Entrevista

“Estão jogando dinheiro no lixo”, diz vereador do MDB sobre a prefeitura da capital

O discurso firme não parece pertencer a jovem parlamentar, cujas reiteradas tentativas de ser eleito acabou recebendo um ‘empurrãozinho’ do acaso. João Marcus Luz, atual vereador de Rio Branco pelo MDB, chegou ao cargo depois que o titular, Roberto Duarte, foi eleito, no ano passado, para a Assembleia Legislativa do Acre.

Acreano, nascido na maternidade Bárbara Heliodora em Rio Branco há 37 anos, Luz se orgulha em dizer que não vem de berço de ouro e nem de família influente. “Nunca tive padrinho político”, frisa ele, acrescentando ter sofrido quatro derrotas eleitorais. “Mas não desisti do sonho de representar minha cidade na Câmara de Vereadores”.

João Marcus chegou ao cargo com a eleição de Duarte Jr. para a Aleac/Assessoria

Os últimos dez anos foram dedicados exclusivamente à política. Aos 25 anos de idade, Luz já era executivo de uma grande empresa de transportes. Trocou a estabilidade do emprego pelo sonho de chegar ao poder. Segundo ele, a decisão valeu a pena.

João Marcus Luz concedeu entrevista ao Diário do Acre na última quinta-feira (11), durante a qual não poupou críticas à gestão da prefeita Socorro Neri (PSB).

Diário do Acre O senhor assumiu como vereador há pouco mais de três meses, no lugar deixado pelo seu correligionário, Roberto Duarte Jr, que assumiu uma cadeira no parlamento estadual. Como tem sido esses três primeiros meses no parlamento mirim?

João Marcus Luz – Eu estou muito satisfeito em a vida ter me dado essa oportunidade. Foram dez anos, quatro campanhas, muita dedicação, muito esforço até chegar a esse momento de assumir como vereador de Rio Branco. Esses dez anos me deram uma bagagem, uma estrutura emocional e física para eu chegar e conseguir cumprir a função do vereador, que é muito dura: a de fiscalizar e legislar. Quando você cumpre a sua função de fiscalizar, você recebe contrariedade em relação a isso. Essa talvez seja hoje a minha maior dificuldade. Mas é o ofício… Por outro lado, apresentei projetos que acredito serem de grande importância para a sociedade, como por exemplo o que cassa o alvará do posto de gasolina que vender produto adulterado. Mas o que quero de verdade é defender o cidadão de Rio Branco. Defender de uma obra malfeita, de uma obra superfaturada, defendê-lo de filas intermináveis… sempre digo que dinheiro tem. O que não tem é gestão. Onde tiver um defeito da gestão pública, não de pessoas, mas da gestão pública, nós vamos combater. Doa a quem doer.

O senhor conseguiu as assinaturas necessárias para a instalação de uma CPI. A CPI da Emurb. O que efetivamente espera dessa CPI?

O Ministério Público já disse claramente que identificou sete milhões (de reais) em desvios, mas nós sabemos que esse volume pode ser muito maior. Tem uma delação premiada recente, na qual o delator é o ex-assessor do Jackson Marinheiro, ex-presidente da Emurb, que por sinal, está preso. Ele (delator) acabou de dizer que havia desvios de recursos diretamente para a campanha de um candidato do PT. O fato é que a Emurb é uma empresa que orgulha Rio Branco, que pertence aos rio-branquenses, mas que, infelizmente, nos últimos anos, tem sido destruída por má gestão. A CPI quer investigar tudo isso, porque é próprio do Poder Legislativo investigar e esclarecer para a sociedade o que ela de fato quer saber.

Marinheiro, acusado de desviar recursos da Emurb, foi preso novamente no dia 30 de março/Internet

Embora o senhor tenha recolhido as assinaturas necessárias, essa CPI ainda não foi instaurada pela Mesa Diretora. Por quê?

O que tenho dito frequentemente lá na Câmara é que essa CPI não deveria sofrer resistência nem da base de apoio da prefeita. Porque o ex-presidente está preso! O povo de Rio Branco é testemunha das irregularidades na Emurb. A câmara de vereadores só tem que cumprir a sua função de esclarecer o caso à sociedade. Ajudar o Ministério Público. Agora, de fato, eu vejo que a gestão municipal, liderada pela prefeita Socorro Neri, não quer essa CPI. Qual a razão para isso eu não sei. O fato é que quem não deve não teme. Quem não quer a CPI, quem não quer apurar, quem não quer esclarecer, certamente deve estar, de alguma forma, comprometido.

Como analisa a gestão da prefeita Socorro Neri?

O mínimo que um gestor público pode fazer é cumprir os princípios da gestão pública. O princípio da eficiência é primário em uma gestão. Eficiência é zelar pelo patrimônio público, pelo dinheiro público. O grande problema de Rio Branco é infraestrutura. E hoje, o que estão fazendo? Estão tapando buraco de qualquer jeito! Estão jogando o dinheiro do povo fora! Agora estamos diante de uma operação verão anunciada por ela (no valor) de 52 milhões de reais. Minha grande preocupação é como vão gastar esse dinheiro. Essa operação não tem sequer um cronograma, a gente não sabe onde a prefeitura vai atuar. A Emurb nem sequer tem rolo compressor para fazer a compactação.

O senhor acha que falta boa vontade ou competência à prefeita para administrar Rio Branco?

Acho que faltam as duas coisas.

E o governo do Gladson Cameli, como analisa?

O Gladson pegou um governo no escuro. Totalmente escuro.

“Falta boa vontade e competência à prefeita Socorro Neri”, diz Luz/Internet

E ele já acendeu a luz?

Ele já viu a luz está. Agora ele está indo acendê-la.

Muitos petistas estão sendo nomeados para cargos de confiança na gestão do atual governador. Isso o incomoda?

Eu acho que ele está acertando mais do que errando, mas eu diria que a quantidade de petistas nomeados é um erro. Mas isso não quer dizer que seja comprometedor. Não é!  Ele pegou o governo com salários atrasados. Para se ter uma ideia, teve secretaria de que levaram até os cabos da internet, apagaram os dados. O fato é que 20 anos é muito tempo. É de bom senso dar um prazo para que os resultados comecem a aparecer.

O que o motiva na política?

Eu estou na política porque tenho um sonho desde criança. Esse sonho é maior que as minhas dificuldades. Se não fosse um sonho forte, certamente eu não teria sido candidato quatro vezes, como eu fui. Perdi quatro eleições e minhas forças não diminuíram. A minha vontade de ter um mandato sempre continuou a mesma. Foi esse sonho que me trouxe até aqui. Isso tudo despertou no dia 17 de maio de 1992, com a morte do governador Edmundo Pinto. Eu era uma criança de apenas dez anos e aquilo me marcou muito. Foi naquele dia que decidi que seria político.