O mercado do boi gordo continua atravessando um momento de forte disputa entre pecuaristas e frigoríficos em diversas regiões do Brasil. Enquanto as indústrias mantêm escalas de abate confortáveis e pressionam os preços da arroba, produtores tentam segurar as negociações diante da expectativa de melhora no cenário externo, principalmente envolvendo a China, maior compradora da carne bovina brasileira.
Nos últimos dias, consultorias e centros de pesquisa apontaram um ambiente de baixa liquidez no mercado físico, com negócios acontecendo de forma lenta e seletiva. A combinação entre pastagens perdendo qualidade, aumento da oferta de animais terminados e consumo doméstico enfraquecido tem pesado sobre as cotações da arroba em boa parte do país.
Segundo pesquisadores do Cepea/Esalq, o ritmo de negócios envolvendo o boi gordo está lento na maioria das praças pecuárias acompanhadas. O levantamento destaca que muitos frigoríficos já preencheram suas escalas de abate, atualmente posicionadas entre 8 e 15 dias, reduzindo a urgência por novas compras de animais terminados.
Além disso, a chegada do clima mais seco e frio em várias regiões produtoras vem afetando as condições das pastagens desde o fim de abril, elevando a oferta de bovinos prontos para abate em algumas praças pecuárias. Esse movimento amplia o poder de barganha da indústria frigorífica no curto prazo.
Em São Paulo, principal referência nacional para a arroba, o indicador do boi gordo operava próximo de R$ 340/@ no início da semana, acumulando queda de 2,72% na parcial de maio até o dia 19.
A Agrifatto reforça que a pressão baixista permanece ativa nas últimas semanas, impulsionada pela maior disponibilidade de animais terminados e pelo enfraquecimento do consumo doméstico de carne bovina na segunda quinzena do mês.
De acordo com a consultoria, das 17 praças monitoradas diariamente, cinco apresentaram recuos nas cotações da arroba: Acre, Goiás, Maranhão, Minas Gerais e Tocantins. Enquanto isso, Rondônia foi uma das poucas regiões a registrar valorização do boi gordo.
No interior paulista, o boi gordo comum foi negociado em torno de R$ 345/@, enquanto o chamado “boi-China” alcançou aproximadamente R$ 355/@. Já a Scot Consultoria apontou o “animal-China” em cerca de R$ 350/@, mantendo diferença em relação ao gado destinado ao mercado doméstico.
A Scot destaca que a oferta atual de boiadas segue suficiente para atender à demanda vigente da indústria, enquanto as vendas de carne no mercado interno permanecem fracas. Isso mantém o mercado pressionado e dificulta uma recuperação mais consistente das cotações no curto prazo.
Apesar disso, o segmento de animais jovens ainda encontra sustentação nas exportações, especialmente nos embarques destinados à China. Segundo analistas, a demanda externa continua sendo um dos principais pilares de sustentação do setor pecuário brasileiro neste momento.
Outro ponto que chama atenção é a diferença entre o comportamento do mercado físico e o mercado futuro do boi gordo. Enquanto o físico segue pressionado, os contratos futuros continuam demonstrando recuperação, sustentados por rumores envolvendo uma possível flexibilização das salvaguardas chinesas sobre importações de carne bovina.
A expectativa do setor exportador é que o Brasil consiga acessar parte das cotas de importação não utilizadas por outros países, especialmente os Estados Unidos, que até agora embarcaram volume considerado baixo dentro da cota chinesa de 164 mil toneladas.
Durante a SIAL Shanghai, uma das maiores feiras globais de alimentos, o tema dominou as discussões entre exportadores, importadores e autoridades do setor. Segundo a Agrifatto, existe hoje uma grande divergência sobre a data limite considerada segura para embarques brasileiros rumo à China.
Parte dos exportadores acredita que cargas embarcadas até o fim de junho ainda possam entrar dentro da tarifa reduzida chinesa. Já compradores mais conservadores têm evitado operações com embarques posteriores à metade de junho, receosos de riscos regulatórios e possíveis sobretaxas.
No atacado brasileiro, o comportamento também segue cauteloso. Segundo a Safras & Mercado, os preços da carne bovina apresentaram novas quedas ao longo da semana, reflexo do consumo mais fraco típico da segunda metade do mês.
O analista Fernando Henrique Iglesias destaca ainda que a carne bovina continua enfrentando forte concorrência das proteínas mais acessíveis ao consumidor, especialmente a carne de frango, fator que limita uma reação mais intensa dos preços no varejo.
Mesmo diante da pressão atual, parte do mercado segue apostando em uma possível retomada da arroba nos próximos meses, especialmente se houver avanço nas negociações comerciais com a China e melhora da demanda internacional pela carne bovina brasileira. Enquanto isso, o setor segue acompanhando de perto os próximos movimentos da indústria frigorífica, das exportações e das condições climáticas sobre as pastagens brasileiras.



