Da genética bovina a cavalos de elite: o mercado por trás da nova central equina do Brasil

Depois de se consolidar como uma das maiores centrais de coleta e processamento de sêmen bovino da América Latina, a Seleon Biotecnologia deu um passo estratégico rumo a um mercado ainda pouco explorado no Brasil: a reprodução equina em escala industrial. 

Com investimento de cerca de R$ 10 milhões, a empresa inaugurou no último mês a Seleon Equinos. A unidade é dedicada exclusivamente à produção e industrialização de sêmen de garanhões — cavalos machos que não foram castrados — de alto valor genético. Contudo, a decisão não surgiu por acaso. 

Ao Agro Estadão, Bruno Grubisich, criador e fundador da Seleon Biotecnologia, explica que a ideia partiu da observação do crescimento do mercado equestre no Brasil, que, atualmente, ocupa a quarta posição mundial em número de animais e movimentação econômica. “Existe um mercado grande, sofisticado e disposto a investir, mas com uma lacuna clara em tecnologia, escala e padronização. Foi exatamente esse tipo de descompasso que vimos no bovino anos atrás e que acabou criando a oportunidade para a Seleon nascer”, contou. 

Com a expertise adquirida há mais de uma década de trabalho no mercado de genética bovina, sendo responsável pela manutenção dos reprodutores, coleta, industrialização e armazenamento de sêmen, sem venda direta ao produtor final, agora a Seleon quer impulsionar o mercado de genética equina no Brasil.  

“A lógica sempre foi industrializar com eficiência, reduzir custos e aumentar a previsibilidade, sem perder o cuidado individual com o animal”, explica Grubisich. “Essa experiência é totalmente transferível para o equino, respeitadas as diferenças entre as espécies”, complementa o fundador da companhia, que opera hoje com cerca de 450 touros em coleta, alcançando uma produção anual próxima de 5 milhões de doses de sêmen bovino. 

No novo segmento, no entanto, a lógica econômica muda. Diferentemente da reprodução bovina, na qual o volume é determinante, no caso do equino o número de doses produzidas por animal é significativamente menor, porém, o valor agregado é muito mais alto. “Uma única dose fertilizante pode exigir várias palhetas de sêmen, e o preço por unidade supera em múltiplos o praticado na pecuária”, garante Bruno.

Ele explica ainda que, como os garanhões são ativos sensíveis e, muitas vezes, multimilionários, isso exige instalações específicas, manejo cuidadoso, equipes altamente treinadas e protocolos rigorosos de segurança sanitária. “O cavalo não é um processo industrial simples. É um trabalho quase artesanal, animal por animal, mas que precisa acontecer dentro de uma estrutura altamente tecnológica”, resume o executivo. Para atender a essas instalações adequadas, a Seleon tem capacidade inicial para operar com cerca de 30 garanhões. 

Clima e localização como vantagem competitiva

Outro ponto observado antes do investimento, foi a localização da nova central. Para isso, a cidade escolhida foi Itatinga, no interior de São Paulo. A região fica próxima a Avaré, um dos principais polos equestres do País. 

A escolha do local não é casual. Com altitude próxima de mil metros e clima mais ameno e seco, a região oferece condições ideais para a reprodução animal ao longo de todo o ano. “No bovino, conseguimos produzir sêmen 12 meses por ano, enquanto outras regiões precisam interromper a coleta no pico do verão. Esse mesmo benefício vale para os cavalos. Menos estresse térmico significa maior fertilidade e melhor qualidade do sêmen”, afirma. 

Além disso, as instalações foram projetadas para reduzir o estresse dos animais, com baias individuais e ventilação cruzada. Pensou-se ainda em áreas de exercício controlado, enfermaria, quarentenário e manejo comportamental específico para garanhões, conhecidos por temperamento mais sensível.

A aposta da Seleon vai além do mercado interno. A empresa pretende contribuir para que o Brasil se torne um hub internacional de reprodução equina, repetindo o caminho já percorrido pelo setor bovino. Hoje, o País já abriga touros taurinos de origem norte-americana e europeia que produzem sêmen localmente para abastecer o mercado interno e exportar.

“No bovino, ajudamos a mudar a lógica: em vez de importar sêmen, passamos a produzir aqui e exportar. O cavalo pode seguir o mesmo caminho”, diz Grubisich, destacando que esse movimento amplia o mercado, gera receita e posiciona o Brasil em um novo patamar dentro do cenário internacional. 

Para atingir esse objetivo, a companhia quer replicar em seus laboratórios o padrão tecnológico já utilizado no bovino. Por isso, parte dos recursos investidos foi destinada a equipamentos de alto padrão, como sistemas de análise computadorizada de sêmen (CASA), microscopia avançada e protocolos personalizados de congelação que permitem avaliar com precisão a qualidade espermática e ajustar o processo às características de cada animal.

A rastreabilidade é outro ponto central. Cada etapa, da coleta ao armazenamento e expedição, é registrada digitalmente, garantindo controle de estoque, segurança sanitária e transparência para os clientes. O serviço inclui sêmen fresco, semi-conservado e congelado, além de atendimento a programas avançados de reprodução.

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