O agronegócio brasileiro entra em 2026 diante de um ambiente cauteloso, marcado por incertezas econômicas, pressão inflacionária e riscos climáticos, mas também por um movimento consistente de reinvenção dos negócios. É o que revela a 29ª edição da CEO Survey Agro, realizada pela PwC, que ouviu mais de 4,4 mil executivos em 95 países, incluindo líderes das principais empresas do setor no Brasil.
Um dos destaques do levantamento é a intensificação da concorrência além das fronteiras tradicionais do agronegócio. Segundo a pesquisa, 50% dos CEOs do agro no Brasil afirmam que suas empresas passaram a competir em novos setores nos últimos cinco anos, acompanhando uma tendência global de convergência entre indústrias, impulsionada por tecnologia, sustentabilidade e novos modelos de negócio. O percentual está alinhado à média nacional de todos os segmentos da economia.
Para a PwC, esse movimento exige das lideranças a capacidade de lidar simultaneamente com riscos imediatos e oportunidades estruturais. “Liderar nesse contexto exige capacidade de alternar rapidamente entre agendas e horizontes de tempo. Resta avaliar se essa alocação de tempo atual é a mais adequada para sustentar o desempenho e a competitividade no curto e no longo prazos”, afirma Mayra Theis, sócia e líder de Agronegócio da PwC Brasil, em nota.
A inovação aparece como eixo central dessa estratégia. De acordo com a pesquisa, 63% dos CEOs do agronegócio brasileiro consideram a inovação um componente crítico do negócio, índice superior à média global. A busca por novas soluções ocorre, sobretudo, por meio da colaboração com parceiros externos, como startups, fornecedores e universidades, citada por 38% dos executivos, além da experimentação direta com clientes e usuários finais.
Nesse contexto, a inteligência artificial começa a se consolidar como vetor de crescimento para parte relevante do setor. Segundo o estudo, 33% das empresas do agro no Brasil reportaram aumento de receita atribuído ao uso da tecnologia nos últimos 12 meses. Os efeitos sobre os custos ainda são graduais: um terço dos CEOs observa redução, associada a ganhos de eficiência e automação, enquanto quase metade indica estabilidade.
Desempenho econômico
A adoção de tecnologias avançadas também traz impactos para o mercado de trabalho. De acordo com o levantamento, 60% dos líderes do agronegócio avaliam que suas empresas precisarão de menos profissionais em início de carreira nos próximos três anos. Para cargos de nível médio e sênior, o impacto tende a ser mais limitado, refletindo a demanda por perfis mais qualificados e especializados.
Apesar dos avanços estruturais, a pesquisa aponta um recuo no otimismo em relação ao desempenho econômico. Apenas metade dos CEOs do agronegócio no Brasil projeta aceleração da economia global nos próximos 12 meses, percentual inferior ao registrado na edição anterior. No cenário doméstico, 58% esperam crescimento da economia nacional, ainda em patamar positivo, mas com maior cautela. A confiança no crescimento da receita das próprias empresas no curto prazo também caiu, passando de 48% para 38%.
Inflação e risco
No campo dos riscos, a inflação desponta como a principal preocupação dos executivos do setor. Cerca de 35% dos CEOs indicam alta exposição ao avanço dos preços, percentual superior às médias brasileira e global. As mudanças climáticas e a instabilidade macroeconômica aparecem logo na sequência, ambas citadas por 33% dos líderes. Segundo a PwC, embora riscos cibernéticos e tecnológicos ainda tenham peso menor no agro em comparação a outros setores, a tendência é de crescimento dessas preocupações no médio e longo prazo, à medida que aumenta a conectividade e a automação dos processos produtivos.
“Hoje, observamos que os riscos no setor ainda são menos complexos, mas, com a conectividade das máquinas e a maior complexidade na automatização dos processos, observamos que existe uma tendência cada vez maior de vermos a preocupação com o risco cibernético e com as ameaças tecnológicas crescerem em um horizonte de médio a longo prazo”, explica Mayra Theis.
Prazos
Outro dado relevante diz respeito à gestão do tempo das lideranças. A pesquisa mostra que 54% da agenda dos CEOs do agronegócio brasileiro é dedicada a temas de curto prazo, com horizonte inferior a um ano, enquanto apenas 15% do tempo é destinado a questões de longo prazo. Para a PwC, essa concentração reflete a pressão por resultados imediatos, mas pode limitar a capacidade das empresas de responder de forma mais estruturada a desafios como adaptação climática, inovação produtiva e sustentabilidade da cadeia.
Ainda assim, a 29ª CEO Survey Agro indica que companhias mais abertas à reinvenção — com investimentos contínuos em tecnologia, inovação e novos mercados — tendem a apresentar maior resiliência e desempenho superior. O desafio, segundo o estudo, não está em escolher entre curto e longo prazo, mas em equilibrar essas duas agendas em um cenário de incerteza persistente e transformação acelerada.





