O mercado do boi gordo abriu 2026 em um cenário de estabilidade nos preços, ritmo lento de negócios e sensação generalizada de que os valores estão “peados” — nem caem com força, nem conseguem reagir de forma consistente. O início do ano, tradicionalmente mais fraco em termos de consumo interno, coincidiu com um fator novo e relevante no radar do setor: a decisão da China de impor cotas às importações de carne bovina, limitando o espaço para o principal produto de exportação da pecuária brasileira.
Mesmo diante desse contexto mais cauteloso, analistas e centros de pesquisa alertam que o mercado não deve ser analisado apenas pelo curto prazo. Oferta limitada de animais, consumo ainda firme e fundamentos estruturais positivos continuam dando sustentação ao boi em 2026 — ainda que o caminho seja mais desafiador e exija maior gestão do produtor.
Preços estáveis e mercado do boi gordo travado no início do ano
O mercado físico do boi gordo começou janeiro com baixo volume de negociações e manutenção das referências de preços na maior parte das praças pecuárias. A combinação de feriados, ausência de frigoríficos nas compras e cautela dos pecuaristas travou o fluxo de negócios .
No atacado, o comportamento também é de acomodação, reflexo de um primeiro trimestre tradicionalmente mais pressionado pelo orçamento das famílias, que priorizam despesas como impostos e material escolar. Nesse cenário, proteínas mais baratas tendem a ganhar espaço, limitando avanços imediatos no consumo de carne bovina .
Oferta de animais segue como ponto-chave de sustentação
Apesar da sensação de mercado “amarrado”, o lado da oferta segue sendo um fator decisivo para impedir quedas mais fortes. Pesquisadores do Cepea apontam que a disponibilidade de bois para abate continua restrita, especialmente quando se observa a dificuldade na reposição de animais jovens e de qualidade adequada .
A escassez de boi magro, aliada a custos elevados e desafios de eficiência produtiva, limita uma expansão mais agressiva da produção. Mesmo com confinamentos cheios, a entrada de animais leves ou sem genética adequada compromete o ganho de peso e aperta as margens, o que tende a segurar a oferta de boi gordo ao longo do ano .
China impõe cotas e muda o jogo das exportações
O principal fator de preocupação para 2026 vem do mercado externo. No dia 31 de dezembro, a China anunciou a adoção de cotas para importação de carne bovina, estabelecendo para o Brasil um limite de 1,106 milhão de toneladas dentro da cota, com tarifa de 12%. Volumes que excederem esse teto passam a pagar sobretaxa de 55%, elevando a tarifa total para até 67% fora da cota .
O ponto crítico é que o volume autorizado em 2026 é inferior ao exportado pelo Brasil em 2025, quando os embarques ao mercado chinês se aproximaram de 1,7 milhão de toneladas. Na prática, isso significa menor espaço para crescimento das exportações e necessidade de redirecionamento de parte da produção ao mercado interno ou a outros destinos .
Impactos esperados: mais carne no mercado interno
Com a limitação chinesa, analistas da Safras & Mercado revisaram as projeções para 2026. A estimativa é de queda nas exportações brasileiras, que devem somar cerca de 4,577 milhões de toneladas, recuo de 8,6% frente a 2025. Ao mesmo tempo, a oferta interna tende a crescer levemente, aumentando a disponibilidade de carne no mercado doméstico .
Esse movimento pode gerar pressão adicional sobre os preços do boi gordo, especialmente em momentos de consumo interno mais fraco. Ainda assim, o efeito não deve ser imediato nem uniforme, já que a oferta de animais prontos segue limitada e o mercado internacional continua enfrentando dificuldades de recomposição de rebanhos.
Demanda segue firme, apesar dos riscos
Do lado da demanda, o cenário é mais construtivo. O Cepea destaca que o consumo interno tende a ser beneficiado por maior circulação de renda, impulsionada por fatores como eleições gerais e Copa do Mundo em 2026. Mesmo com o endividamento das famílias ainda pesando, outros fundamentos macroeconômicos ajudam a sustentar o consumo de carne bovina .
No mercado internacional, apesar das cotas chinesas, a carne brasileira segue competitiva, especialmente com o dólar acima de R$ 5 e a oferta global restrita. Grandes produtores enfrentam dificuldades para recompor seus rebanhos, o que limita a concorrência e mantém o Brasil como ator central no comércio mundial de carne bovina.
O que esperar do boi gordo em 2026?
O ano começa com preços “peados”, mas o mercado está longe de um cenário de colapso. A combinação de oferta restrita, desafios produtivos e demanda ainda firme tende a funcionar como um piso para as cotações. Por outro lado, as cotas da China exigem cautela, maior planejamento comercial e atenção redobrada às margens.
Para o pecuarista, 2026 será um ano de gestão fina, leitura constante do mercado e decisões estratégicas bem calibradas. O boi pode até não disparar no curto prazo, mas também não encontra espaço para quedas expressivas — desde que os fundamentos sigam como estão hoje.



