O preço da vaidade

Cliente sofre queimaduras e processa empresa que tinha esposa de senador como ‘garota propaganda’

Após sofrer graves queimaduras no corpo em decorrência de um bronzeamento natural, uma cliente ingressou na justiça contra a empresa que prestou o serviço. Na ação, que tramita no 3º Juizado Especial Cível do Tribunal de Justiça do Acre, ela pede indenização por danos morais. A casa de bronzeamento foi aberta com o nome da ex-deputada federal Marfisa Galvão, esposa do senador e atual secretário do Senado da República, Sérgio Petecão (PSD).

Por meio do telefone disponibilizado na internet, a reportagem do Diário do Acre descobriu que a casa onde os bronzeamentos eram realizados está fechada há cerca de três meses. Antes disso, o nome fantasia da firma passou de ‘Marfisa Bronze’ para ‘New Bronze’, mesmo atendendo no mesmo local, na Rua Samambaias, no bairro Tropical, em Rio Branco.

Esposa de Petecão seria apenas ‘garota propaganda’ da emprea/Reprodução

Taline Aquino, responsável pela divulgação da antiga ‘Marfisa Bronze’ nas redes sociais, informou que o nome da esposa do parlamentar e dirigente regional do PSD era usado apenas para ‘promover o negócio’, embora Marfisa comparecesse com frequência no local e tivesse o próprio nome na fachada. Segundo Taline, o imóvel é de propriedade da empresária Leia Lima, mas havia sido alugado por Marcela Galvão, sobrinha de Marfisa.

“Na realidade, a Marfisa nunca esteve à frente dos negócios. Usávamos mais o nome dela para atrair a clientela. Era um nome fantasma. Quem era responsável pela casa era sua sobrinha, Marcela Galvão, de quem sou prima. A Marfisa nos ajudava com a divulgação, vinha para as sessões de bronze e tirávamos foto dela para promover o espaço nas redes sociais”, disse Taline.

Sobre a ação judicial, Taline sugeriu se tratar de ‘interesse em ganhar dinheiro por acreditar que a dona é a Marfisa’. Ela ressaltou que não houve omissão por parte do estabelecimento em garantir total assistência à antiga cliente, que inclusive teria, segundo afirmou, se recusado a ir ao médico na época.

Marfisa usava as redes sociais para atrair clientes/Reprodução

“Eu fiz questão de levá-la à farmácia e comprar o que foi orientado pelo farmacêutico. Lembro que era próximo do feriado de 7 de Setembro, e ela disse que iria viajar para Cruzeiro do Sul, e eu ainda pedi que não fosse naquela situação para ir com ela ao médico, mas houve recusa dela, que pediu para pagar uma consulta lá no município onde estaria, o que era inviável no momento. Mas no fundo sabemos o que ela está querendo com esse processo, acreditando ser a Marfisa a proprietária da casa de bronze”, alfinetou.

A cliente que sofreu queimaduras de segundo e terceiro grau afirma, segundo consta no processo, ter sido exposta por cerca de duas horas ao sol, sem uso de protetor solar. Quando à noite começou a passar mal, teria entrado em contato com Taline via WhatsApp, ao que esta última teria respondido que passaria o caso dela à tia, Marfisa.

Taline Aquino não soube informar à reportagem se a empresa possuía alvará da Vigilância Sanitária para poder funcionar.

Procurada, Marfisa Galvão disse que estaria fora do Acre e que não daria declarações por telefone.

Perigo à saúde pública

Contatada pelo Diário do Acre, a gerente-geral da Vigilância Sanitária de Rio Branco, Deane Silva Fernandes, disse que precisaria de tempo para levantar o número de estabelecimentos dedicados a prestar serviços de bronzeamento artificial que possuem alvará, bem como os que estão em processo de regularização junto ao órgão.

Deane adiantou, porém, que a Vigilância Sanitária vai intensificar a fiscalização dessas empresas, cujos lucros, de tão atraentes, fizeram com que se proliferassem na capital acreana.

“Já planejávamos uma ação nesse sentindo, mas com a informação da reportagem, vamos intensificar a fiscalização nesses estabelecimentos, cuja atividade pode pôr em risco a saúde pública. Nossa orientação inicial é que as casas de bronzeamento que não estão adequadas às normas da Vigilância Sanitária suspendam de imediato suas atividades, até que sejam totalmente regularizadas, a fim de evitar notificações e multas que estão previstas no Código Sanitário do município”, orientou.

As marquinhas perfeitas do biquíni feito de fita isolante podem ser encontradas facilmente nas redes sociais. Voltadas para o público feminino, essas páginas com anúncios do serviço exibem mulheres seminuas.

E apesar de ser apresentado como ‘natural’, o procedimento é feito com produtos que aceleram a pigmentação da pele por meio da exposição ao sol, a exemplo dos compostos à base de parafina. Algumas das chamadas personal bronze admitiram, por telefone, não possuir permissão da prefeitura para funcionar, mesmo trabalhando há cerca de seis anos no ramo.

A falta de regulamentação desses estabelecimentos, conforme alertou a gerente-geral da Vigilância Sanitária, pode resultar em sérios danos à saúde, já que as pessoas que se submetem a ele estão sujeitas a produtos falsificados, e por isso não regulamentados pela Anvisa.

Segundo ela, as queimaduras podem evoluir para outras enfermidades bem mais graves, a exemplo do melanoma, um tipo agressivo de câncer de pele que pode, inclusive, levar à morte.