O boi gordo iniciou a semana girando em torno de R$ 322/@ em praças estratégicas, refletindo um cenário de preços sustentados pela oferta travada nas fazendas, ao mesmo tempo em que o mercado doméstico dá sinais de consumo mais fraco na segunda metade de janeiro. O resultado é um ambiente típico de “queda de braço”: de um lado, frigoríficos pressionando por recuos; do outro, pecuaristas resistindo e segurando boiadas.
Na prática, a grande pergunta do pecuarista nesta virada de semana não é apenas “quanto está a arroba”, mas sim: vale aproveitar o momento e vender agora ou esperar uma melhora mais à frente? A resposta, como quase sempre no boi, depende do perfil do lote, da condição de pasto, da urgência de caixa e principalmente do apetite dos frigoríficos pela compra (e pelo mercado externo).
Por que o boi gordo abriu a semana nesse patamar?
O preço na casa de R$ 322/@ aparece como referência em São Paulo para o chamado “boi-China”, enquanto o boi “comum” (sem padrão exportação) opera abaixo disso.
Segundo a Scot Consultoria, em São Paulo, as cotações brutas e a prazo foram registradas assim:
- Boi gordo (comum): R$ 318/@
- Boi-China: R$ 322/@
- Vaca: R$ 302/@
- Novilha: R$ 312/@
Ou seja: o patamar de R$ 322/@ não é um “preço médio do Brasil”, mas sim um valor atrelado a lotes com padrão exportação, que naturalmente puxam a régua para cima em praças mais demandadas.
O que está segurando os preços (e travando os negócios)?
Mesmo com frigoríficos tentando impor compras em níveis menores, a semana anterior terminou com um elemento central: o pecuarista não está com pressa para negociar.
De acordo com Fernando Henrique Iglesias (Safras & Mercado), o mercado físico fechou a semana com predominante acomodação, justamente porque os frigoríficos encontram dificuldade em forçar preços menores, já que há resistência na venda.
E existe um fator direto por trás dessa postura no campo: boa condição das pastagens, o que permite ao produtor segurar mais tempo a boiada e escolher melhor o momento de comercialização.
A própria Agrifatto reforça esse ponto ao indicar que as condições atuais de pasto favorecem a retenção e, por isso, a pressão de baixa não tem surtido o efeito desejado — pelo menos por enquanto.
✅ Em resumo: sem necessidade urgente de giro, o produtor “puxa o freio” — e o frigorífico não consegue fazer o preço cair no grito.
A exportação segue sendo o “colchão” que sustenta a arroba
Um dos pilares que dá suporte ao boi gordo neste início de ano é o desempenho do mercado externo, que continua ajudando a manter a demanda firme. Iglesias destaca que a exportação permanece aquecida, com atenção especial para o mercado norte-americano.
O ponto de alerta, porém, é que a cota do Brasil já foi preenchida: 52 mil toneladas. Mesmo assim, a avaliação no material é que a demanda dos EUA pode continuar aquecida em um ano em que a produção segue abaixo do necessário para consumo.
📌 Na prática, isso reforça um recado importante: quando a exportação está firme, o frigorífico não “abandona” a compra com facilidade, porque precisa cumprir escala e atender contratos.
Mas o mercado interno pode virar o vento contra o pecuarista
Se o campo está segurando oferta e a exportação ajuda a dar sustentação, o consumo doméstico entra como fator de atenção — principalmente na virada da quinzena.
Analistas ouvidos pelo Compre Rural apontam que, na segunda quinzena do mês, com demanda menos aquecida, os preços tendem a recuar, com o consumidor priorizando proteínas mais acessíveis — movimento considerado um padrão do início do ano.
Já a análise da consultorias – Agrifatto e Scot Consultorias – é ainda mais direta: há perspectiva clara de retração nas vendas de carne bovina na segunda metade de janeiro, influenciada por gastos típicos do início de ano e pelo esgotamento do salário. Isso pode gerar mais dificuldade para o pecuarista sustentar os preços no curtíssimo prazo.
✅ Ou seja: o risco de pressão negativa existe — não porque “sobrou boi”, mas porque a carne pode girar mais devagar no varejo.
Atacado estável e concorrentes mais baratos: mais um sinal de cautela
No atacado, o Safras&Mercados também registrou acomodação, e chamou atenção para um ponto-chave na formação do consumo:
- Quando o orçamento aperta, o consumidor tende a migrar para proteínas mais baratas.
- Na primeira quinzena, as proteínas concorrentes tiveram queda forte, aumentando a disputa por espaço no prato.
Entre os preços do atacado informados:
- Quarto traseiro: R$ 26,40/kg
- Quarto dianteiro: R$ 19,00/kg
- Ponta de agulha: R$ 17,50/kg
Esses valores ajudam a entender por que o frigorífico fica mais “duro” na compra quando percebe que o giro da carne no mercado interno desacelera.
E o boi futuro? O mercado financeiro já dá sinais de cautela
Além do físico, o mercado futuro também contribui para o sentimento de curto prazo. A Agrifatto aponta que, na B3, o contrato de janeiro/26 fechou em R$ 317,50/@, com leve queda de 0,11%.
📌 Isso não significa “virada de ciclo”, mas mostra que o mercado também enxerga limites para altas imediatas, principalmente nesse período de segunda quinzena.
Vender ou esperar? O que o pecuarista precisa observar agora
A pergunta que move a semana é direta: vender neste patamar ou segurar mais? A resposta deve ser estratégica — e não emocional.
✅ Quando vender tende a ser a melhor decisão
Pode fazer sentido negociar agora se você estiver em uma destas situações:
- Boi já no ponto e começando a passar (acabamento excessivo pode virar desconto)
- Necessidade de caixa (contas de início de ano pesam mesmo)
- Custo diário alto (suplementação, confinamento, semi-confinamento)
- Frete e logística favoráveis no momento
- O frigorífico está oferecendo R$ 322/@ no boi-China e a diferença compensa
📌 Aqui vale o alerta mais clássico do mercado: boi bom e pronto não deve virar “aposta” demais, porque o custo de segurar pode comer a possível melhora.
✅ Quando esperar pode ser a melhor escolha
Por outro lado, pode ser estratégico aguardar se:
- Você tem pasto bom e boi bem mantido
- Não há urgência financeira imediata
- O frigorífico está com escala curta e precisa comprar
- Seu lote tem padrão exportação e pode “disputar” preço com mais força
Como o próprio mercado aponta, os produtores estão segurando os animais e limitando a queda das cotações. Nesse cenário, esperar pode ser vantajoso — desde que seja uma espera com cálculo, e não apenas esperança.
O cenário mais provável para os próximos dias
O mercado do boi gordo, hoje, está desenhando um caminho bem típico para janeiro:
- Preço firme em praças fortes, principalmente com boi-China valorizado
- Negócios lentos, porque o pecuarista resiste
- Frigorífico testando recuos, mas com dificuldade de “enquadrar” o campo
- Risco de pressão caso o consumo interno “desarme” na segunda quinzena
A leitura final é simples: o boi está sustentado, mas não está livre de correções no curtíssimo prazo. Quem tem boi padrão e não precisa vender, pode tentar esticar. Quem está com boi no limite ou custo alto, tende a aproveitar o mercado firme.



