DE TUDO UM POUCO

Cazuza: o poeta de uma década inteira

Agenor Miranda de Araújo Neto, ou tão somente Cazuza. Simplesmente mágico. Absurdamente genial! Artista oriundo de uma geração que não teve a ditatura militar como fonte de inspiração, Cazuza agregou ao rock brasileiro um toque de poesia e deboche, de dor de cotovelo, em uma voz rasgadamente gritada. Deu pitadas de magia e poesia ao rock, até então olhado com nariz torcido pela geração que crescera ouvindo as letras magistrais da turma de poetas da MPB.

Tendo como referências artistas que iam de Jim Morrison a Cartola, de Hendrix a Maysa, fã de Lupicínio Rodrigues, Cazuza fez da mistura de gêneros a sua marca. Suas letras levaram a dor do amor ao Rock brasileiro e a rebeldia juvenil à MPB. Mudou conceitos, marcou uma geração. Faz parte da trilha sonora da vida de muitos brasileiros. Suas poesias passeavam despretensiosamente entre o popular, o underground e a nata erudita da língua portuguesa.

O carioca da Zona Sul do Rio de Janeiro, de pele bronzeada e vastos cachos, desde cedo soube que a vida de executivo que o pai João Araújo levava não era para ele. Tentou ser ajudante de escritório, sonhou ser geógrafo, se apaixonou por fotografia… “O tempo não para e a gente ainda passa correndo”, dizia. E para ele parecia que o tempo era ainda mais veloz: fazia tudo com a maior intensidade possível, inclusive viver. A frase do contemporâneo Lobão que diz ser “melhor viver dez anos a mil do que mil anos a dez” define muito bem Cazuza. Com ele não tinha meio termo. Era “light my fire ou estupidamente gelada”!

Apaixonado por literatura, o que somado à sua paixão pela música acabou resultando em algumas das mais belas canções do rock brasileiro e da MPB. Isso porque após a sua saída do Barão Vermelho, grupo que o apresentou ao mundo, flertou com diversos estilos musicais, estacionando com maior frequência na Música Popular Brasileira. Filho único e assumidamente mimado, disse certa vez que “amor demais nunca faz mal. O que faz mal é amor de menos”. Assim foi Cazuza. Intenso e singular.

Alguns bobos dirão coisas do tipo “ele foi um mau exemplo” ou “um playboy riquinho e rebelde”… O que dizer, portanto, de um cara que não precisava trabalhar para alimentar o corpo e sim a alma, que tinha a morte anunciada por uma doença, que à época, quando diagnosticada, funcionava como uma sentença final, ter vencido o Prêmio Sharp como melhor cantor brasileiro do ano de 1989. Cazuza subiu ao palco para ser homenageado de cadeiras de rodas. Lutou contra a maldita doença até seus últimos dias, produzindo, escrevendo e cantando. Talvez, muitos desses que criticam o seu “mau exemplo” faltem ao trabalho por uma simples cefaleia ou dor de cotovelo. O menino rebelde da zona sul continuou brindando a humanidade com suas poesias até os seus últimos dias de vida.  

Prêmio Sharp de melhor cantor brasileiro de 1989

A irreverência o acompanhou até o fim, como relata sua maior fã, sua mãe Lucinha Araújo “Na véspera dele morrer, ele virou pra mim e disse: ‘Mamãe, estou morrendo’. Eu respondi: ‘Meu filho, você prometeu que não ia dizer isso. A gente não ia falar em morte’. E ele: ‘De fome, mamãe. O que é que tem pra rangar?’”, lembra ela.

Com a mãe Lucinha Araújo, sua maior fã.

Cazuza seguia os preceitos do poeta chileno Pablo Neruda. “Não foi Neruda que disse: ‘feche os livros e vá viver’? pois eu fui”, costumava dizer o poeta. Ele juntou o rebolado escrachado do rock à poesia melódica da MPB, passeou pelo Samba Canção… Transgrediu, transformou pessoas. É dele uma das melhores definições sobre o amor que já ouvi: “ver o amor como um abraço curto para não sufocar”, quanta profundidade em uma única frase. Ou sobre o beijo: “Beijo na boca é tudo. É a primeira vez que você entra na pessoa”.

O poeta fechou as cortinas aos 32 anos, num sábado, dia 7 de julho de 1990. “A vida é bela e cruel despida, tão desprevenida e exata, que um dia acaba”. Foi-se o homem, ficou a obra. A eterna obra-prima de Agenor Miranda de Araújo Neto, ou tão somente Cazuza. Simplesmente mágico. Absurdamente genial!