Começa 2026, e sob um paradoxo: governos erguem barreiras, as cadeias produtivas se tornam mais interdependentes. Em vez de previsibilidade, os exportadores enfrentam um cenário volátil, em que decisões políticas substituem regras multilaterais. A combinação de guerras tarifárias, populismo econômico e disputas geopolíticas reforça a dimensão de poder no comércio internacional.
Após um ciclo de liberalização moderada entre 2000 e 2015, o comércio internacional foi reconfigurado por tensões entre Estados Unidos e China. A política industrial voltou à agenda, e o uso de tarifas, subsídios e sanções se intensificou. Em 2025, três vetores moldam o comércio global:
- Nacionalismo econômico: a recondução de Donald Trump à Casa Branca ampliou o uso de tarifas unilaterais, investigações por segurança nacional e medidas anti-China, fragmentando o sistema da OMC.
- Regulações climáticas extraterritoriais: a União Europeia avança com o CBAM, exigindo a compra de certificados de carbono a partir de janeiro. Paralelamente, o EUDR exige due diligence sobre desmatamento e legalidade da produção em cadeias de carne, soja, madeira, café e cacau. Ambos impactam diretamente o agronegócio e a indústria brasileira.
- Geopolítica dos minerais críticos: o controle sobre lítio, terras raras e insumos estratégicos se tornou prioridade em acordos e medidas de controle de exportações, com destaque para China, Índia, Indonésia, Austrália e EUA.
Para o exportador brasileiro, 2026 será marcado por quatro frentes de risco regulatório:
• Regras de origem e acordos preferenciais: a multiplicação de acordos bilaterais (incluindo Índia e Indonésia) exige atenção à classificação fiscal e às regras de origem. Há crescente risco de perda de preferências e desvio de comércio.
• Defesa comercial e barreiras técnicas: cresce o uso de medidas antidumping, exigências sanitárias e normas técnicas com viés protecionista.
• Devida diligência e rastreabilidade: as novas obrigações exigem comprovação documental robusta e sistemas de monitoramento em tempo real. Empresas que ignorarem esse movimento perderão acesso a mercados premium.
• Revisão de incentivos e subsídios: programas governamentais serão avaliados por órgãos de concorrência estrangeiros, com riscos de investigação por subsídios distorsivos (caso recente: consulta dos EUA sobre subsídios à madeira).
Como resposta estratégica, o primeiro passo é deixar o amadorismo para trás. O comércio internacional, em 2026, exigirá governança, mapeamento de riscos e atuação técnica. Algumas prioridades para exportadores serão:
• Compliance em classificação, origem e valoração aduaneira: para penalidades e permitir aproveitamento correto de preferências tarifárias.
• Monitoramento legislativo e engajamento institucional: a construção de exceções, flexibilizações e ajustes regulatórios demanda tempo — e exige pressão coordenada sobre autoridades locais e estrangeiras.
• Aproveitamento de acordos existentes: o Brasil precisa reativar agendas com México, Indonésia, Canadá e Reino Unido. Acordos de última geração exigem atuação ativa do setor privado no monitoramento de prazos e concessões de capítulos específicos.
• Defesa comercial ofensiva: setores estratégicos devem estruturar pedidos de antidumping ou compensatórias, diante da avalanche de importações com subsídios ou prática de dumping.
Ao mesmo tempo, os exportadores precisarão demandar, do governo brasileiro, mais ação institucional coordenada (desafiante num ano eleitoral). Isto implica usar a diplomacia comercial, embaixadas, Apex e organismos multilaterais para acompanhar e influenciar normas estrangeiras, fortalecer foros regionais, e atuar em coalizões para contrabalançar a imposição unilateral de políticas comerciais. Para o Brasil, exige-se uma virada estratégica: do improviso à inteligência regulatória, da reação à antecipação, do discurso à execução técnica. O mundo não esperará, em 2026.
Welber Barral é Conselheiro da Fiesp, presidente do IBCI e ex-secretário de Comércio Exterior do Brasil



