Em artigo, Valdir Perazzo diz que ala progressista da Igreja Católica sabotou o desenvolvimento do Acre

A IGREJA CATÓLICA PROGRESSISTA SABOTOU O DESENVOLVIMENTO DO ACRE.

A IGREJA CATÓLICA PROGRESSISTA SABOTOU O DESENVOLVIMENTO DO ACRE

Já faz quase dez anos que recebi como regalo o livro “Comunicação Alternativa e Movimentos Sociais na Amazônia Legal”, de autoria de Pedro Vicente Costa Sobrinho, ex-professor da Universidade Federal. A edição é de 2011 e o livro me foi presenteado em 2017.

Fiz uma leitura atenta do livro, no propósito de entender o motivo pelo qual o Acre se atrasou do ponto de vista econômico, em relação ao vizinho Estado de Rondônia. Marquei os mais importantes argumentos do autor. Sublinhei cada frase relevante que pudesse explicar a realidade acreana atual.

Rastreei as ideias a partir de dois veículos de comunicação que tiveram grande importância no início dos anos 70, quando o Estado tinha apenas seis anos de existência: “Nós Irmãos”, um boletim editado pela Igreja do Acre e Purus, a partir de 1971 e o “Varadouro”, que apareceu em 1977.

O argumento central do livro é exatamente o papel que esses dois veículos de comunicação tiveram no início dos anos 70, do século passado, no sentido de barrar o projeto nacional de integrar a Amazônia à economia e ao território nacional, quando exercia o governo local, Francisco Wanderley Dantas e, no plano federal, era presidente Emílio Garrastazu Médici.

Já na dedicatória, se pode perceber que o autor do livro é uma pessoa de posição ideológica de esquerda. Ele mesmo se disse um devoto do bispo que teve importante papel na propagação das ideias contrárias a integração da Amazônia ao restante do Brasil. Escreveu: “Ao bispo Dom Moacyr Grechi, meu santo e ídolo…”.

O argumento do livro parte da hipótese de que havia um projeto nacional de integração da Amazônia ao resto do Brasil, e, é a esse projeto, que os veículos de comunicação acima citados, sob a orientação da Igreja Católica Progressista, liderada por Dom Moacyr Grechi, se opôs, com o aplauso do escritor.

Sobrinho transcreveu a proposta do governo federal e local: “As políticas públicas definidas à época para a Amazônia tinham como objetivo a rápida incorporação dessa imensa área ao conjunto da economia nacional. A chamada “Operação Amazônia”, de forte conteúdo geopolítico, foi a estratégia de ocupação do espaço amazônico e, para sua implementação, foram alocados recursos através do crédito fácil e barato nos bancos públicos e incentivos fiscais, com vistas a promover o deslocamento de migrantes, capitalistas nacionais e estrangeiros dispostos a participar do grande projeto da ditadura para a integração nacional”.

O autor parte do princípio de que havia um projeto nacional de integração da Amazônia à economia brasileira, e que, para tanto, foram mobilizados recursos que estimularam a ocupação da imensa região, aí incluindo-se o Estado do Acre. Para ele, escritor de esquerda, o projeto do governo estava errado, e a Igreja Progressista Católica que boicotou o projeto, estava certa.

F. A. Hayek, Prêmio Nobel de Economia, em seu livro “Os Erros Fatais do Socialismo – Por que a Teoria não Funciona na Prática”, na epígrafe do capítulo “A Ordem Ampliada e o Crescimento Populacional”, transcreveu um pensamento do economista clássico Adam Smith que põe por terra a hipótese de ação da Igreja Progressista quando se opôs ao projeto do Governo de então, promovendo a ocupação da Amazônia por migrantes de outras regiões: “O fator mais decisivo para a prosperidade de qualquer país é o aumento do número de seus habitantes”.

Sem um projeto alternativo, a Igreja Católica Progressista, se opôs a esse projeto, com base apenas na narrativa de que tal projeto seria contrário aos interesses da classe trabalhadora. Para tanto, valia qualquer argumento falacioso. É o próprio autor que o diz: “A linha editorial era meridiana e cristalina: só havia uma versão para o Varadouro, a dos trabalhadores…”.

Quem seriam os trabalhadores, em nome dos quais, a Igreja Progressista passaria a agir no escopo de barrar o projeto de integração da Amazônia a economia brasileira?

A resposta está no prefácio do livro. O autor parte do pressuposto de que o boletim “Nós Irmãos” e o “Varadouro”, falavam em nome de posseiros, índios e seringueiros, contra a ocupação predatória de suas terras e a consequente ameaça de destruição da floresta acreana pelos malvados “paulistas”. Uma falácia!

E por que era uma falácia? O autor admite que a economia do Estado do Acre estava falida. Se a economia do Acre (extrativismo) estava falida, o projeto de integração à economia nacional, com os incentivos federais acima citados, criava uma alternativa a essa economia falida, beneficiando exatamente aos posseiros, índios e seringueiros que a Igreja Progressista dizia defender. Repita-se. O argumento era falacioso, sem base na Ciência Econômica, e inspirado nos ideais socialistas.

Vejamos um trecho em que o autor aponta a causa pela qual a economia local estava em falida: “O estado de colapso da economia extrativista da borracha silvestre da Amazônia passa a ter seus sintomas mais bem-postos em evidência com a entrada, com peso significativo no mercado mundial de elastômeros, da goma elástica produzida nos seringais de cultivo do continente asiático, principalmente nas colônias inglesas”.

A verdade é que posseiros, índios e seringueiros, além da falência dos seringais, tinham outros motivos para demandar à cidade. Essas pessoas, nos anos 60 e 70 do século passado, foram atraídas para a vida urbana em razão de muitos outros fatores: possibilidades de melhores salários, educação para os filhos, melhores condições de saúde, etc. O rádio e as estradas contribuíram poderosamente para a migração do campo para a cidade.

O economista Hernando de Soto, em seu livro “O Mistério do Capital”, afirmou: “…centenas de milhares de pessoas rodavam pelas novas estradas em direção às cidades tão tentadoramente descritas nos novos programas de rádio. (…) Somente na China, mais de 100 milhões de pessoas mudaram-se dos campos para as cidades desde 1979. Entre 1950 e 1988, a população metropolitana de Port-au-Prince aumentou de 140.000 para 1.550.000”.

Não era verdade a afirmação da Igreja Católica Progressista de que as pessoas estavam migrando dos seringais para a cidade de Rio Branco por terem sido expulsas pelos “malvados paulistas”. A migração em massa, nos anos 60 e 70 do século passado, do campo para as cidades, foi um fenômeno universal. A Igreja Católica Progressista botou a culpa nos “paulistas”.

Qual o fato relevante que motivou a Igreja Progressista do Acre no sentido de se opor ao projeto de integração da Amazônia à economia brasileira? Eu não tenho a menor dúvida de que se inspirou na II Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, realizado em Medellin no ano de 1968, quando a partir de então, fez uma “opção preferencial pelos pobres”, lema da teologia da libertação.

É o próprio autor que o diz: “Sob o foco das disposições inovadoras de Medellin, a Igreja brasileira definiu suas estratégias de ação básica para os novos tempos, retomando e dando ênfase à sua dimensão comunitária. A opção pelos pobres, a opção pela libertação e a opção pelas Comunidades Eclesiais de Base passaram a ser incorporadas ao trabalho pastoral cotidiano”.

A Igreja Progressista do Acre precisava de um discurso que se adequasse a essa nova realidade da Igreja Latino-Americana, que tinha como fundamento a teologia da libertação, ou seja, uma interpretação marxista dos Evangelhos, que impulsionou a revolução brasileira.

No Acre, o impulso dado pela Igreja Progressista à causa revolucionária é um fato notório. O Partido dos Trabalhadores foi o grande herdeiro dessa atividade realizada pelos veículos de comunicação acima citados. Chegou ao poder e governou o Acre por 20 anos.

O Partido que governou o Acre durante 20 anos, como herdeiro da militância da Igreja Progressista, não se inspirou num projeto para desenvolver o Acre. Inspirou-se numa narrativa que não tinha base fática. A Igreja Progressista não formulou um projeto contrário ao que boicotou, ou seja, a integração da Amazônia à economia brasileira.

O Partido dos Trabalhadores (PT), que assumiu a narrativa da Igreja Progressista, e chegou ao poder, nele permanecendo por 20 anos, apontou como solução para a vida de índios, posseiros e seringueiros, as reservas florestais (institucionalização de terras públicas). Seria esse modelo, na concepção da esquerda acreana, em que índios, posseiros e seringueiros, seriam fixados à terra definitivamente.

Ledo engano! Que o indagam os pobres seringueiros, posseiros e índios hoje ocupando as reservas florestais da região Amazônica! Expulsos das terras que ocupam e até com suas casas queimadas.

Exemplo frisante é o que se viu em meados do ano passado, na operação “Suçuarana”, quando até as vaquinhas dos posseiros que lutam para sobreviver na floresta, foram confiscadas pelo atual governo do Partido dos Trabalhadores!

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