Depois do “agro fascista”, Lula agora diz que agronegócio é fundamental para a economia brasileira

O discurso mudou. E mudou bastante. Depois de associar uma parcela do agronegócio ao “fascismo” e à direita durante a campanha de 2022, Lula agora apresenta o setor como peça fundamental da economia brasileira em seu novo plano de governo. A pergunta que fica é inevitável: o que aconteceu nesse intervalo? O agro deixou de ser um problema político e passou a ser uma necessidade eleitoral?

O novo programa de governo apresentado pela candidatura petista para 2026 adota uma abordagem mais econômica em relação ao agronegócio. O texto destaca a contribuição do setor para a balança comercial e para o Produto Interno Bruto (PIB), além de defender políticas voltadas à produtividade, sustentabilidade e inovação tecnológica. A mudança representa uma diferença importante em relação ao programa apresentado quatro anos atrás.

Em 2022, a proposta enfatizava principalmente a agricultura familiar, a produção sustentável, a segurança alimentar e a reforma agrária. O agronegócio aparecia inserido nesse contexto, ao lado da agricultura familiar e da agricultura tradicional. O documento defendia ainda medidas relacionadas à produção orgânica, agroecologia e à “democratização na posse e uso da terra”.

Agora, o setor aparece com uma função econômica mais explícita. O plano afirma que o agronegócio é fundamental para o desempenho da balança comercial e para a evolução do PIB nacional, defendendo a integração entre eficiência produtiva, sustentabilidade ambiental e inovação tecnológica. Também aparece como desafio a agregação de valor às exportações brasileiras

A mudança de tom ocorre em um contexto no qual o peso político e econômico do agro ficou ainda mais evidente. Durante as tensões comerciais com os Estados Unidos, provocadas pelo tarifaço de Donald Trump, a articulação envolvendo o setor produtivo ajudou a abrir exceções para produtos brasileiros como carne, café e suco de laranja. O episódio mostrou, mais uma vez, que a produção rural não é apenas uma questão de política agrícola, mas também de comércio exterior e estratégia econômica. 

O próprio Lula já havia enfrentado repercussão negativa após uma declaração durante a campanha de 2022. Na entrevista ao Jornal Nacional, o então candidato afirmou que havia uma parcela do agronegócio que era “fascista e direitista”, fazendo uma distinção entre esses produtores e empresários que, segundo ele, atuavam no comércio exterior e defendiam a preservação ambiental. A declaração provocou reação de representantes do setor.

Quatro anos depois, a linguagem utilizada no programa eleitoral é consideravelmente mais pragmática. O documento promete diversificar as fontes de financiamento do agronegócio, estimular o mercado de capitais e títulos do setor e simplificar o acesso ao crédito, com processos menos burocráticos e critérios mais claros.

O plano também coloca o agro entre as áreas prioritárias para investimentos em ciência e tecnologia. A proposta é aproximar instituições de pesquisa, mecanismos de financiamento, inovação e modernização produtiva, conectando ciência ao agronegócio e à indústria para ampliar a produtividade.

Apesar da mudança no documento, a aproximação política com o setor ainda enfrenta obstáculos. O agronegócio permanece majoritariamente identificado com setores mais conservadores do eleitorado, enquanto Lula disputa uma eleição na qual adversários como Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Flávio Bolsonaro também procuram ocupar esse espaço político.

A própria agenda presidencial mostra essa dificuldade de aproximação. Em eventos ligados ao agronegócio, o vice-presidente Geraldo Alckmin tem assumido parte importante da interlocução com representantes do setor. No lançamento do Plano Safra destinado à agricultura empresarial, Lula não participou da cerimônia por estar em viagem ao Paraguai e retornou ao Brasil para o evento voltado aos pequenos produtores.

No novo programa, portanto, o agronegócio aparece menos como um problema político e mais como uma engrenagem econômica que precisa ser estimulada. O discurso passou da disputa ideológica para produtividade, crédito, tecnologia, exportação e competitividade.

A mudança não significa necessariamente que desapareceram as divergências entre o governo petista e o setor. Questões ambientais, reforma agrária, propriedade da terra e políticas para a agricultura familiar continuam presentes na agenda do partido. Mas há uma diferença importante: em 2026, o plano de Lula reconhece de maneira muito mais direta o peso econômico do agro.

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