Dólar cai, mas brasileiros ainda não sentem redução nos preços de importados

Apesar da queda do dólar, produtos importados vendidos no Brasil ainda não tiveram a redução esperada dos preços. A cotação da moeda norte-americana teve um recuo de 12% no período de um ano. Para o brasileiro que acompanha o câmbio, parecia a hora de finalmente ver os preços dos importados baixarem. Mas quem vai às compras, não encontra muita diferença.

A queda da cotação é real, mas não chega ao consumidor na mesma velocidade. E quando aparece, costuma ser de forma lenta, desigual e em setores específicos.

Wellyngton Caldas, comerciante de perfumaria árabe em Brasília, esperava sentir algum alívio nas compras. Não foi o que aconteceu: um dos seus distribuidores anunciou uma alta de dezoito por cento nos perfumes de grife justamente agora, com o câmbio em queda.

“Eu não senti nenhuma baixa de preço por parte dos distribuidores. Na verdade, alguns deles até anunciaram aumento nos perfumes importados, especialmente nos de grife, nas marcas mais tradicionais. Então isso acaba impactando no preço final para o consumidor. A concorrência é alta em qualquer setor, e na perfumaria não é diferente. A gente tenta segurar ao máximo e não repassar tudo. Mas a baixa do dólar, até agora, não tem se refletido nesses produtos importados”, afirma.

Estoques antigos atrasam redução dos valores

Na cadeia de alimentos e bebidas importados, o efeito também pouco é sentido. Segundo o presidente da Associação Brasileira de Importadores de Bebidas e Alimentos, Adilson Carvalhal Júnior, as empresas trabalham com estoques para longos períodos e boa parte foi comprada quando o dólar ainda estava mais alto.

“O ciclo é muito longo. Normalmente, as importadoras trabalham com estoque de pelo menos três ou quatro meses. Então muita coisa que está sendo vendida hoje foi comprada com o câmbio anterior, mais caro. Por isso, não dá para reduzir os preços imediatamente. Com a entrada dos novos itens, comprados com o dólar mais baixo, a tendência é começar a perceber melhor essa redução. Como essa queda ficou mais acentuada nos últimos 30, 40 dias, acredito que em mais um ou dois meses isso apareça mais claramente nos preços”, analisa.

O economista César Bergo explica que a cotação do dólar é só um dos fatores que influenciam o preço dos importados. Segundo ele, tributos, custos da cadeia de importação e o tempo entre a compra no exterior e a venda no Brasil fazem com que a redução demore a chegar ao consumidor:

“Tem uma coisa de que ninguém gosta de falar, que é a tributação. Na importação, existem várias camadas de impostos: taxa de importação, ICMS, tributos federais, Cide. Isso acaba fazendo com que o empresário adote uma postura mais defensiva. O que mais ajuda o consumidor, nesse caso, é a concorrência. Quanto mais concorrência houver, maior a tendência de o empresário ajustar os preços rapidamente para não perder clientes”, diz.

Viagens e compras no exterior ficam mais atrativas

Se por um lado quem compra no Brasil ainda não sente tanto a diferença, quem vai para fora tem conseguido usufrir dos preços mais baixos. Cauã Jung atua trazendo produtos dos Estados Unidos para clientes no Brasil. Por isso, quando a moeda cai, ele aproveita para repassar a redução para os clientes:

“O preço do dólar impacta diretamente o meu modelo de negócio. Essa semana, quando o dólar caiu para R$ 4,90, eu já percebi uma diferença muito grande nos preços de MacBooks e iPhones. Os MacBooks, por exemplo, ficaram entre R$ 600 e R$ 1 mil mais baratos. Quando eu divulgo isso, o público já vem atrás querendo aproveitar. Essa procura tem relação direta com a queda do dólar”, relata.

As viagens para o exterior também foram impulsionadas pela queda do dólar. Um levantamento da CVC Viagens, por exemplo, mostra que a procura por destinos internacionais cresceu cerca de vinte por cento desde que o câmbio começou a ceder.

O empresário e influenciador, Lucas Neto, está aproveitando o momento de baixa para comprar dólares, viajar e fazer compras no exterior. Ele também costuma alertar os seguidores sobre essas variações, para que possam se organizar financeiramente e aproveitar também.

“Sempre que o dólar cai, eu aproveito para comprar. Faço isso por dois motivos: primeiro porque é uma moeda que tende a se valorizar ao longo do tempo; segundo porque eu deixo como reserva para viagens internacionais. Já aproveitei para comprar MacBook, tênis, bolsa para a minha esposa. Quando o dólar cai e a gente compra nessa baixa, consegue aproveitar muito mais”, conta.

Os números do Banco Central confirmam esse movimento: somente nos 3 primeiros meses deste ano, os gastos de brasileiros no exterior somaram mais de 6 bilhões de dólares, uma alta de vinte e um vírgula nove por cento em relação ao mesmo período do ano passado – o maior valor já registrado para o período desde o início da série histórica.

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