O ano de 2026 será um período de transição e adaptação ao agronegócio brasileiro. Essa é a análise do sócio-diretor da Markestrat, José Carlos de Lima Júnior. Segundo ele, o setor precisará combinar tecnologia, gestão e inteligência de mercado para sustentar margens, reduzir riscos e consolidar sua posição de liderança global.
O especialista acredita que, ao longo do novo ano, o protecionismo visto em 2025 deve permanecer, e as oportunidades tendem a surgir em nichos e segmentos específicos.
Lima alerta ainda para os desafios desencadeados por três fatores:
transição econômica;
incertezas nas políticas internas;
mudanças no contexto internacional.
“A eleição presidencial, o avanço das reformas estruturais e a reconfiguração geopolítica global deverão influenciar diretamente o crédito rural, as margens de rentabilidade e a competitividade das exportações”, destaca o especialista, em relatório.
Transição econômica e novo ambiente tributário
Na avaliação do sócio-diretor da Markestrat, a implementação das reformas tributária e da renda devem provocar mudanças estruturais relevantes no ambiente econômico e fiscal do setor agropecuário.
O novo modelo, baseado na tributação sobre o consumo, tende a simplificar a arrecadação e reduzir a cumulatividade de impostos, mas, por outro lado, ele alerta que ampliará o nível de fiscalização e controle ao longo de toda a cadeia agroindustrial. “Na prática, empresas e cooperativas tenderão a exigir maior conformidade fiscal e documental de produtores e fornecedores”, lembra.
Por isso, ele salienta que o cenário reforça a importância de uma gestão financeira, contábil e jurídica mais profissionalizada no campo. Além disso, há a necessidade de ampliar o papel consultivo de revendas, cooperativas e entidades representativas na adaptação ao novo sistema tributário.
Dentro desse contexto, Lima destaca que as cooperativas tendem a ganhar protagonismo. Isso porque o modelo cooperativista, caracterizado pela integração entre produção, comercialização e serviços, pode preservar benefícios relevantes dentro das novas regras da reforma tributária, funcionando como um importante amortecedor de riscos para os produtores.
Incertezas políticas internas em ano eleitoral
Outro fator de atenção para 2026 é o ambiente político doméstico. “Como ocorre tradicionalmente em anos eleitorais, a volatilidade financeira tende a aumentar, exigindo das empresas e dos produtores rurais maior prudência nas decisões de investimento e na gestão de riscos”, diz.
Entre os temas que podem impactar diretamente o setor, está a discussão sobre a escala de trabalho 6×1, que tende a afetar segmentos da agroindústria mais intensivos em mão de obra. No entanto, o especialista destaca que esse debate não pode ser analisado de forma isolada, já que ocorre em paralelo a uma profunda transformação tecnológica no campo.
A crescente adoção de automação, inteligência artificial e sistemas digitais deve reduzir a demanda por mão de obra operacional, ao mesmo tempo em que amplia a necessidade de profissionais qualificados para funções técnicas, analíticas e de gestão. “Diante disso, formação profissional e educação técnica voltadas ao agronegócio se tornam fatores estratégicos para sustentar produtividade e competitividade”, acredita o especialista. Segundo Lima, esse debate tende a ganhar ainda mais relevância ao longo de 2026.
Contexto internacional e pressão sobre juros e câmbio
No cenário externo, as condições monetárias seguem sendo um dos principais pontos de atenção. A expectativa é de que a política monetária brasileira reduza levemente os juros no Brasil, porém, mantendo-os ainda em patamar elevado. Projeções do Boletim Focus do Banco Central indicam a taxa Selic em torno de 12,25% ao final de 2026, com viés de manutenção ou até leve alta.
De acordo com o relatório, uma redução mais significativa dos juros exigiria uma combinação considerada pouco provável no curto prazo: inflação totalmente ancorada na meta, forte disciplina fiscal e melhora consistente do ambiente externo. “Assim, a geopolítica será determinante para a trajetória dos juros brasileiros em 2026”, alerta.
Nesse contexto, ele lembra que movimentos do governo dos Estados Unidos para encerrar o conflito entre Rússia e Ucrânia e uma eventual reaproximação com Moscou podem alterar fluxos energéticos globais e preços do petróleo, com impactos diretos sobre custos logísticos, preços de fertilizantes e taxas de câmbio.
“O fato é que o câmbio brasileiro deverá permanecer sensível às incertezas eleitorais”, afirma. “Uma candidatura de centro-direita com ampla coalizão poderia reduzir o risco político e favorecer a valorização do real. Em contrapartida, agendas de expansão fiscal e aumento de gastos públicos tenderiam a pressionar a moeda”, acrescenta.
O sócio-diretor da Markestrat reforça que oscilações cambiais afetam diretamente as relações de troca entre produtos agropecuários e insumos, interferindo nos custos de produção e nas margens de exportação. Independentemente do resultado das eleições, Lima ressalta que será fundamental adotar estratégias de proteção cambial e uma gestão integrada de riscos.
Margens pressionadas e atenção à inadimplência
Mesmo após o processo eleitoral, o agronegócio deverá conviver com juros elevados, pressão sobre margens e aumento da inadimplência. Parte desse risco se propaga ao longo da cadeia produtiva: atrasos nos pagamentos por parte dos produtores impactam indústrias, distribuidores e cooperativas. “É provável que a inadimplência permaneça elevada ao menos no primeiro semestre de 2026, especialmente diante da ausência de sinais claros de valorização expressiva da soja, principal commodity do agronegócio brasileiro”, aponta o especialista.
China no radar estratégico
Por fim, o relatório chama atenção para o início do 15º Plano Quinquenal de Desenvolvimento da China, que vigorará entre 2026 e 2030. Assim como no plano anterior, a tendência é que o governo chinês priorize o crescimento do PIB per capita, e não do PIB total, como principal indicador de desenvolvimento. Um exemplo disso, chegou na véspera do ano novo, quando o governo chinês decidiu aplicar cotas tarifárias sobre suas importações de carne bovina, após concluir, em investigação, dano grave à sua indústria doméstica com o excesso de compras nos últimos anos.
Esse direcionamento reforça a visão de que a demanda chinesa por commodities agrícolas deve se manter relevante, porém mais seletiva, o que exige do agronegócio brasileiro maior foco em eficiência, previsibilidade, qualidade e agregação de valor para capturar oportunidades no mercado internacional.



