda neste início de ano.
Esse cenário reforça a percepção de que o pecuarista está em posição mais confortável para negociar — ao menos por enquanto.
Referência de R$ 350 pode guiar o pós-Carnaval
Negócios pontuais já indicam um novo patamar de preços no mercado do boi gordo. Foi reportada negociação a R$ 350 por arroba, nível que pode servir como referência para o mercado após o Carnaval.
Outro fator relevante é o desempenho da demanda interna. Caso o consumo durante o feriado seja positivo, compradores que abastecem o mercado doméstico podem acelerar aquisições na segunda quinzena, somando-se a uma procura externa ainda aquecida.
O clima também entra nessa equação. Chuvas satisfatórias desde dezembro de 2025 e temperaturas médias mais baixas do que no ano anterior têm favorecido o vendedor de boiadas, reduzindo a pressão por oferta imediata.
Preços do boi gordo nas principais praças já mostram reação
Os valores médios da arroba na modalidade a prazo registraram avanço consistente:
- São Paulo: R$ 350, ante R$ 340 (+3%)
- Goiás: R$ 330, contra R$ 320 (+3,1%)
- Minas Gerais: R$ 335, frente a R$ 320 (+4,7%)
- Mato Grosso do Sul: R$ 335, ante R$ 320 (+4,7%)
- Mato Grosso: R$ 325, contra R$ 315 (+3,2%)
A leitura predominante é que o mercado já entrou em uma nova faixa de preços — ainda que a consolidação dependa dos próximos movimentos da demanda.
Exportações seguem como motor da pecuária brasileira
O suporte externo ajuda a explicar o otimismo do setor. Somente nos primeiros dias úteis de fevereiro, as exportações de carne bovina renderam US$ 384,055 milhões, com média diária de US$ 76,811 milhões, enquanto o volume embarcado chegou a 68,344 mil toneladas.
Na comparação anual, houve:
- Alta de 63,7% no valor médio diário
- Avanço de 43,6% no volume exportado
- Elevação de 14% no preço médio da tonelada
O ritmo forte já vinha desde janeiro, quando os embarques da cadeia bovina somaram US$ 1,416 bilhão — crescimento de 37,9% frente ao mesmo mês de 2025 — com volume de 278 mil toneladas (+16,4%).
A China permanece como principal destino, respondendo por 43,1% do volume exportado e 45,9% das receitas, embora exista uma quota anual de 1,1 milhão de toneladas; volumes acima desse limite podem enfrentar tarifa adicional de 55%.
Já os Estados Unidos ampliaram significativamente as compras, com crescimento de 92,7% na receita das importações de carne in natura.
Nem tudo é alta: carne perde competitividade no atacado
Apesar do cenário favorável ao boi gordo, há sinais de alerta.
Os preços da carne no atacado ficaram acomodados e ainda enfrentam concorrência forte de outras proteínas, que seguem pressionadas neste início de ano.
Se essa perda de competitividade se intensificar, frigoríficos podem adotar postura mais cautelosa nas compras — fator que tradicionalmente limita movimentos de alta prolongados.
Arroba: O mercado pode esfriar?
No curto prazo, o viés ainda é positivo, mas não livre de riscos.
Três fatores devem definir o rumo da arroba após o Carnaval:
- Intensidade do consumo doméstico
- Continuidade das exportações em ritmo elevado
- Nível de oferta de animais terminados
Se a demanda confirmar as expectativas, o mercado pode testar novas máximas. Porém, qualquer sinal de enfraquecimento no consumo ou pressão das proteínas concorrentes tende a provocar ajustes.
Leitura estratégica para o pecuarista
O atual momento mostra um mercado mais equilibrado do que em ciclos recentes, com pecuaristas menos pressionados e frigoríficos disputando oferta — um cenário que historicamente favorece preços firmes. Ainda assim, especialistas recomendam atenção redobrada: movimentos rápidos de valorização costumam ser seguidos por períodos de acomodação.
Em outras palavras: o pós-Carnaval pode trazer continuidade da alta — mas o mercado segue dependente da demanda para transformar essa reação em tendência duradoura.



