Boi gordo segue valorizando acima da referência, mas mercado continua travado; veja o cenário

O mercado físico do boi gordo segue sustentado acima das referências em algumas negociações, mas o cenário geral ainda é de pouco volume, com frigoríficos cautelosos e pecuaristas segurando animais no pasto. O resultado é um ambiente que mistura valorização localizada com um mercado “amarrado”, onde não há grandes movimentos de alta generalizada — e cada negociação depende muito da região, do perfil do frigorífico e do tipo de boi ofertado.

De acordo com a Agrifatto, o setor entrou em um momento de maior conservadorismo por parte das indústrias, diante da retração nas vendas de carne bovina no mercado interno e de um menor ritmo nas exportações na terceira semana de janeiro, quando comparado à semana anterior. Isso fez com que os frigoríficos reduzissem o ritmo de compras e evitassem “fechar a qualquer custo”, travando parte das negociações.

Ao mesmo tempo, dentro da porteira, o produtor tem mostrado resistência. Com boas condições de pastagens naturais, muitos pecuaristas seguem optando por reter os animais, o que mantém a oferta enxuta e impede recuos mais fortes nas cotações, mesmo com a indústria tentando operar de forma seletiva.

Mercado do boi gordo travado: pouca oferta e poucos negócios

O ponto central do momento é a baixa liquidez. A Agrifatto define o cenário como um mercado de negociações pontuais, com preços estáveis na maior parte das praças e ajustes que acontecem “no detalhe”, sem impacto relevante na média nacional.

Em outras palavras: o boi pode até “estar valorizando” em algumas vendas acima da referência, mas isso não significa que o Brasil inteiro virou alta — significa que o mercado está desuniforme, com:

  • indústria comprando devagar, para alongar o máximo possível a margem;
  • pecuarista segurando oferta, para não ceder em preço;
  • volume curto de negócios, deixando o mercado “mais de ouvido do que de lote”.

Escalas curtas sustentam preços, mas não destravam o mercado

Um dos sinais importantes apontados pela Agrifatto é que as escalas de abate seguem curtas, com média de oito dias no cenário nacional.

Esse detalhe pesa diretamente no jogo de forças: escalas enxutas normalmente dão sustentação aos preços, porque o frigorífico não consegue ficar muitos dias fora das compras sem correr risco de parar planta ou perder programação.

Porém, o que impede uma alta mais uniforme é justamente a postura conservadora da indústria, que tenta comprar apenas o necessário, sem “esticar” o preço.

Ajustes localizados: RS sobe, mas BA, PR e RO recuam

A fotografia do mercado confirma que a movimentação tem sido limitada e regional. Segundo a Agrifatto, entre 17 praças monitoradas diariamente, apenas uma registrou valorização da arroba: Rio Grande do Sul. Por outro lado, Bahia, Paraná e Rondônia tiveram ajustes negativos, enquanto as demais regiões ficaram estáveis.

Ou seja: o mercado até tem espaço para negócios acima da referência, mas não está “andando em bloco”.

São Paulo segue referência e acumula muitos dias de estabilidade

Na leitura da Scot Consultoria, a praça paulista segue em um período de “calmaria” nos preços, com vários dias consecutivos sem mudanças, dependendo da categoria.

Segundo a Scot, já são:

  • 9 dias de estabilidade para o boi gordo sem padrão exportação
  • 13 dias para o boi China
  • 44 dias para a vaca gorda
  • 20 dias para a novilha terminada

Na prática, isso reforça a tese de um mercado equilibrado pela cautela, e não por um “boom” real de demanda.

Preços em São Paulo: boi gordo a R$ 318/@ e boi-China a R$ 322/@

Ainda segundo a Scot, os valores apurados na praça paulista são:

  • Boi gordo: R$ 318/@
  • Vaca gorda: R$ 302/@
  • Novilha: R$ 312/@
  • Boi-China: R$ 322/@
    (preços no prazo e valores brutos)

Esses patamares mostram que, mesmo com mercado travado, o boi segue firme — e com “gordura” suficiente para segurar o preço quando a oferta fica curta.

Safras destaca alta em Mato Grosso e possibilidade de mais valorização no curtíssimo prazo

Já a análise de Safras & Mercado, publicada pelo Canal Rural, confirma que o mercado físico voltou a apresentar alguma alta no decorrer da semana, com destaque para Mato Grosso, onde as negociações retomaram patamar acima de R$ 300/@ a prazo.

O consultor Fernando Henrique Iglesias aponta que o ambiente ainda permite alguma alta no curtíssimo prazo, considerando o posicionamento das escalas, principalmente em frigoríficos de menor porte.

Esse ponto é essencial: quando as plantas menores apertam as compras para completar escala, muitas vezes elas acabam “puxando” a referência local — mesmo que as grandes indústrias sigam mais travadas.

Média da arroba pelo país: São Paulo lidera e MT reage

No levantamento do Canal Rural/Safras, a média da arroba ficou em:

  • São Paulo: R$ 322,58 (dia anterior: R$ 321,67)
  • Goiás: R$ 308,39 (dia anterior: R$ 310,00)
  • Minas Gerais: R$ 308,53 (dia anterior: R$ 309,41)
  • Mato Grosso do Sul: R$ 307,95 (dia anterior: R$ 307,61)
  • Mato Grosso: R$ 299,15 (dia anterior: R$ 295,68)

O dado que mais chama atenção é Mato Grosso, mostrando recuperação relevante em relação ao dia anterior, reforçando o movimento de retomada.

Goiás vira exceção e indústria tenta pressionar

Ainda segundo Iglesias, Goiás aparece como exceção, com as indústrias tentando exercer pressão para limitar a valorização.

Esse comportamento costuma acontecer quando:

  • a indústria consegue formar escala com mais facilidade,
  • há maior disponibilidade de boi em determinados perfis,
  • ou quando as plantas entendem que o varejo/atacado não permite repasse imediato.

Atacado acomodado e risco de menor apelo a altas na segunda quinzena

No atacado, o Canal Rural aponta acomodação nos preços nesta quarta-feira (21). E alerta: a expectativa para a segunda quinzena do mês é de menor apelo a altas, com potencial de recuo no curtíssimo prazo.

O motivo passa pela concorrência com outras proteínas: a consultoria cita a maior competitividade das proteínas concorrentes, que registraram queda no início do ano, como um fator que pode limitar o avanço da carne bovina.

Preços no atacado: traseiro a R$ 26,50/kg

Entre os valores citados no atacado, seguem:

  • Quarto traseiro: R$ 26,50/kg
  • Quarto dianteiro: R$ 19,00/kg
  • Ponta de agulha: R$ 17,50/kg

Esse retrato do atacado ajuda a explicar por que a indústria evita “correria” nas compras: sem melhora clara no escoamento, o frigorífico tende a operar sem agressividade.

O que esperar agora do boi gordo?

O mercado entra em um momento em que os preços seguem firmes, mas a fluidez continua baixa. A tendência é que:

  • negócios acima da referência continuem acontecendo, principalmente em regiões com oferta curta;
  • a indústria siga comprando com seletividade;
  • e o mercado continue “no detalhe”, com movimentações regionais.

No fim das contas, o boi segue valorizado em algumas praças — mas, no geral, o Brasil ainda vive um mercado travado, onde a sustentação vem mais da oferta restrita e das escalas curtas do que de uma explosão de demanda.

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